sexta-feira, julho 27, 2007

Shrek The Third (2007), Chris Miller

Mais uma vez, a terceira parte de uma sequela.
Porque é que não ficaram pela segunda parte, porquê, porquê, porquê?
Se há filme com tanto ar de ter sido feito à pressão para aproveitar a onda, é este. É demasiado curto, as piadas não tem piada suficiente, não há nenhuma personagem nova que faça o que o Gato das Botas fez pelo segundo, não há nenhuma música que fique no ouvido... Resumindo, é melhor esquecermos que este filme aconteceu.
Bolas, é a primeira vez que estou a falar mal de um filme. Deve ser do calor, põe-me mal-disposta.
Deturpar contos de fadas é uma coisa maravilhosa. A ideia do feioso ficar com a princesa, então, é fantástica. Por isso o primeiro foi tão bom (isso e o Burro). Depois, e que tal o feioso ir conhecer os sogros + uma caricatura do Banderas interpretada pelo próprio Banderas (com os olhinhos ternurentos ui ui ui) - ainda resultou melhor. E agora o que temos? A Fiona grávida + a procura de um sucessor ao trono (toda uma temática de aceitar responsabilidades)+ o nerd do liceu torna-se rei + o mau fica com o trono para os maus da fita+ uma revolução feminista... Muita areia para o camiãozinho? Se calhar...

Bons momentos (deixem-me rebuscar na memória, isto de escrever críticas muito tempo depois não vai com nada): a piscadela de olho aos Monty Phyton logo no início, o Gato preso no corpo do Burro a tentar seduzir os guardas, o Eric Idle ;) e não estou a ver mais nada.
Resumindo, mais valia ter esperado que passasse na televisão, mas agora já vou tarde...

quinta-feira, julho 26, 2007

Harry Potter and the Order of the Phoenix (2007), David Yates

Antes de começarmos a crítica, deixem-me avisar: sou fã do tipo da cicatriz desde que o primeiro livro foi publicado em português. Continuemos então.



Ah, o quinto livro, o maior livro dos sete, uh, e há mortes e mais mortes, coitados dos meninos que julgam que isto é literatura infantil. Porque não é.


O problema das adaptações é que, quanto mais gostamos do livro, menos achamos que o filme lhe faz justiça. Da saga Potter, o único filme que escapa um bocadinho à maldição é o terceiro, dirigido pelo senhor Cuaron. E tenho muita pena de toda a gente que julga que seguir a moda Potter é ver os filmes e pronto. Nem sabem o que estão a perder.


Neste, o senhor Yates teve ainda outro problema. Com tanta história pra resumir em duas horas e meia, não podia perder muito tempo com coisas supérfluas para o decorrer da história, mas importantíssimas para os fãs - tipo os atrofios da Harry com a Cho, e toda a aura de mistério à volta do Neville...


Estou a escrever neste momento sabendo exactamente como acaba a saga. (Yeh) Passar os livros pra filme logo logo terá sido uma boa ideia? O Senhor dos Anéis teve de esperar décadas até surgir alguém capaz de fazer uma adaptação decente. E nem vou falar do Código Da Vinci, que na minha humilde opinião de pessoa que não percebe nada do assunto, não vale o papel em que está escrito.


Mesmo assim, é um bom filme para os fãs dos livros, se eles resolverem esquecer por um bocadinho como as coisas realmente acontecem. (e em cada livro são pormenores e pormenores a aumentar) Para os outros, não sei se será boa ideia. Aliás, eu como fã fiquei com a sensação de que, ya, está bem filmado, coiso e tal, mas falta qualquer coisa... não sei o quê. Dá-me a impressão que nenhum dos realizadores é um verdadeiro Potter fan, e filmam tudo ao 'frete' (notícias de última hora, o meu pai foi ver o filme e não percebeu nada. Acrescente-se que só viu dois dos 5 e ficou a julgar que o Voldemort era pai do Harry - devem ser resquícios do Star Wars, sei lá...)
E agora um momento fútil:

Radcliffe, esse penteado... ná. Agora que temos a certeza que tu até tens jeito para a coisa - e ficas tão melhor quando não estás a fazer de Harry Potter - mal podemos esperar para te ver noutro tipo de coisas. Rupert - és tão deliciosamente ruivo... Emma Watson - ainda não percebi se a Hermione fica tão irritante nos filmes porque és boa actriz ou se é exactamente pela razão oposta...


Fica mal eu dizer o quanto adoro ver o Alan Rickman a fazer de Snape? E o Gary Oldman a fazer da minha personagem preferida, o Sirius? (acrescente-se que o momento dramático do filme não teve assim lá muito dramatismo) E a perversa personagem da Umbridge, brilhantemente interpretada pela Imelda Staunton, que já nos tinha provado o boa actriz que é em Vera Drake?Ná, eu digo o que me apetece.
A banda sonora, para variar, é qualquer coisa. Aquele leitmotiv... Nicholas Hooper pode não ser o Danny Elfman, mas safa-se. (é evidente que se eu o quiser comparar ao Jonh Williams ou ao Morricone torna-se ridículo, o coitado do rapaz - temos de dar um desconto que é de música)
Bem, mais um filme do Harry Potter. O próximo também a cargo de Yates, o último - dizem - a cargo de Shyamalan (oba, escrevi bem o nome à primeira). Para mim, deviam era contratar o Burton, mas isso é só a minha opinião...

quinta-feira, julho 19, 2007

Ocean's Thirteen, (2007), Steven Soderbergh

Tenho de confessar, mes amis, que já fui ver este filme há muito tempo, mas a minha suposta educação superior não me deixou muito tempo livre nos últimos tempos...

