terça-feira, abril 10, 2007

300 (2007), Zack Snyder


Depois de ter pregado sem fim contra filmes ‘de coçar os tomates’, advogando um maior respeito para o chick flick como género de qualidade, acusando os filmes da história do cinema serem quase sempre de homens para homens, eis que vou ver o 300, assim, por impulso. Céus, sou uma criatura tããão contraditória.

Mes amis, eu também já tinha ido ver o Sin City e adorei (por acaso ou não, a parte que mais adorei foram os escassos minutos filmados pelo Tarantino, embora na altura não o soubesse…). Ah e coiso e tal, mas isso era pelo interesse estético e cinéfilo, era um filme marcante na adaptação de banda desenhada ao cinema. Ok, talvez.

A verdade é que estou a pensar fazer um trabalho sobre o peplum para uma cadeira, como ele influenciou o studio system e outras coisas históricas e teóricas que não vos interessam minimamente. E, quer dizer, eu adoro a civilização grega. E como ultimamente os filmes passados nessa época têm sido… hum… um bocado ao lado (Alexandre o Grande, Oliver Stone; Tróia, nem me lembro de quem foi o criminoso que realizou) pensei: as histórias do Sin City eram mais que porreiras, revelavam um cérebro por detrás daquilo. Aquele Frank Miller é capaz de ser bom. Buga lá ver o que ele fez à história do Leónidas.


É muito bom.


E estava a pensar acabar a conversa por aqui. Mas o meu ethos não o permite. Deixem-me justificar, então.

O ambiente do filme é totalmente artificial. Tudo cheinho de filtros e efeitos digitais, até as espigas de trigo a abanar ao vento. Os actores masculinos têm tantos músculos que também somos inclinados a pensar que são produzidos digitalmente, mas lamento meus amigos masculinos, vi umas fotos do making of e aqueles músculos são reais.

Tudo é estilizado, num agradável encontro entre banda desenhada (e o cinema tem tanto a aprender com esta arte – até eu estou a pensar começar a interessar-me pela coisa) e uma graciosidade oriental (o que não deixa de ser irónico, num filme em que vemos os ocidentais a dar cabo do coiro aos asiáticos) roubada quiçá a Kurosawa, e utilizada com toda a mestria da slow motion. (enfia esta, Bazin!)

Engane-se quem julga que é só mais uma adaptação de bd ao grande ecrã. 300 grita cinema por todos os pixels. Au au au (para quem não viu o filme, e não se importa de ler um spoiler de vez em quando, este é o grito de guerra espartano.)

E não esqueçamos que não há uma única star neste filme. Sim, nada de Russell Crowes, nem de Angelina Jolies, ou mesmo (argh) Brad Pitts e Orlando Blooms. Meus caros amigos, nada de caras conhecidas. Isso porque o protagonista Leónidas é interpretado pelo escocês Gerald Butler, que ‘vimos’ em… O Fantasma da Ópera (2004, Joel Schumacher)!!! E ele é simplesmente o Leónidas perfeito. A forma arrogante como fala com a boca cheia de maçã enquanto os seus soldados empilham os cadáveres persas… lindíssimo. E Xerxes é interpretado por um brasileiro, Rodrigo Santoro, e não sei se é por isso mas faz lembrar o Ney Matogrosso…

(já repararam que, em Hollywood, os brasileiros são sempre abichanados e os portugueses sempre contrabandistas mexicanos? Quem quer investigar isso em pormenor?)

Nem sei que diga mais. É tão raro eu não ter um segundo de tédio nos filmes que o facto de não me ter aborrecido no intervalo sequer é um óptimo sinal. Ah, antes que me esqueça. Houve para aí uma polémica qualquer sobre Leónidas ser uma metáfora para Bush, a derrotar os orientais um a um etc. Ãh? Foram ver o filme certo, de certeza? Foram ver o filme? A última pessoa em que penso quando olho para Leónidas é em Bush. Aliás, ele é muito mais parecido com Xerxes, o auto-intitulado Senhor do Mundo. Não estou a ver o Leónidas a engasgar-se com um biscoito. Além que ele era Espartano, logo, Europeu. Nós europeus somos frescos, quando provocados.

Vão ver o filme. Quatro euros dos mais bem gastos deste ano, de certeza. Au au au.

Mr. Bean em Férias (2007), Steve Bendelack


Sim, fui ver este filme em vez de ir ver O Labirinto do Fauno… Que querem, há dias em que pura e simplesmente não me apetece ver filmes bons e que ficarão na história do cinema, há dias que são dias de filme-pipoca. Este foi um deles.

É um bom filme-pipoca, sim senhora. Infelizmente, só funciona naquelas pessoas habituadas 1. a toda a mitologia mr. beaniana; 2. ao humor britânico, tão diferente do que estamos habituados na nossa pobre província de Espanha … (entre os espanhóis e Salazar, venham os espanhóis!)

Ora é um filme que prima por não obedecer ao politicamente correcto – goza com a cultura francesa, goza com a indústria do cinema… aliás, interessante pensar que a única cultura que aparece e que é respeitada sem excepção é a russa. Hum… spaseeba.

Rowan Atkinson mais uma vez na personagem que lhe granjeou fama internacional (senti falta do Teddy, onde é que ele andava?), acompanhado de um rapazinho que talvez tenha um futuro glorioso à sua frente (já não ponho as mãos no fogo por ninguém, olhem o Paul Betany a participar no Código da Vinci…) A rapariguinha que quer ser uma actriz reconhecida é engraçada, mas ainda não foi desta que o Mr. Bean arranjou uma namorada… Brutal esteve Wilhem Dafoe, no papel do realizador narcisista ao extremo. Aquele filme idiota, Playback Time, faz lembrar umas coisinhas que se fazem aqui no velho continente (mas ei, nem tudo o que passa em Cannes é assim tão sonífero… espero eu).

Momento de reflexão intelectual – lá esteve o debate película vs. digital. A primeira ainda associada ao prestígio de ser um realizador ‘a sério’, o segundo associado ao experimental, ao amador, etc… Mas tudo é cinema, certo? E, como defensora do digital como evolução lógica do cinema (baixa custos e facilita a montagem), deixo a pequena notinha de rodapé que o Senhor David Lynch – que é o Deus de muitos cinéfilos – rodou o Inland Empire totalmente usando a sua câmara caseira – e adorou. Ah, toma esta, Godard…

Voltando ao filme de entretenimento que é, afinal, o tema deste post, grandes momentos: Mr. Bean a comer marisco, Mr. Bean a dizer Non, Oui e Gracias, Mr. Bean a cantar ópera, Mr. Bean vestido de mulher a tentar entrar no Festival de Cannes, a deliciosa junção do áudio de Playback Time com o vídeo de férias de Mr. Bean.