Ora bem. A terceira parte de uma sequela. Oba oba. Tenho de confessar que nem o segundo fui ver, e só fui ver este porque... bem, vocês já viram o que tem estado no cinema ultimamente? Argh.
E não é que até gostei bastante da coisa? Para blockbuster até que teve monentos bem out - citemos Clooney a chorar a ver o show da Oprah ou o telemóvel de Pitt a tocar nos momentos mais inoportunos.
Toda uma estética de filmes foleiros dos anos 80 - a nivel de enquadramento, intertítulos, etc etc etc, (embora felizmente não tenha descambado para penteados à anos 80), assim como o extremar do género - ui - fizeram algo fantástico: ao descambar propositadamente para o 'kitch', aquilo virou 'camp'. Nem toda a gente percebeu este toque de genialidade do Soderbergh, mas é para isso que eu aqui estou, para ver coisas estranhíssimas onde ninguém vê nada.
Óptimo o confronto Al Pacino vs. Clooney, o nariz do Matt Dammon, a banda sonora (esperem, deixem-me ir sacar isso, agora que me lembro) do senhor David Holmes, e mais uma data de coisas que eu não me lembro.
Valeu a pena? Sim, valeu a pena. Inda mais que agora eu nem vejo televisão...

segunda-feira, maio 28, 2007

Piratas das Caraíbas 3: Nos Confins do Mundo (2007), Gore Verbinski


E a trilogia chega ao fim. Aquilo que começara como um filme manhoso baseado numa atracção da DisneyWorld e com uma personagem central bastante dúbia, e acabou como um dos mais inesperados sucessos de bilheteira (dando origem à inevitável sequela… isto tem sido um ano de sequelas, que coisa…) acabou. Espero que definitivamente (porque estes tipos de Hollywood nunca sabem quando parar, … um Rocky Balboa? Um Rambo IV? Um Die Hard IV?), porque o que vier mais, para mim, é mais provável estragar do que sublimar. Digo eu.

Ora, se eu fosse uma crítica de cinema à séria (que não sou: basta saber quem é o Jonh Cameron Mitchell para não arranjar emprego em nenhum jornal...) começava já por deitar abaixo o filme, porque o vi numa sala cheia de gente e pipocas em stereo (já era altura de alguém usar esse barulho irritante nalgum pedaço de música electroacústica…) e toda a gente gostou quando saiu. Eu, do alto da minha superioridade de crítica, que tem em casa DVDs da Critterion Collection e acha que não se faz cinema decente desde os anos 60, diria que é uma história cheia de trapalhadas, para ‘encher chouriços’ (expressão gira, tenho de a usar mais vezes), e que francamente se o um nem era grande espingarda como objecto fílmico digno de fazer parte da Sagrada História dos Filmes Artisticamente Onanistas (porque só dão prazer ao seu próprio autor) que os críticos a sério adoram confundir com a brejeira história do cinema puro e duro e cheio de nhanha de pipocas (é assim que se escreve ‘nhanha’? ignoro). Ah… que desperdício de película, diria eu se fosse uma verdadeira interessada do cinema. Por isso é que a arte está como está, só se vê porcarias… Uma história de piratas? Nada poderia estar mais longe do Errol Flynn do que aquele mariconço do Johnny Depp, etc etc etc.

Infelizmente para mim (que não consigo fingir que não gosto de alguma coisa só para dar ar de cool), achei o filme bastante bom. É claro que o primeiro foi a surpresa, o segundo tinha demasiado Orlando Bloom no ecrã para eu poder ver o filme em condições (ele estava sempre à frente do filme, que horror!), mas este… um bom final, bastante digno, blockbuster confesso e sem vergonha disso, bastante ciente que se não houvesse Jack Sparrow tinha sido um flop, e a segurança de que todos iriam correr às salas mal estreasse (e a vossa anfitriã não foi excepção), deu azo a que Verbinski se desse ao luxo (com a ajuda do budget, é claro) de colocar as cenas mais out de que me lembro de haver num blockbuster. Tão out que receei, quando as vi, de que o público fedorento e pipoqueiro que me rodeava por todos os lados, tipo CO2 em hora de ponta, explodisse em raiva, matasse o projeccionista e fizesse vestidos avant-garde da tela. (estou a escrever muito e ainda não disse nada sobre o filme, eu sei. Temos pena. O blog é meu, escrevo o que me apetecer…) Mas não é que o público gostou? Muito mesmo? Tenho de começar a pensar na hipótese assustadora que o público de cinema não é tão estúpido quanto certos resultados de top box-office querem fazer parecer…

Comecemos do início. Há um pequeno problema com esta coisa das trilogias: é preciso ter muito boa memória. Ainda mais porque o segundo filme acabou em suspenso, e até que uma pessoa se lembrasse de quem andava enrolado com quem e quem é que andava a trair quem demorou um bocadinho. Grande momento inicial com a música. Talvez o ho ho ho and a bottle of rum tivesse um efeito mais poderoso, mas mesmo assim, estupendo. Como se trata de um filme americano de grande orçamento, será preciso falar da extrema qualidade de filmagem e fotografia? Não me parece. Belíssimas imagens, como quando Jack Sparrow está no Cofre de Davy Jones a liderar-se a si próprio, ou quando o Pérola Negra cruza um mar cheio de estrelas, a confundir-se com o céu, ou mesmo o gelo, e o remoinho, e… ah, belas imagens mesmo.

Depois, a entrada do nariz de Sparrow em cena. Depp é um dos melhores actores da actualidade, quem o nega vai arder no inferno. E com esta personagem… orgásmico. Estamos sempre à espera de ver mais um bocadinho dele, mais um tique, mais um ‘savy?’. O Orlando Bloom não lhe chega aos calcanhares, e felizmente neste filme deixaram-no em pequeno item no ambiente de trabalho. A menina Keira, que partilha dos mesmos ideais de beleza que eu (bela Bellucci…) ainda tem muito a aprender. Não gostei lá muito dela neste filme. Podia ter feito muito melhor, ainda por cima agora que a deixaram brincar com espadas e tudo. Espantosa esteve a Calipso (Naomi Harris) – aproveitem a rapariga para mais filmes – e também o senhor que fazia de Davy Jones (Bill Nighty) – um par romântico bem improvável (bela moral esta, o amor puxa-nos para o abismo e coisa e tal). E Geoffrey Rush, que representa maravilhosamente papéis em que está doido ou sujo ou ambos. Pena não ter havido mais exploração desta personagem, acho que não se perderia nada.

E os dois minutos de Keith Richards. Memorável, ver a inspiração e o produto no mesmo plano. How’s Mum? ;)

Tanta, tanta personagem. Aqueles lordes dos piratas inesquecíveis. Como é que podem dizer que na altura do Errol Flynn é que era? Coreografia das lutas de espadas? Corporalidade? Mas vocês, críticos, já viram mesmo um filme do Errol Flynn ou só estão a falar do que leram nos livros franceses sobre cinema? Porque eu gosto bastante de ver filmes do Flynn (ele é um dos meus guilty pleasures), e são muito engraçados, principalmente porque ele tem aquele riso específico 'ah ah ah', e põe a mão na anca, e finge que beija a Olivia de Havilland uma data de vezes, e pronto. Agora o Johnny Depp, não me façam falar do Johnny Depp...

Que dizer mais? O filme safou-se bem, ousou para além da americanice do filme previsível, e, mais importante que tudo (spoilers alert) matou o Orlando Bloom (end spoilers alert). E isso, meus amigos, nunca é pouco.

segunda-feira, maio 07, 2007

O Mistério da Estrada de Sintra (2007), Jorge Paixão da Costa


O melhor elogio que se pode fazer a este filme é comentar, ‘bolas, não parece nada português’. Meus caros amigos, passei horas e horas a comentar a fraca qualidade da fotografia cinematográfica em Portugal, para chegar este filme e desmentir-me à parvalhota. Lindo lindo lindo.


Depois o som. Vocês sabem como o som nos filmes portugueses costuma ser uma treta, tendo-se de recorrer constantemente às legendas para perceber a diarreia verbal que os actores vão tendo. Sempre me intriguei porque raio percebíamos tão bem as novelas e a treta de um filmezeco era tão complicado. Este filme utiliza o som dobrado, e por vezes nota-se, mas – meus caros amigos – a nitidez da compreensão sonora chega a um tal refinamento que julgamos estar perante um filme feito no estrangeiro.


Digamos de passagem que a história é bastante boa. Sempre achei que aquele grupinho de dandies que adorava andar à porrada com os românticos dava umas boas horas de entretenimento celulóidico. Pegar na génese da obra ‘O Mistério da Estrada de Sintra’ não é propriamente original se pensarmos a nível mundial (Shakespeare in Love, Amadeus, Relatório Kinsey... ) Mas dentro da ‘indústria’ portuguesa, penso que é insólito. E é bom reparar que temos tão bons temas inexplorados dentro das nossas parcas fronteiras.


Durante esta semana andei a berrar para quem me quisesse ouvir que os dois grandes problemas do cinema português são dois pontos a ausência de grandes planos e planos de pormenor (uma espécie de pudor em aproximar demasiado a câmara das coisas) e a falta de credibilidade dos actores a desempenharem os seus papéis.