Menos bom? Sei lá. Estava ocupada a divertir-me…

NOTA: Lusomundo, o que fizeste às cópias do The Fountain, já tido como um dos melhores filmes do ano? E que tal tirar o The Departed das salas de Coimbra e pôr lá esse filme que andamos todos (nós, que nos dizemos cinéfilos e depois compramos cds de música) ansiosos pra ver?

quinta-feira, abril 05, 2007

Música e Letra (2007), Mark Lawrence


Yeehhh, buga lavar o cérebro.... hum? Nem por isso...

Mark Lawrence, como vejo nas minhas cábulas electrónicas, fez as duas Miss Detective e ainda as Forças da Natureza. Tudo caminharia para um óptimo filme romântico, certo?
Ok, não sejamos tão más. O Hugh Grant a fazer de ex-estrela rock tem a sua piada. Os seus movimentos pélvicos também. Mas... hum... parece tãããão visto. E sabem que eu aprecio chick flicks, reconheço-lhes valor, etc. Mas tinha tanto para ser original, e falhou... Drew Barrymore. Um bocado apagadita, não? A personagem podia ser tão mais explorada, tão mais interessante... Um hurra para a rapariga que fez de caricatura da Britney Spears, a Haley Bennett. Vamos estar de olho nela.

Apetece-me chamar a atenção (a sério, eu hei-de escrever um dia a sério sobre isto) para a subversão de papéis dos sexos neste filme. Se bem que a irmã de Sophie personifique na perfeição a mulher que passa as noites a seguir as soap operas na tv, Sophe é a intelectual da história e Alex Fletcher o objecto sexual. Isto torna-se especialmente óbvio quando, após a cena de sexo debaixo do piano (em vez de em cima - algo diferente, obrigado) vemos Grant em pêlo e Barrymore pudicamente embrulhada na manta. Ok, depois temos Cora com os seus movimentos a apelar a luxúria, mas mesmo assim... algo se começa a adivinhar em Hollywood, digo eu...

O argumento está óptimo, grandes tiradas cómicas, etc. A subplot da relação esquisita entre Sophie e aquele escritor convencido foi uma boa aposta (ambos os elementos do par romântico têm problemas com o passado). A crítica à sociedade de entretenimento tipo fast-food (os best-selllers logo adaptados a filme, os programas de luta livre entre ex-estrelas, a pop star budista que julga que o Dalai Lama é, efectivamente, uma lama...) é o ponto forte da coisa, por assim dizer.

Palmas para os créditos iniciais (com o Hugh Grant com o penteado mais cómico do ano) e para os finais, se bem que a piada da operação às ancas resultou bem da primeira vez, mas à vigésima terceira já enjoava...

A música não é má, i.e., falo daquela que guia o fio condutor da história. Mas também há umas músicas conhecidas postas muito baixinho em background (começamos a pensar que a porcaria da sala não está bem isolada e estamos a ouvir o filme da sala ao lado...) que desconfio foram postas à traição para aumentar o número de faixas da banda sonora. Isso não se faz.

A elogiar também, e é tão raro haver elogios deste género neste género de filmes (estou a repetir género de propósito, só pra saberem) a fotografia. Sim, leram bem.

segunda-feira, abril 02, 2007

Pecados Íntimos (2006), Todd Field




Finalmente fui ver esta coisa.

Era melhor do que eu pensava. O tom irónico de toda a história, em que ninguém se consegue enquadrar nas categorias normais bom/mau, a forma ousada de filmar (a ilustração de pormenores enumerados pelo narrador, por exemplo da descrição e comparação da mulher de Brad, Kathy, e a marginal Sarah interpretada por Kate Winslet; o plano-sequência temporal feito à borda da piscina) e um final que é pura e simplesmente brutal na sua fidelidade ao que costuma acontecer fora dos filmes.

Todas as personagens são brilhantes, não só nas suas características (à partida definidas por Tom Perrota, autor do livro) mas nas brilhantes interpretações que os actores fazem delas. Um ave muito especial para a senhora que interpreta a mãe do pedófilo, Phyllis Somerville, e para Kate Winslet (será porque a personagem dela é minha homónima? É uma possibilidade, mas a verdade é que a adoro). As cenas de sexo são tórridas e, ao mesmo tempo, com algo parecido com humor ou sarcasmo (a loucura em cima da máquina de lavar ou os vários planos evocados pela mente de Sarah enquanto discutem Madame Bovary no clube de leitura… )

E seria tão fácil convencer-nos que o pedófilo era um homem/criança arrependido… E quando o vemos sair com aquela estranha rapariga depressiva, julgamos que tudo irá acabar bem entre eles… Sol de pouca dura. Mas para quê um tarado apenas por filme quando se pode ter vários? O amigo de Brad, que preenche o tempo livre a torturar a paciência do pedófilo, em defesa dos bons costumes (ele que tem o passado manchado), é um maníaco que nos faz ter pena do coitado do molestador de criancinhas… No fim desejamos que lhe seja espetada uma faca no bucho. Ops, mais uma vez vemos as expectativas goradas.

É tão bom assistirmos a um fim tão imprevisível, em termos cinematográficos. Tudo caminha para outro lado. Mas as tragic flaws de cada uma das personagens estão presentes até ao fim, não há maneira de as coisas acontecerem em função de um happy ending forçado. Brad pura e simplesmente não quer crescer, não quer entrar na Ordem, não quer assumir a sua vontade de separação da mulher (afinal, eles são o casal perfeito, e Sarah é tão feia…). Sarah resolve vingar-se do hobby onanista do marido entrando numa aventura que segundo ela lhe mostra o que é estar viva, e no fim mostra-se demasiado frágil para lidar com a recusa. O pedófilo é afinal um Édipo; o maluquinho defensor dos bons costumes afinal até tem bom coração.

A subtileza do filme funciona tão deliciosamente bem, é tão refrescante… Sabe bem ver um filme destes de vez em quando. Há que admitir que lembra um bocado Beleza Americana de Allan Ball, mas menos macabro, definitivamente. Todd Field tem muito jeito para a coisa, sim senhor. Está contratado.


segunda-feira, março 19, 2007

Cartas de Iwo Jima (2006), Clint Eastwood





No fundo, no fundo, o que eu queria ir ver mesmo eram os Pecados Íntimos. Mas como falaram tão bem deste filme, ah, e tal, fantástico, e como eu gostei do Mystic River e filiei-me à pouco tempo numa sociedade maçónica de lobby anti-Scorsese porque realizadores populares não prestam para a comunidade underground, lá fui. Era suposto ter ido ver Flags of Our Fathers primeiro? Mas eu tou tão farta de filmes que pregam que a América é a maior, etc…

Primeiro ponto positivo: um filme sobre japoneses falado em japonês. Isto é bom. Se não fossem os artifícios técnicos americanos e a ausência de qualquer cena de kung-fu, ou seja, fechando os olhos, até parecia um filme nipónico.

Segundo ponto positivo: o homem filma bem, mas tão bem ao ponto de meter nojo a nós, míseros mortais que nos temos de contentar com mini-dvs e digitais 8. Mas quer dizer, é o Clint Eastwood, é o mínimo que se lhe podia pedir.