Adoro ser contrariada nestas coisas. Este filme utiliza todos os planos e ângulos correntes do cinema comercial – já vou discutir isto do comercial mais à frente – e os actores, com excepção de uns secundários ocasionais, são tão bons nos seus papéis que agora quando imaginar o Eça de Queirós vou sempre ver o Ivo Canelas. E o António Pedro Cerdeira, que admiro há um certo tempo, está tão bom como o protagonista, mas fica educadamente em segundo plano. E a condessa, interpretada por Bruna di Tullio, argh, que linda e perfeita para o papel. Noto em Canelas sobretudo aquilo que ele uma vez disse num workshop sobre A Tempestade de Shakespeare, onde tive o prazer de participar – repetir as falas em todos os momentos até elas fazerem parte de nós e saírem naturalmente como se fossem nossas. Isto só para dizer que já estive na mesma sala que o Ivo Canelas. Nã nã nã nã nã, nã!


Li no Público, aquele reduto da crítica implacável (tenho a impressão que foi o Vasco Câmara que escreveu, mas não ponho as mãos no fogo), que isto era um novo Crime do Padre Amaro, feito para atrair as audiências, baseado em Eça de Queiroz que nos últimos tempos se tornou uma espécie de Jane Austen portuguesa (esta piada é minha, que os tipos não têm nível para dizer este tipo de coisas), e blá blá blá que treta de filme, buga dar só uma estrela e espetar 5 estrelas naquela cena do Tati, porque sobre ele já há livros e estudos editados há muito tempo.


Por vezes dou por mim a pensar que sou uma espécie de D. Quixote da crítica, a defender filmes que todos mandam abaixo, a mandar abaixo filmes que toda a gente exalta, e que qualquer dia estou eu a ir em direcção a um jantar romântico nas cantinas e sou brutalmente atirada das Monumentais abaixo. Hum, não é uma imagem bonita. Mas deixem-me mandar os meus lamirés irreflectidos enquanto o meu nome não andar pelas revistas cor-de-rosa: desde quando é que um filme tentar atrair público é pecado capital? E comparar com o Crime do Padre Amaro? Por Favor! Sim, está lá o Eça, está lá o sexo, estão lá os seios perfeitos das duas tipas, mas não estão lá os homossexuais, nem os gangs, nem a banda sonora dos Da Weasel ou outro grupo semelhante… nem a presença da nudez da actriz para compensar a falta de jeito da mesma para representar! Em verdade vos digo, saí muito feliz do cinema por pensar que há pessoas competentes no cinema em Portugal, e que talvez haja salvação para quando começar a trabalhar cá. E um filme com tantas referências históricas e literárias, será que podemos mesmo etiquetá-lo de comercial? Para mim, que não sou ninguém, não me canso de vos lembrar, é um delicioso exemplo de ‘meio-termo’ entre o telefilme para os putos de 12, 13 anos baterem umas pívias e o filme de inspiração oliveiresca com 5 planos e 4 horas para os intelectualóides se dedicarem a fantasias onanistas.


Vão ver. Ajudem a tornar este o filme português mais visto de sempre. Para limparmos as estatísticas e fazerem uma edição especial em DVD, e não desaparecer como é costume com os filmes bons feitos por cá…

terça-feira, abril 10, 2007

300 (2007), Zack Snyder


Depois de ter pregado sem fim contra filmes ‘de coçar os tomates’, advogando um maior respeito para o chick flick como género de qualidade, acusando os filmes da história do cinema serem quase sempre de homens para homens, eis que vou ver o 300, assim, por impulso. Céus, sou uma criatura tããão contraditória.

Mes amis, eu também já tinha ido ver o Sin City e adorei (por acaso ou não, a parte que mais adorei foram os escassos minutos filmados pelo Tarantino, embora na altura não o soubesse…). Ah e coiso e tal, mas isso era pelo interesse estético e cinéfilo, era um filme marcante na adaptação de banda desenhada ao cinema. Ok, talvez.

A verdade é que estou a pensar fazer um trabalho sobre o peplum para uma cadeira, como ele influenciou o studio system e outras coisas históricas e teóricas que não vos interessam minimamente. E, quer dizer, eu adoro a civilização grega. E como ultimamente os filmes passados nessa época têm sido… hum… um bocado ao lado (Alexandre o Grande, Oliver Stone; Tróia, nem me lembro de quem foi o criminoso que realizou) pensei: as histórias do Sin City eram mais que porreiras, revelavam um cérebro por detrás daquilo. Aquele Frank Miller é capaz de ser bom. Buga lá ver o que ele fez à história do Leónidas.


É muito bom.


E estava a pensar acabar a conversa por aqui. Mas o meu ethos não o permite. Deixem-me justificar, então.

O ambiente do filme é totalmente artificial. Tudo cheinho de filtros e efeitos digitais, até as espigas de trigo a abanar ao vento. Os actores masculinos têm tantos músculos que também somos inclinados a pensar que são produzidos digitalmente, mas lamento meus amigos masculinos, vi umas fotos do making of e aqueles músculos são reais.

Tudo é estilizado, num agradável encontro entre banda desenhada (e o cinema tem tanto a aprender com esta arte – até eu estou a pensar começar a interessar-me pela coisa) e uma graciosidade oriental (o que não deixa de ser irónico, num filme em que vemos os ocidentais a dar cabo do coiro aos asiáticos) roubada quiçá a Kurosawa, e utilizada com toda a mestria da slow motion. (enfia esta, Bazin!)

Engane-se quem julga que é só mais uma adaptação de bd ao grande ecrã. 300 grita cinema por todos os pixels. Au au au (para quem não viu o filme, e não se importa de ler um spoiler de vez em quando, este é o grito de guerra espartano.)

E não esqueçamos que não há uma única star neste filme. Sim, nada de Russell Crowes, nem de Angelina Jolies, ou mesmo (argh) Brad Pitts e Orlando Blooms. Meus caros amigos, nada de caras conhecidas. Isso porque o protagonista Leónidas é interpretado pelo escocês Gerald Butler, que ‘vimos’ em… O Fantasma da Ópera (2004, Joel Schumacher)!!! E ele é simplesmente o Leónidas perfeito. A forma arrogante como fala com a boca cheia de maçã enquanto os seus soldados empilham os cadáveres persas… lindíssimo. E Xerxes é interpretado por um brasileiro, Rodrigo Santoro, e não sei se é por isso mas faz lembrar o Ney Matogrosso…

(já repararam que, em Hollywood, os brasileiros são sempre abichanados e os portugueses sempre contrabandistas mexicanos? Quem quer investigar isso em pormenor?)

Nem sei que diga mais. É tão raro eu não ter um segundo de tédio nos filmes que o facto de não me ter aborrecido no intervalo sequer é um óptimo sinal. Ah, antes que me esqueça. Houve para aí uma polémica qualquer sobre Leónidas ser uma metáfora para Bush, a derrotar os orientais um a um etc. Ãh? Foram ver o filme certo, de certeza? Foram ver o filme? A última pessoa em que penso quando olho para Leónidas é em Bush. Aliás, ele é muito mais parecido com Xerxes, o auto-intitulado Senhor do Mundo. Não estou a ver o Leónidas a engasgar-se com um biscoito. Além que ele era Espartano, logo, Europeu. Nós europeus somos frescos, quando provocados.

Vão ver o filme. Quatro euros dos mais bem gastos deste ano, de certeza. Au au au.

Mr. Bean em Férias (2007), Steve Bendelack


Sim, fui ver este filme em vez de ir ver O Labirinto do Fauno… Que querem, há dias em que pura e simplesmente não me apetece ver filmes bons e que ficarão na história do cinema, há dias que são dias de filme-pipoca. Este foi um deles.

É um bom filme-pipoca, sim senhora. Infelizmente, só funciona naquelas pessoas habituadas 1. a toda a mitologia mr. beaniana; 2. ao humor britânico, tão diferente do que estamos habituados na nossa pobre província de Espanha … (entre os espanhóis e Salazar, venham os espanhóis!)

Ora é um filme que prima por não obedecer ao politicamente correcto – goza com a cultura francesa, goza com a indústria do cinema… aliás, interessante pensar que a única cultura que aparece e que é respeitada sem excepção é a russa. Hum… spaseeba.

Rowan Atkinson mais uma vez na personagem que lhe granjeou fama internacional (senti falta do Teddy, onde é que ele andava?), acompanhado de um rapazinho que talvez tenha um futuro glorioso à sua frente (já não ponho as mãos no fogo por ninguém, olhem o Paul Betany a participar no Código da Vinci…) A rapariguinha que quer ser uma actriz reconhecida é engraçada, mas ainda não foi desta que o Mr. Bean arranjou uma namorada… Brutal esteve Wilhem Dafoe, no papel do realizador narcisista ao extremo. Aquele filme idiota, Playback Time, faz lembrar umas coisinhas que se fazem aqui no velho continente (mas ei, nem tudo o que passa em Cannes é assim tão sonífero… espero eu).

Momento de reflexão intelectual – lá esteve o debate película vs. digital. A primeira ainda associada ao prestígio de ser um realizador ‘a sério’, o segundo associado ao experimental, ao amador, etc… Mas tudo é cinema, certo? E, como defensora do digital como evolução lógica do cinema (baixa custos e facilita a montagem), deixo a pequena notinha de rodapé que o Senhor David Lynch – que é o Deus de muitos cinéfilos – rodou o Inland Empire totalmente usando a sua câmara caseira – e adorou. Ah, toma esta, Godard…

Voltando ao filme de entretenimento que é, afinal, o tema deste post, grandes momentos: Mr. Bean a comer marisco, Mr. Bean a dizer Non, Oui e Gracias, Mr. Bean a cantar ópera, Mr. Bean vestido de mulher a tentar entrar no Festival de Cannes, a deliciosa junção do áudio de Playback Time com o vídeo de férias de Mr. Bean.

Menos bom? Sei lá. Estava ocupada a divertir-me…

NOTA: Lusomundo, o que fizeste às cópias do The Fountain, já tido como um dos melhores filmes do ano? E que tal tirar o The Departed das salas de Coimbra e pôr lá esse filme que andamos todos (nós, que nos dizemos cinéfilos e depois compramos cds de música) ansiosos pra ver?

quinta-feira, abril 05, 2007

Música e Letra (2007), Mark Lawrence


Yeehhh, buga lavar o cérebro.... hum? Nem por isso...