Menos bom (ou seja, a razão porque 4 euros gastos nos Pecados Íntimos talvez tivessem sido um melhor investimento) – mas que raio de primeira parte longa e aborrecida é aquela? Bolas, é um filme americano! Eles sabem como nos grudar a um filme, a sofrermos com as personagens, etc etc… Que é disso? Os tipos estavam metidos numa ilha, à espera de um ataque a qualquer momento, começaram a ver que estavam fritos… onde está a angústia/raiva/desânimo?

E aqueles flashbacks… os que mostravam o comandante Kirabaschi a privar com os americanos estavam muito bons, o do momento do cão... brutal. Mas aquela treta de quando foram buscar o padeiro… não havia mesmo outra maneira de nos dizerem que ele tinha mulher e filha?

É que um filme ou quer o espectador grudado ou quer o espectador como frio observador. Se escolhem a segunda opção, aquele momento final em que se descobrem as cartas vai soar a fatela. Ah, as cartas de Iwo Jima, ai que lindo, ainda ali estão, o outro tipo enterrou-as…

Pessoalmente, acho que o filme não perderia nada em ser um bocado mais a puxar para a lamechice e emoção. A começar de uma maneira que me lembrou logo o Titanic, nem iria parecer desbocado. Ou o Eastwood é demasiado macho para esse tipo de coisas? Não me parece…

É que se não fosse a primeira parte que se arrasta de maneira interminável… (apresentar as personagens durante uma hora e meia, quase? Ãh?), o filme era tão bom. Com japoneses a explodirem com granadas agarradas contra o coração… E o tipo que queria arrebentar com os tanques…

Quer dizer, não me apetece ver o filme outra vez. Ná. Estava à espera de ser arrebatada e népias. Há bons momentos, mas nunca se chega a um orgasmo cinematográfico.

Pronto, e estou chateada, porque começo a pensar que se calhar o The Departed era mesmo o melhor filme e isso é um pensamento que me perturba profundamente. Argh.

Se calhar estou é farta de filmes de coçar os tomates e beber minis… (que foi um termo que inventei mesmo agora para contrapor aos tãos criticados chick flicks… )


Venham os Pecados Íntimos. Subúrbios americanos sempre deram bons filmes. Acho eu.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Scoop (2006), Woody Allen




Pode-se dizer que estamos a assistir a uma moda de filmes sobre mágicos (O Ilusionista; O Terceiro Passo; e, um pouco no gozo, mas no fundo a sério, acrescento todos os Harry Potter) e com baralhos de cartas, mas um Woody Allen é um Woody Allen, e, como tal, eu, que não tenho perdão por ter perdido o Match Point, decidi, não!, nem pensar em perder este. E lá fui, toca toca, em direcção àquela cadeia de cinemas que eu tanto odeio mas à qual tenho de ceder para ver o que a indústria cinematográfica vai vomitando, enquanto a náusea está fresca. Isto de ler Sartre e biografias do Shakespeare ao mesmo tempo deixa-me um pouco mórbida, desculpem.



A história é bestial, como sempre. Simples, com desfecho não óbvio (ou será que estamos tão ocupados a rir que nem nos damos conta que caminhamos para o fim?), Hugh Jackman no papel de Peter Lyman, um jovem milionário bastante charmoso e possível serial killer do tarot, Scarlett Johannson a mostrar que afinal até é boa actriz, só que de vez em quando esquece-se (o Woody também lhe deve dar nas orelhas com força), Woody Allen a fazer de ilusionista (bastou aparecer e o público começou a rir – tenho de considerar a hipótese de existir um público culto em Coimbra, mas a ideia por si é assustadora), e tudo o que há num filme de Woody Allen: o neurótico (agora a dobrar, Scarlett e Woody dupla de força dos óculos de massa), as piadas sobre judeus, o momento estranho (a barcaça da Morte só podia vir da mente retorcida do meu cwarinetista realizador de eleição), os diálogos são TÃO BONS, com aquelas frases que nos lembraremos daqui a anos (gostei especialmente daquela ‘eu nasci na religião hebraica, mas cedo me converti ao narcisismo’) que, de facto, ao assistirmos a um humor inteligente que não recorre ao calão, à escatologia ou à crítica política para nos fazer rir, até nos esquecemos de fazer uma avaliação da coisa em si. Além de que é Woody Allen, e, não fosse o facto de tanto ele como eu sermos ateus, eu diria que era Deus. Por isso vou-me limitar a uma análise assim um bocado no ar, sem qualquer sequência lógica ou pretensão de ethos, como aliás é meu costume.



A notar que é o primeiro filme de Allen (que me lembre, também não nasci assim há tanto tempo…) que não usa o jazz mas sim a música clássica. Grieg, para ser exacta. In the Hall of the Mountain King, se não me engano. Para os leigos que não têm a felicidade de ter quatro anos de Conservatório e uma colecção de cds upa upa como eu, é a música do Grinch. Ahhhh. Bastante adequada, aliás. E mais umas coisas que eu, embrenhada no Jackman, nem me lembrei de pensar o que era. E não deixa de ser Allen por isso. Fantástico. O homem é um génio.



Grandes momentos: a barcaça da Morte (sempre que aparece é o êxtase), o aparecimento do espírito do jornalista frente aos olhos de Scarlett e Woody, a festa em casa dos Lyman com todas as inconveniências do ‘pai’ de ‘Jade’, Woody Allen a tentar conduzir pela esquerda (ele dá todo um charme àquela coisa estranha que é o Smart), o momento em que a verdade é toda revelada.



A fotografia aposta nos tons quentes, uma Londres tão solarenga que começamos a duvidar que o filme tenha mesmo sido filmado lá. Ah, the british accent…



A ver, absolutamente, porque eu digo que sim e eu é que sei. Do alto do meu poder como membro mais recente da Igreja do Narcisismo. São Narciso vos abençoe ya men.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Jules et Jim (1962), François Truffaut

Eis o primeiro filme da Nouvelle Vague que eu vi no início ao fim. O meu primeiro filme do Truffaut (que gosto de tratar carinhosamente por Trufas). Um marco na minha quase inexistente cultura cinéfila.

Uma história de um triângulo amoroso por várias décadas. Claro que eu tinha de ir ver, não é, mes amis? Adoro histórias de amor a três, são TÃO divertidas… desde que se limitem às páginas de um livro ou ao ecrã, claro. Acho eu.

Jules e Jim, um austríaco e um francês, grandes amigos, divididos pela existência de Catherine, uma mulher com M grande, que tem uma concepção deliciosamente progressista do Amor. Je t’aime, je ne t’aime pas, peut-être je t’amerai quelque jour, je t’aime non plus… A actriz Marie Dubois é absolutamente encantadora, inspiradora, como a compreendemos e odiamos ao mesmo tempo por brincar com os sentimentos do pobre Jules (sim, porque Jim é da mesma farinha que ela…).