Mark Lawrence, como vejo nas minhas cábulas electrónicas, fez as duas Miss Detective e ainda as Forças da Natureza. Tudo caminharia para um óptimo filme romântico, certo?
Ok, não sejamos tão más. O Hugh Grant a fazer de ex-estrela rock tem a sua piada. Os seus movimentos pélvicos também. Mas... hum... parece tãããão visto. E sabem que eu aprecio chick flicks, reconheço-lhes valor, etc. Mas tinha tanto para ser original, e falhou... Drew Barrymore. Um bocado apagadita, não? A personagem podia ser tão mais explorada, tão mais interessante... Um hurra para a rapariga que fez de caricatura da Britney Spears, a Haley Bennett. Vamos estar de olho nela.

Apetece-me chamar a atenção (a sério, eu hei-de escrever um dia a sério sobre isto) para a subversão de papéis dos sexos neste filme. Se bem que a irmã de Sophie personifique na perfeição a mulher que passa as noites a seguir as soap operas na tv, Sophe é a intelectual da história e Alex Fletcher o objecto sexual. Isto torna-se especialmente óbvio quando, após a cena de sexo debaixo do piano (em vez de em cima - algo diferente, obrigado) vemos Grant em pêlo e Barrymore pudicamente embrulhada na manta. Ok, depois temos Cora com os seus movimentos a apelar a luxúria, mas mesmo assim... algo se começa a adivinhar em Hollywood, digo eu...

O argumento está óptimo, grandes tiradas cómicas, etc. A subplot da relação esquisita entre Sophie e aquele escritor convencido foi uma boa aposta (ambos os elementos do par romântico têm problemas com o passado). A crítica à sociedade de entretenimento tipo fast-food (os best-selllers logo adaptados a filme, os programas de luta livre entre ex-estrelas, a pop star budista que julga que o Dalai Lama é, efectivamente, uma lama...) é o ponto forte da coisa, por assim dizer.

Palmas para os créditos iniciais (com o Hugh Grant com o penteado mais cómico do ano) e para os finais, se bem que a piada da operação às ancas resultou bem da primeira vez, mas à vigésima terceira já enjoava...

A música não é má, i.e., falo daquela que guia o fio condutor da história. Mas também há umas músicas conhecidas postas muito baixinho em background (começamos a pensar que a porcaria da sala não está bem isolada e estamos a ouvir o filme da sala ao lado...) que desconfio foram postas à traição para aumentar o número de faixas da banda sonora. Isso não se faz.

A elogiar também, e é tão raro haver elogios deste género neste género de filmes (estou a repetir género de propósito, só pra saberem) a fotografia. Sim, leram bem.

segunda-feira, abril 02, 2007

Pecados Íntimos (2006), Todd Field




Finalmente fui ver esta coisa.

Era melhor do que eu pensava. O tom irónico de toda a história, em que ninguém se consegue enquadrar nas categorias normais bom/mau, a forma ousada de filmar (a ilustração de pormenores enumerados pelo narrador, por exemplo da descrição e comparação da mulher de Brad, Kathy, e a marginal Sarah interpretada por Kate Winslet; o plano-sequência temporal feito à borda da piscina) e um final que é pura e simplesmente brutal na sua fidelidade ao que costuma acontecer fora dos filmes.

Todas as personagens são brilhantes, não só nas suas características (à partida definidas por Tom Perrota, autor do livro) mas nas brilhantes interpretações que os actores fazem delas. Um ave muito especial para a senhora que interpreta a mãe do pedófilo, Phyllis Somerville, e para Kate Winslet (será porque a personagem dela é minha homónima? É uma possibilidade, mas a verdade é que a adoro). As cenas de sexo são tórridas e, ao mesmo tempo, com algo parecido com humor ou sarcasmo (a loucura em cima da máquina de lavar ou os vários planos evocados pela mente de Sarah enquanto discutem Madame Bovary no clube de leitura… )

E seria tão fácil convencer-nos que o pedófilo era um homem/criança arrependido… E quando o vemos sair com aquela estranha rapariga depressiva, julgamos que tudo irá acabar bem entre eles… Sol de pouca dura. Mas para quê um tarado apenas por filme quando se pode ter vários? O amigo de Brad, que preenche o tempo livre a torturar a paciência do pedófilo, em defesa dos bons costumes (ele que tem o passado manchado), é um maníaco que nos faz ter pena do coitado do molestador de criancinhas… No fim desejamos que lhe seja espetada uma faca no bucho. Ops, mais uma vez vemos as expectativas goradas.

É tão bom assistirmos a um fim tão imprevisível, em termos cinematográficos. Tudo caminha para outro lado. Mas as tragic flaws de cada uma das personagens estão presentes até ao fim, não há maneira de as coisas acontecerem em função de um happy ending forçado. Brad pura e simplesmente não quer crescer, não quer entrar na Ordem, não quer assumir a sua vontade de separação da mulher (afinal, eles são o casal perfeito, e Sarah é tão feia…). Sarah resolve vingar-se do hobby onanista do marido entrando numa aventura que segundo ela lhe mostra o que é estar viva, e no fim mostra-se demasiado frágil para lidar com a recusa. O pedófilo é afinal um Édipo; o maluquinho defensor dos bons costumes afinal até tem bom coração.