O homem que diz ‘os cinéfilos são pessoas doentes’ mostrou-me que a Nouvelle Vague não era o papão que eu sonhava, depois de ter tentado ver três vezes o Toujours Mozart do Godard. Mais, uma adaptação literária (da obra homónima de Henry-Pierre Roché) que não hesita em utilizar frases e frases numa voz-over que fala à velocidade da luz. Sem se tornar aborrecido. Aprendam, portugueses de Portugal! Para mim, que estou a braços com uma adaptação, foi inspirador.

A montagem é rápida, incisiva, dá todo um ritmo que não nos deixa bocejar. Grandes frases presentes por ali e acolá (gostei especialmente daquela: numa relação um dos membros tem de ser sempre fiel. O outro.)

Até tenho medo de dizer seja o que for sobre o filme. É bom, muito bom. Chega? Tem a avaliação do tempo a apoiá-lo, quem sou eu pra dizer mal? Aliás, nem sei o que dizer mal.

Pontos positivos: vontade de ver mais filmes do Trufas. Isto pode ser o início de uma bela amizade (sim, também já vi o Casablanca, alas…) E mais, resolvi dar uma nova oportunidade ao Godard, desta vez começando a ver Le Mépris, com a Brigitte Bardot, que está prestes a tornar-se na minha Mónica Bellucci vintage… Só aquele ar de fastio…

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Babel (2006), Alejandre González Iñárritu

O grande favorito aos Óscares. À frente do The Departed do Scorsese. Só isso já era razão para eu o tornar o meu favorito também, não acham?

Tenho a dizer que nem era para ver o filme agora. Estou completamente avassalada pela quantidade de trabalhos sérios e dignos que tenho de apresentar na próxima semana, ou seja, sair para ir ao cinema era extremamente improvável. Além do mais, a minha oftamologista recomendou-me que eu fizesse pausas do computador para descansar a vista (já vou nas 4.30/4.30 – pitosga mesmo).

Bem, deixem-me copiar o nome do realizador. Alejandro González Iñárritu. Não é um nome lá muito artístico, deixem-me dizer. Mas o meu também não é. Mais fácil falar do realizador de Amorres Perros e 21 Gramas. O primeiro, não consegui ainda ver, porque se há coisa que eu não suporte são cães a serem mortos à dentada. O segundo, vi sim senhor (estranhamente, considerações à parte, ver pessoas serem esventradas até à morte não me faz diferença nenhuma. Isto porque não acredito na bondade da Humanidade. Mas as lambidelas do Dumas são genuínas.) Sim senhor, prémio melhor realizador em Cannes 2006. Merecido. O rapaz sabe o que faz, é adepto daquela forma de filmar muito moderna, toda tremida, trata de assuntos interessantes, não faz nus gratuitos (aliás, apresenta o nu de uma forma tão natural que até nos esquecemos que estamos a ver alguém nu) e usa o Baenal. Façamos figas por ele. Ou pela Sofia Coppola, embora talvez este mereça mais.

De novo, várias histórias interligadas, bem ao estilo do Iñarritu (se ele vai ganhar o Óscar, é bom que me habitue a escrever o nome dele. Que diabo, consigo escrever Krzysztof Kieslowski de uma assentada, é uma questão de hábito). Uma com uns rapazinhos marroquinos, outra com um casal americano a passar férias em Marrocos (Brad Pitt com uma barba extremamente interpretativa e a minha cara Cate Blanchett que mal posso esperar para ver o The Golden Age), os filhos destes e a sua ama mexicana, numa visita forçada ao México acompanhados por aquele que espero que nunca se torne um sex-symbol, senão perde a piada toda (ok, um sex-symbol underground, é o máximo que permito), e por fim uma rapariga japonesa surda-muda que tem uma frustração imensa em não arranjar alguém que a leve para a cama. Tudo ligado no fim, como é óbvio.

A história que gostei mais? A da japonesa. A forma como o realizador mostrou as dificuldades dela em ter uma adolescência normal com as suas limitações (o momento na discoteca, a montagem sonora, então, … brutal), o desespero dela (sobretudo no último momento com o detective)… talvez a história mais perto da minha linguagem de vida, por assim dizer (note-se que o filme se chama Babel por lidar com isso mesmo, linguagens diferentes – em termos linguísticos e em termos de cultura). A situação mexicana, ultimamente tenho visto muito em filmes. Estou-me a lembrar do Traffic, que por acaso vi recentemente, e uma curta sobre os imigrantes ilegais que passam a fronteira à força. É uma situação ridícula e dá-me cada vez mais repugnância pensar o quão mesquinha e narrow-minded é a ‘home of the free, land of the brave’, que, caso não se lembrem, começou por ser o caixote de lixo da Europa, um verdadeiro melting pot. Era de esperar que fossem mais tolerantes, é o que quero dizer. E a questão de Marrocos, ligada ao tão popular tema do terrorismo… nem vale a pena falar. Todo o preconceito, aqueles turistas histéricos com medo de serem assassinados por marroquinos… quanto muito, obrigados a comprar um tapete, agora assassinados… andam a ver muitos filmes, vê-se logo. Ou a sacá-los da Net, têm ar disso. A estragar o meu futuro económico… Humpf!

Desempenhos: adorei o da rapariga chinesa da qual nem sei o nome, o Baenal estava muito bem, a tia dele talvez seja o desempenho que mais sobressai, os miúdos marroquinos, especialmente o mais novito – dêem-lhe mais papéis em filmes, por favor – Cate Blanchett, não deu bem para ver, basicamente passou o filme a esvair-se em sangue, Brad Pitt estás perdoado pelo Tróia (e não cortes essa barba), e acho que é tudo em relação aos desempenhos.

Grande maneira de filmar, só digo isto, muito moderna, muito a imitar o amador e contudo com planos brilhantes, tudo com um ar tão espontâneo e todavia tudo cuidadosamente pensado (de novo refiro a cena na discoteca), grande encenação do casamento mexicano (um ambiente que passou muito bem para o espectador… hum, talvez para as raparigas atrás de mim que não paravam de rir feitas idiotas – e acrescento que todos temos o direito aos nossos dias de idiotice – não tenham captado muito bem. Agora que penso nisso, talvez sejam as mesmas que ficaram atrás de mim a ver o Tróia e que não paravam de falar das pernas do Brad Pitt, que ironicamente nem eram dele mas sim dum duplo).

Foram três euros bem gastados, mais juntando o facto de que a Lusomundo não fez intervalo. Hip, hip, Hurrah! Sim, porque um intervalo dá sempre, aos cinéfilos e anti-pipocas nas salas como eu, uma sensação de coitus interruptus que não é nada saudável. Eu sei do que falo. Eu sou a doença em pessoa. ;) Por isso é que tenho um fetiche pelo Dr. House. (ai, a crítica estava a ir tão bem…)

Sim, espero que seja nomeado. O primeiro filme que vi este ano, parece-me que comecei bem. Venha o Scoop, o Apocalypto e o Contado Ninguém Acredita. Eu cá vos espero…

Nota: O Body Rice também, mas esse espero pelos Caminhos…

quarta-feira, janeiro 03, 2007

The Prestige (2006), Christopher Nolan


Oba, oba. Finalmente acertei num filme decente. Há quanto tempo…

Século XIX, finais. Dois mágicos rivais. A Scarlett Johansson a fazer de assistant de ambos, amante de ambos, etc etc. Um mata a mulher do outro sem querer. Ou não. As vinganças sucedem-se e acabam na morte de um, sem que o outro tenha a ver nada com isso. Ou não. Grande final, embora isto de ler livros sobre guionismo alternativo faça com que a meio do filme já saibamos como é que vai acabar. Mas mesmo assim, consegue manter-nos interessados. Oba oba.