A subtileza do filme funciona tão deliciosamente bem, é tão refrescante… Sabe bem ver um filme destes de vez em quando. Há que admitir que lembra um bocado Beleza Americana de Allan Ball, mas menos macabro, definitivamente. Todd Field tem muito jeito para a coisa, sim senhor. Está contratado.


segunda-feira, março 19, 2007

Cartas de Iwo Jima (2006), Clint Eastwood





No fundo, no fundo, o que eu queria ir ver mesmo eram os Pecados Íntimos. Mas como falaram tão bem deste filme, ah, e tal, fantástico, e como eu gostei do Mystic River e filiei-me à pouco tempo numa sociedade maçónica de lobby anti-Scorsese porque realizadores populares não prestam para a comunidade underground, lá fui. Era suposto ter ido ver Flags of Our Fathers primeiro? Mas eu tou tão farta de filmes que pregam que a América é a maior, etc…

Primeiro ponto positivo: um filme sobre japoneses falado em japonês. Isto é bom. Se não fossem os artifícios técnicos americanos e a ausência de qualquer cena de kung-fu, ou seja, fechando os olhos, até parecia um filme nipónico.

Segundo ponto positivo: o homem filma bem, mas tão bem ao ponto de meter nojo a nós, míseros mortais que nos temos de contentar com mini-dvs e digitais 8. Mas quer dizer, é o Clint Eastwood, é o mínimo que se lhe podia pedir.

Menos bom (ou seja, a razão porque 4 euros gastos nos Pecados Íntimos talvez tivessem sido um melhor investimento) – mas que raio de primeira parte longa e aborrecida é aquela? Bolas, é um filme americano! Eles sabem como nos grudar a um filme, a sofrermos com as personagens, etc etc… Que é disso? Os tipos estavam metidos numa ilha, à espera de um ataque a qualquer momento, começaram a ver que estavam fritos… onde está a angústia/raiva/desânimo?

E aqueles flashbacks… os que mostravam o comandante Kirabaschi a privar com os americanos estavam muito bons, o do momento do cão... brutal. Mas aquela treta de quando foram buscar o padeiro… não havia mesmo outra maneira de nos dizerem que ele tinha mulher e filha?

É que um filme ou quer o espectador grudado ou quer o espectador como frio observador. Se escolhem a segunda opção, aquele momento final em que se descobrem as cartas vai soar a fatela. Ah, as cartas de Iwo Jima, ai que lindo, ainda ali estão, o outro tipo enterrou-as…

Pessoalmente, acho que o filme não perderia nada em ser um bocado mais a puxar para a lamechice e emoção. A começar de uma maneira que me lembrou logo o Titanic, nem iria parecer desbocado. Ou o Eastwood é demasiado macho para esse tipo de coisas? Não me parece…

É que se não fosse a primeira parte que se arrasta de maneira interminável… (apresentar as personagens durante uma hora e meia, quase? Ãh?), o filme era tão bom. Com japoneses a explodirem com granadas agarradas contra o coração… E o tipo que queria arrebentar com os tanques…

Quer dizer, não me apetece ver o filme outra vez. Ná. Estava à espera de ser arrebatada e népias. Há bons momentos, mas nunca se chega a um orgasmo cinematográfico.

Pronto, e estou chateada, porque começo a pensar que se calhar o The Departed era mesmo o melhor filme e isso é um pensamento que me perturba profundamente. Argh.

Se calhar estou é farta de filmes de coçar os tomates e beber minis… (que foi um termo que inventei mesmo agora para contrapor aos tãos criticados chick flicks… )


Venham os Pecados Íntimos. Subúrbios americanos sempre deram bons filmes. Acho eu.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Scoop (2006), Woody Allen




Pode-se dizer que estamos a assistir a uma moda de filmes sobre mágicos (O Ilusionista; O Terceiro Passo; e, um pouco no gozo, mas no fundo a sério, acrescento todos os Harry Potter) e com baralhos de cartas, mas um Woody Allen é um Woody Allen, e, como tal, eu, que não tenho perdão por ter perdido o Match Point, decidi, não!, nem pensar em perder este. E lá fui, toca toca, em direcção àquela cadeia de cinemas que eu tanto odeio mas à qual tenho de ceder para ver o que a indústria cinematográfica vai vomitando, enquanto a náusea está fresca. Isto de ler Sartre e biografias do Shakespeare ao mesmo tempo deixa-me um pouco mórbida, desculpem.