Cristopher Nolan, és o terror da narrativa. Este é especialmente confuso – de repente já nem sabemos em que raio de tempo estamos (defeito ou qualidade? Nem sei dizer). O twist final não é óbvio, mas o que surpreende mais são todas as outras revelações. Qual é o truque, ãh?

Hugh Jackman, tinhas de ser bom rapaz (afinal, fizeste um filme com o Woody Allen, novamente a contracenar com a Scarlett – nem penses em trair-me com ela!). Charme, charme, charme. Contudo, é o outro rapazinho que me captou a atenção. Christian Bale. Fez-me lembrar, de certo modo, o Grenouille de O Perfume (sim, vou defender este filme até às últimas consequências, até que o mundo saiba como é bom). A interpretação é impecável. Nunca percebemos se o Alfred é uma vítima ou um carrasco. Aliás, finalmente um filme sem personagens boazinhas (virgenzinhas e boazinhas, acrescentaria eu). Scarlett Johansson, não apareceste tempo suficiente para eu tecer considerações. Guardo-me para ver o que fazes no Scoop. Sim, estou de passo atrás contigo. Demasiada fama muito depressa. Não faz bem a ninguém. Que saudades de ti no tempo em que ninguém te conhecia e eu te adorei ver em A Rapariga do Brinco de Pérola.

Grandes momentos: o coitado do Jackman a partir a perna, todo o embuste dos diários, a morte da mulher de Alfred, o duplo bêbado, o truque da gaiola e o resto vejam vocês que não gosto de ser spoiler.

A ver, absolutamente, no grande ecrã que no pequeno os truques passam-vos despercebidos. Nota negativa: espero sinceramente que nenhum pássaro tenha sido magoado durante as filmagens. Senão eu mesma me encarregarei de avisar a Sociedade Protectora dos Animais.

Post-Post (giro por extenso, não?): Já repararam que as minhas críticas cinematográficas estão cada vez menos profissionais? Oba oba.

Saw 3 (2006), Darren Lynn Bousman


Vamos fazer um jogo. Vamos definir o que é um filme de terror.



FILME DE TERROR - Filme que, de algum modo, assusta o espectador.



Bem, partindo disto, não sei em que raio de género hei-de colocar este filme. De autor não é, de certeza. Estou inclinada para o gore. Ya, para aí.

Não, não vi o início da trilogia (que, para mal dos nossos pecados, vai ser uma quadralogia - um desejo de Ano Novo que foi ao ar...). De qualquer modo, lá fui (pagaram-me o bilhete).

A ideia de um serial killer que tortura pessoas para ver o quanto elas valorizam a vida (perversão das perversões, o salvarem a vida implica sempre algum tipo de auto-mutilação ou enfiar as mãos nas entranhas de outra pessoa) é interessante. Deve ter sido por isso que o primeiro filme (dirigido por James Wan, da Malásia) teve tanto sucesso. Ora, alguém deve ter dito que o filme tinha pica porque apareciam uma data de tripas e coisa e tal. Quem vê o Nip Tuck, mes amis, está habituado a situações muito mais gore que estas. Falando nisso, o momento em que realmente há um nojo generalizado pela sala é o da operação ao cérebro do assassino.

Nem quero falar dos actores. Nada de especial. Pelos vistos o fim era bom, para quem tinha visto os outros dois. A mim pareceu-me um pouco forçado, estilo novela a acabar forçosamente mal. E que treta era aquela dos ciúmes da outra? Ahein?

Mas quem sou eu para falar. Eu só gosto de terror psicológico. E em termos de Psicologia, a única pergunta que se impõe é: para quando um filme de terror a sério, seus serial trilogists?




quarta-feira, dezembro 13, 2006

The Holiday (2006), Nancy Meyers


Sim, eu gosto de chick flicks. Porquê?
Aproveito e agradeço aqui à Kel, essa ganda amiga que me levou com convite à antestreia do filme 'O Amor Não Tira Férias' (nem eu, por acaso...) E vocês podem pensar, ah, por isso é que ela foi ver, mas desiludam-se. Eu queria mesmo ver o filme. Sim, dar 4 euros para ir ver uma comédia romântica de Natal. Eu, uma estudante de cinema a descobrir os prazeres do cinema polaco e russo. A ver filmes da Nancy Meyers.
Primeiro que tudo, é um óptimo filme de género. Boas gargalhadas, quentinho cá dentro quando saímos da sala, confortadas com a ideia que ainda há happy endings na vida real. Kate Winslet como nunca a viram, a interpretar a mulher mais frustrada e sem auto-estima que faz arrepiar os meus pêlos da nuca. Cameron Diaz (ou, como um certo professor meu goza, a Camarão Dias), a strong woman do filme, workaholic, a mulher que eu um dia tenciono ser, basicamente. ;) E, claro, Jack Black estranhamente a afirmar-se como herói romântico (bastante credível, aliás) e Jude Law, aquele homem que me conseguiria levar ao altar em 5 minutos, sem eu pensar sequer duas vezes, no papel do costume ou assim julgamos no início.
É óptimo que o filme não tenha pretensões além de ser o que é, uma Comédia Romântica prás gajas sozinhas que vão fazer compras de Natal e se sentem deprimidas. Mesmo assim, o jogo que se faz com os trailers é bastante original, tanto que não me importaria (?) de o ver explorado até à exaustão. Outros Grandes Momentos : toda a homenagem feita aos anos dourados do cinema pela personagem do argumentista Alfred, os diálogos (da realizadora - isto classifica-a como auteur?), o momento no clube de vídeo, com o cameo do Dustin Hoffman, Cameron Diaz a lidar com a neve de saltos altos e malas, o telefonema trocado... argh, tantos. Menos bom: bolas, é apenas uma comédia romântica, não se pode pedir muito. Entretenimento puro, bom para lavar a cabeça, tentar despertar o espírito natalício e varrer para longe todo o anti-men movement.
Ok, não digo que vão ao cinema vê-lo, mas quando passar nas matinés de Domingo da televisão pública, não o percam. Vale a pena.
PP. Que raio de empresa de legendagem contratou a Lusomundo? Cada subtitle, cada palavra com letras trocadas! Mas uma pessoa paga o bilhete pra quê, além de ter de gramar com intervalos e cheiro de pipocas?

PP2. Um dia hei-de fazer um manifesto pelo chick flick . A sério. Este mundo de machões do Rambo e do Rocky nem sabem o que os espera...

sexta-feira, novembro 24, 2006

Maria Antonieta (2006), Sofia Coppola


E as primeiras palavras que se impõe nesta crítica são : FINALMENTE!!!!

Após um longo ano de espera, mes amis, Marie Antoinnette da senhora Coppola dignou-se aparecer em Coimbra, já um mês depois da estreia oficial neste 'pedaço de merda à beira-mar plantado', como já ouvi dizer nem sei por quem. Mas não interessa. Mais vale tarde do que nunca.
Primeiro ponto: um filme deitado abaixo pela crítica portuguesa é sempre um filme a ver. Depois, a oportunidade de me espetar no cinema sozinha (mesmo sozinha, ninguém na sala) é a não desperdiçar (nota para o futuro: fazer isto mais vezes). Por fim, o filme é bom, inovador, e resulta muito bem se entrarmos no espírito da coisa - adolescente lançada aos monstros, incompreendida, etc etc.
Bem, a música e a maneira de filmar chocam mesmo com a ideia de filme de época, biopic, whatever. Talvez por isso tenha sido tão mal recebido. Uma coisa é o Coração de Caveleiro, que não pretendia representar nenhuma realidade histórica - está cheio de anacronismos, tipo a armadura da Nike - e é um teen pic, o que afasta os senhores críticos barbudos todos. Agora, a filha do Coppola a fazer isso com a vida de alguém que existiu - ui, cruz credo, acudam. Sim, foi apupado em Cannes, e como lá também se riram no Código Da Vinci, talvez isso quisesse dizer alguma coisa, mas sabem como é a droga nesses festivais - bate forte e o cor-de-rosa dá tripes maradas.
Todo o ambiente é de auteur, a história está bem contada (adorei o facto de ter terminado quando e como terminou), Kirsten Dunst muito protagonista, olhos todos pra ela, nem sequer me lembro da interpretação dos outros - é pra verem como ela esteve bem. Todo aquele cor-de-rosa, fantástico, muito kitsch, os bolos que fizeram a minha barriga rosnar, os fogos-de-artifício, a ópera,... muito Coppola, muito soft, muito queridinho, muito bom.
A realçar o uso do som e do silêncio, tudo muito bem pensado, aquele tique-taque infernal no quarto da Maria Antonieta, os 'paxarinhos' - aprendam, cineastas portugueses!
Grandes momentos: todas as cenas nocturnas entre Maria Antonieta e o Rei Luís (que devia julgar que as crianças vinham das couves ou qualquer coisa assim), o jogo 'guess who I am', a traição com aquele conde 'gostoso' -ui ui a minha fidelidade -, os pequeno-almoços, a festa de anos da rainhazita, etc etc etc. Bolas, vejam por vocês. E não, não recebo parte dos lucros do filme. Apenas me chateia que andem tão mauzitos com os filmes que saem das histórias de gangsters e atentados terroristas. Isso sim é um lobby americano.
Não me apetece dizer mais nada, vou ter aula. Talvez republique o post depois de uma reflexão profunda, ou não. Definitivamente não.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Perfume (2006), Tom Tykwer


Sim, a Maria Antonieta já chegou a Coimbra (demorou-se porque se esteve a vestir), mas eu tinha, absolutamente, de ir ver este filme. É com alegria que anuncio que SIM, li o romance de Patrick Süskind antes de ver o filme e – é tão raro isto acontecer – NÃO, não fiquei NADA desiludida com o filme. Agora que aprendi o valor expressivo de usar maiúsculas num post, não quero outra coisa. Agora que descobri que é possível uma adaptação que capture a essência – percebem, essência, perfume… hoje sinto-me genial – de um livro, não vou perdoar ou ser complacente (vêem? Até uso palavras caras…) com os próximos Harry Potter, nem com nada do género que nos reserva o futuro.

O filme é MUITO BOM, mesmo. Conseguiu libertar-se do estigma da adaptação - e agora vou citar João Mário Grilo, só pra dar uma de snob que por acaso anda a ler sobre estas cenas: Regra geral, basta que um filme enuncie claramente que é “adaptado de…” para que sobre ele pensa, imediatamente, uma hipoteca identitária, com o seu rosário de especificações e – pior ainda – comparações. («O cinema não filma livros…», in Discursos. Estudos de Língua e Cultura Portuguesa, nº11-12 (Outubro de 1995/Fevereiro de 1996), p.210). Tenho de confessar que sou uma daquelas pessoas que gosta de ver adaptações fiéis que excedam o original, se possível. Este filme é um desses casos.

Pronto, tenho de falar do filme propriamente dito. O realizador, Tom Tykwer, é o mesmo de Lola Corre Lola - ou seja, o tipo tem efectivamente um fetiche por ruivas. Os actores principais são ilustres desconhecidos. O rapaz que faz de Jean-Baptiste Grenuille (Ben Whishaw), se bem que mais bonito do que a imagem transmitida por Süskind, faz um papelão daqueles de fazer muita impressão. Ele veio para ficar, mes amis, ouçam o que eu vos digo. Pelos vistos fez de criado da Pórcia no Mercador de Veneza - bem me parecia que a cara não era estranha.
Algures li uma crítica (naquele jornal que começa por P, acaba em O, e é sinónimo literal de audiência) – negativa, porque crítico de jornal é um monstro sempre muito mal disposto para tudo o que perturba a sua normalidade de matiné da Sic de tarde – a evocar Hannibal Lecter. Sobre o Silêncio dos Inocentes, devo ser das únicas pessoas que leu o livro e não viu o filme. Mas percebo a ideia. Sim, um serial-killer sem sentimentos que procura o perfume ideal, estou a ver as semelhanças. Mas negar que a história de Süskind é muito boa – mais não seja pelo incrível twist final e pelas descrições abrasadoras de algo tão indescritível como o é um cheiro – só porque é um best-seller de há 20 anos e muita gente a leu – francamente! É o mesmo que negar originalidade à J. K. Rowling só porque combina Tolkien com Enid Blyton – que mal tem uma pequena mistura de vez em quando, seus puristas manhosos? (Eu hoje tou pra defender o Harry Potter – a obra literária, bem entendido. Sim, literária) Há imensas histórias de serial-killers, ora essa, e esta é radicalmente diferente do comum – quanto mais não seja pela temática do ofício de perfumista. Senhor Jorge Mourinha, go f*ck yourself, seu escritor falhado. Sim, falar sobre o filme. Não me esqueci.

Retomando os actores, o tipo que faz de Grenouille está nos trinques. As ruivas, pronto, além de serem ruivas passaram um bocado ao lado. A virgem final – a 13ª essência – devia ter algo mais nela para suscitar a obsessão de Grenouille além daquele cabelo fenomenal. Um Dustin Hoffman irreconhecível até ao momento em que abre a boca – ainda estou para decidir se isto é uma crítica ou um elogio, desculpem. Alan Rickman, ou ‘Snape’ – deve ser por isso que o Harry Potter não me sai da cabeça – mediano, mediano.

O argumento adaptado, como acho que já perceberam, está genial. Claro que a Caroline Thompson tinha de estar metida nisto. Uma tipa que se mete com compositores tem necessariamente de ser genial (pronto, a primeira private joke deste blog. Já tardava…). Para quem a não conhece, sim, é uma habitual colaboradora de Burton. Não se percebe? :) (eis o primeiro smiley do blog)

A fotografia está de bradar aos céus a perguntar: “Deus, porque não contrataste este director de fotografia para te ajudar durante a Criação? Sua divindade inconsequente e inexistente…”. Todas as cores de Grasse estão – ui – aromáticas como tudo. Uma das virtudes deste filme – ou terá sido dos comprimidos da gripe? Ou de ter estado três dias sem sentir o cheiro das coisas e estar cheia de saudades? Sei lá – é evocar os cheiros tão bem ou melhor do que o livro. Para mim o cheiro sempre foi um elemento potencialmente cinematográfico. Nos inícios do cinema ainda tentaram, mas sabem como é, era algo tão ridículo, raspar uma lista em determinado sítio correspondente a determinada altura do filme… Tenho perfumes que associo a filmes, o da pessoa mais perto de mim que se encharcou antes de vir para a sala. (por isso é que para mim ir ao cinema é que é. Em casa o único cheiro que tenho é a comida ou a cão.) Toda aquela fruta tão viva, aquelas flores coloridas, a própria banha… hum! Uma verdadeira Gesamtkunstwerke…

Momentos memoráveis – o nascimento de Grenouille, os da vendedora de ameixas, enquanto viva e enquanto cadáver, a casa do perfumista a desabar, todo o empenhamento de Grenouille na sua colecção, e, last but not least, o momento em que Grenouille sobe ao cadafalso – e para não ser acusada de spoiler, não vou adiantar mais. Claro que o final touch tem muito que se lhe diga…

Quatro euros muito bem pedidos emprestados para ver este filme. Sem dúvida. Subiu a fasquia para os próximos que for ver, disso tenho a certeza. Mais um que vai para a colecção de DVDs mal fique a um preço decente – isso diz quase tudo, não? Snif snif.

PP- Nunca entrei dentro de tantos narizes como neste filme, disso tenho a certeza… Otorrinos, este é o vosso filme por excelência.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Children of Men (2006), Alfonso Cuarón


Lá tive de ir ver este, já que a Marie Antoinnette está longe de aparecer pelas salas de Coimbra...
Alfonso Cuarón será sempre para mim o senhor que salvou o Harry Potter das adaptações fatelas. E isso é dizer muito. Sim, o terceiro volume da saga é um dos mais interessantes, mas a capacidade de estragar uma boa história anda por aí à solta e é imprevisível (cf. Ron Howard e o seu bloca buster do Vinci). E que o tipo tem jeito para a coisa, ninguém o pode negar.
Sobre os Filhos do Homem, bem, é um bom filme. Poderia ter mudado a minha vida se eu tivesse ido noutro estado de espírito ao cinema, i.e., sem a vontade irresistível de fazer piadas de tudo e mais alguma coisa. Digamos que me ri muito de coisas supostamente dramáticas, mas o filme, como todo o seu humor negro (para mim um dos melhores traços do filme) puxa pra isso.
A história passa-se numa Inglaterra futurista e perfeitamente verosímil. Terrorismo e poluição com força, e, pior de tudo, deixou-se de parir. Ou seja, a raça humana caminha para a extinção. Eis senão quando surge Clive Owen (o único ponto positivo do Reino dos Céus de Ridley Scottex), muito conformado com a sua vidinha de merda, e, de repente, tem a oportunidade única de salvar o mundo com chinelos de enfiar no dedo. Hurrah!
A história é excelente. Ainda mais quando podia ter fugido para fatela em tantos momentos. Matar a Julianne Moore logo na primeira meia-hora de filme (seria por honorários demasiado altos) foi uma boa opção. A tipa estava com um ar muito sonsinho, e o Clive Owen é muito mais atraente quando não tem tipas a cuspir-lhe bolas de golfe para a boca. Nada é desnecessário, os pequenos pormenores estão muito bem pensados, um final brusco, para deixar espaço à interpretação da obra aberta. Ou não.
Clive Owen, brutal, esse sotaque parte tudo, mas, muito mais que isso, és um cabrão de um bom actor e ninguém te pode tirar isso.
É um filme cheio de bons momentos. O nascimento do bebé, a saída do prédio por entre as caras espantadas de todos (e a explosão súbita que nos arranca do ambiente onírico), e mais que tudo, a ideia de salvar o mundo de chinelos. Ainda melhor que a ideia de construir um império de roupão (cf. Hugh Heffner).
A verdade, mes amis, é que eu tenho um estranho fascínio por filmes futuristas. Fui ver O Dia Depois de Amanhã ao cinema, e isso diz muito. E o meu filme preferido é o Inteligência Artificial. No fundo, eu adoro ficção científica, mas não fica nada bem a uma gaja dizer isso.
Vale a pena todos os cêntimos do bilhete. A sério. Não me desiludiu, pelo contrário. Ultrapassou em muito as expectativas.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Rapace (2006), de João Nicolau


Vi este filme na competição internacional do IMAGO, e pude compará-lo com o melhor que se faz a nível mundial por jovens realizadores. Sim, eu sei que ganhou um prémio em Vila do Conde. Sim, esteve em Cannes na Semana dos Realizadores. Sim, se há alguém que não é expert em cinema português (ou mesmo cinema a nível geral) sou eu, que passei a adolescência a ver teen pics e filmes de serial killers. Sei isso tudo. Só não sei porque raio insistem que esta é uma boa obra. A sério. Expliquem-me.

OK, OK, o tema até prometia. Um pouco pseudo, mas temos de dar um desconto porque, afinal, o português é mesmo assim. Pretende dar uma de snob intelectual sem as bases para o ser. Mas o tema não basta para fazer um bom filme. Quer dizer, de boas intenções está o inferno cheio…

No mesmo festival tive a oportunidade de ver um filme de Adam Smith, em animação, chamado The Boy With No Name. E escrevi junto à descrição do fime ‘imitação descarada de Tim Burton’. Ora, este homem é bom, e não me cansarei nunca de dizê-lo. Nunca me desiludiu. Agora, Tim Burton só há um, e é ele. Copiar-lhe o estilo descaradamente sim, de certo modo é uma homenagem, mas não tem valor para além disso. Do mesmo modo que a maioria dos cinéfilos despreza o cinema comercial por não ter marca de auteur (e incluo-me neste grupo – são bons para lavar o cérebro apenas, para distrair, daí a designação recente de cinema pipoca), que podemos dizer de um cinema que imita a marca de auteur de outros.
Ora, quando saí da malfadada sessão, pensei para comigo – ‘ou o tipo está a tentar fazer uma imitação do João César Monteiro, ou julga, coitado, que está a inventar algo de novo’. Conheço a obra do César Monteiro melhor que conheço a do senhor Manoel de Oliveira – sorry! – e até que tem a sua piada estética, embora para mim aquilo não seja bom cinema. Um cinema baseado numa teoria estética, ou num conceito, cinema conceptual, chamemos-lhe assim, é… interessante, mas não é bem cinema. É filmar teses. (é a minha opinião e, como tal, já sabem, não tem qualquer valor whatsoever). Voltando ao João Nicolau, depois de ter espalhado aos quatro ventos o quão mau o filme é, a Lília orientou-me uma entrevista do realizador à Y do Público, edição de 5 de Maio 2006. E, tcharam! O senhor Nicolau tinha montado o último filme do Monteiro, assim como organizado a retrospectiva para a Cinemateca. Experiência prévia na realização: documentário (o rapaz vem da área da Antropologia). Afirma não ser cinéfilo (mas que raio de realizador é este? Ou quer dizer que não tem conhecimentos na área da história do cinema? É que são coisas diferentes. Soa a desculpa…)
O meu grande problema, daí a raiva sobre esta questão, não é ser um trabalho abaixo do razoável (erros de continuação e técnicos num tipo que já fez montagem a nível profissional? Que é isto?), porque, no final de contas, é um primeiro trabalho e nem todos podemos ser o Orson Welles. Tenho a certeza que o rapaz, se continuar por aqui, e parece-me que tem intenções, vai acabar por descobrir um estilo próprio e quiçá, tornar-se uma referência. Agora, engraxar o menino a dizer-lhe que Rapace é formidável, etc, etc… Por favor! E ao ler a reportagem da Y fiquei com sérias dúvidas se o sr. Vasco Câmara tinha visto o filme ou, numa atitude de aluno do secundário, sacado o resumo da net… Ok, numa reportagem sobre um realizador criticar negativamente os seus filmes não faz muito sentido… mas das duas uma – ou pensa o que disse e então discordo dele, ou então dourou a pílula e então pergunto – cadê a honestidade para com os leitores? E um prémio em Vila do Conde? A droga por esses lados deve bater bem!

Mas o que me irrita mais é julgarem que eu não gostei porque não percebi a intenção. ‘É representação teatral, os pormenores técnicos que falham são de propósito!’ Pois, e eu sou a Leonor Teles. O Hugo Leitão –ignoro qual a sua formação na área – é um péssimo actor de cinema teatral. Isto é, é a pior representação teatral no cinema que já vi. Não consegue transmitir a ironia e a alienação dos actores às ordens de César Monteiro. Ah pois, a mim não me vendem gato por lebre. As lebres tem orelhas compridas e não fazem ‘miau’!

Tinha mesmo de gastar o teclado do portátil com isto. São pequenas coisas como esta que me explicam porque é que o cinema em Portugal está tão mal. De um lado, pipocas e coca-cola para os filmes mais vistos de todos os tempos. Do outro, os pseudo-intelectuais que passam a vida a dar palmadinhas nas costas um dos outros, com medo de dizer que o rei vai nu porque podem passar por ignorantes da moda.

Para quando um cinema pós-César Monteiro e pós-Oliveira, pessoal adepto do film d’auteur? E onde estão os filmes comerciais que não roçam as novelas bregas televisivas, cujos lucros estão em directa proporção com o tamanho das mamas da actriz (atroz) principal?

segunda-feira, outubro 23, 2006

A Dália Negra (The Black Dahlia), de Brian de Palma- 2006



Tenho de confessar, não conheço muito bem a obra do sr. de Palma. Ou seja, ignoro se o filme corresponde às expectativas dos seus múltiplos admiradores, assim como não sei identificar as marcas de estilo daquele que é conhecido como o mestre dos filmes de gangsters, ou assim o dizem os livres teóricos e a Internet. Anyway…

‘The Black Dahlia’ é um noir do século XXI. Só por isso, merece uma ovação. Hurrah! Pronto, chega. E está muito, mas muito mesmo, bem filmado. A raiar o impressionante. Palmas para isso também. Particularmente interessante o momento em que surge o cadáver da put… perdão, da rapariga em questão. Nunca é filmado na totalidade. Só pedacinhos. Por um lado, lá estava eu com medo e repulsa antecipada pelo que sabia ali estar (a descrição do polícia é bastante enervante, não?), por outro, o desejo macabro de ver um corpo aos pedaços. Blhec! Lá me satisfazem a vontade, mais à frente. Pormenores, é certo, mas são eles que distinguem um bom realizador de um… vejamos, Spielberg nos dias da ‘Guerra dos Mundos?

Em relação à história (e vocês sabem quanto vale este aspecto na minha avaliação, o que explica a obsessão pelo sr. Burton…)…welli…é uma adaptação de um livro, onde acaba o livro e começa o filme não faço a mínima ideia (tenho uma pilha de livros técnicos para ler, infelizmente não tenho tempo para literaturas), e além disso é uma história de noir, com tudo o que isso implica. O que quero dizer é que, enquanto história de noir, resulta muito bem. Dentro de mim, contudo, ficou a sensação de vazio, a falta de algo para além disso – e que não fosse uma subtrama de detectives homossexuais… Principalmente o final, ao fugir ao ficar tudo resolvido de uma vez – novamente, isso, está no livro? Bites me -, prolonga o mistério mais um bocado, mas como a grande revelação – quem matou o ‘António’ – já foi dada, ficamos naquela de ‘então, isto não acaba porquê? Quero ir à casa-de-banho!’. Mesmo se é assim no livro, o bom da adaptação é que pode fugir ao livro – e este nem é uma besta-célere (vulgo best-seller) que põe em causa seitas católicas (como adoro cortar em filmes que fazem parte do Top 10 Os 4 euros mais mal gastos da Minha Vida)...

Banda sonora: boa, mas nada de extraordinário. Actores: Josh Harnett, parecias, pela primeira vez que me lembre, um adulto e não um poster da Super Pop. Parabéns. Scarlett Johansonn, já sei que és a nova Diva de Hollywood – e deve ser por isso que me andas a enjoar – mas ainda te falta um ‘As Horas’ para mereceres a minha atenção. Até lá, contenta-te em substituíres a Mia Farrow nos filmes do americano renegado. Hilary Swank – uau. Sim, é um elogio.

Mais uma coisinha. Por momentos julguei ter entrado na sala errada. Primeiro, venderam-nos bilhetes para uma fila que não existia (novo objectivo de vida: comprar a Lusomundo e desmantelá-la, pedacinho por pedacinho.) Depois, aquela cena do boxe, Mr. Fire e Mr. Ice, se bem que proporciona um bom momento de humor negro mais tarde… pode ser porque eu sou uma rapariguinha europeia, mas…c’mon! Parecia o Cinderella Man…

sexta-feira, outubro 20, 2006

primeiro post é o que custa mais...

Eis o novo blog 'Sétima a Fundo'. Caso ainda não tenha dado para perceber, é sobre cinema. Um espaço para eu perder o meu precioso tempo a mandar palpites e pipocas pró ar sobre os filmes que vou vendo. Mas com seriedade. Bem, pelo menos alguma. Já era tempo de eu me libertar do narcisismo, né?