A história é bestial, como sempre. Simples, com desfecho não óbvio (ou será que estamos tão ocupados a rir que nem nos damos conta que caminhamos para o fim?), Hugh Jackman no papel de Peter Lyman, um jovem milionário bastante charmoso e possível serial killer do tarot, Scarlett Johannson a mostrar que afinal até é boa actriz, só que de vez em quando esquece-se (o Woody também lhe deve dar nas orelhas com força), Woody Allen a fazer de ilusionista (bastou aparecer e o público começou a rir – tenho de considerar a hipótese de existir um público culto em Coimbra, mas a ideia por si é assustadora), e tudo o que há num filme de Woody Allen: o neurótico (agora a dobrar, Scarlett e Woody dupla de força dos óculos de massa), as piadas sobre judeus, o momento estranho (a barcaça da Morte só podia vir da mente retorcida do meu cwarinetista realizador de eleição), os diálogos são TÃO BONS, com aquelas frases que nos lembraremos daqui a anos (gostei especialmente daquela ‘eu nasci na religião hebraica, mas cedo me converti ao narcisismo’) que, de facto, ao assistirmos a um humor inteligente que não recorre ao calão, à escatologia ou à crítica política para nos fazer rir, até nos esquecemos de fazer uma avaliação da coisa em si. Além de que é Woody Allen, e, não fosse o facto de tanto ele como eu sermos ateus, eu diria que era Deus. Por isso vou-me limitar a uma análise assim um bocado no ar, sem qualquer sequência lógica ou pretensão de ethos, como aliás é meu costume.



A notar que é o primeiro filme de Allen (que me lembre, também não nasci assim há tanto tempo…) que não usa o jazz mas sim a música clássica. Grieg, para ser exacta. In the Hall of the Mountain King, se não me engano. Para os leigos que não têm a felicidade de ter quatro anos de Conservatório e uma colecção de cds upa upa como eu, é a música do Grinch. Ahhhh. Bastante adequada, aliás. E mais umas coisas que eu, embrenhada no Jackman, nem me lembrei de pensar o que era. E não deixa de ser Allen por isso. Fantástico. O homem é um génio.



Grandes momentos: a barcaça da Morte (sempre que aparece é o êxtase), o aparecimento do espírito do jornalista frente aos olhos de Scarlett e Woody, a festa em casa dos Lyman com todas as inconveniências do ‘pai’ de ‘Jade’, Woody Allen a tentar conduzir pela esquerda (ele dá todo um charme àquela coisa estranha que é o Smart), o momento em que a verdade é toda revelada.



A fotografia aposta nos tons quentes, uma Londres tão solarenga que começamos a duvidar que o filme tenha mesmo sido filmado lá. Ah, the british accent…



A ver, absolutamente, porque eu digo que sim e eu é que sei. Do alto do meu poder como membro mais recente da Igreja do Narcisismo. São Narciso vos abençoe ya men.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Jules et Jim (1962), François Truffaut

Eis o primeiro filme da Nouvelle Vague que eu vi no início ao fim. O meu primeiro filme do Truffaut (que gosto de tratar carinhosamente por Trufas). Um marco na minha quase inexistente cultura cinéfila.

Uma história de um triângulo amoroso por várias décadas. Claro que eu tinha de ir ver, não é, mes amis? Adoro histórias de amor a três, são TÃO divertidas… desde que se limitem às páginas de um livro ou ao ecrã, claro. Acho eu.

Jules e Jim, um austríaco e um francês, grandes amigos, divididos pela existência de Catherine, uma mulher com M grande, que tem uma concepção deliciosamente progressista do Amor. Je t’aime, je ne t’aime pas, peut-être je t’amerai quelque jour, je t’aime non plus… A actriz Marie Dubois é absolutamente encantadora, inspiradora, como a compreendemos e odiamos ao mesmo tempo por brincar com os sentimentos do pobre Jules (sim, porque Jim é da mesma farinha que ela…).

O homem que diz ‘os cinéfilos são pessoas doentes’ mostrou-me que a Nouvelle Vague não era o papão que eu sonhava, depois de ter tentado ver três vezes o Toujours Mozart do Godard. Mais, uma adaptação literária (da obra homónima de Henry-Pierre Roché) que não hesita em utilizar frases e frases numa voz-over que fala à velocidade da luz. Sem se tornar aborrecido. Aprendam, portugueses de Portugal! Para mim, que estou a braços com uma adaptação, foi inspirador.

A montagem é rápida, incisiva, dá todo um ritmo que não nos deixa bocejar. Grandes frases presentes por ali e acolá (gostei especialmente daquela: numa relação um dos membros tem de ser sempre fiel. O outro.)

Até tenho medo de dizer seja o que for sobre o filme. É bom, muito bom. Chega? Tem a avaliação do tempo a apoiá-lo, quem sou eu pra dizer mal? Aliás, nem sei o que dizer mal.

Pontos positivos: vontade de ver mais filmes do Trufas. Isto pode ser o início de uma bela amizade (sim, também já vi o Casablanca, alas…) E mais, resolvi dar uma nova oportunidade ao Godard, desta vez começando a ver Le Mépris, com a Brigitte Bardot, que está prestes a tornar-se na minha Mónica Bellucci vintage… Só aquele ar de fastio…

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Babel (2006), Alejandre González Iñárritu

O grande favorito aos Óscares. À frente do The Departed do Scorsese. Só isso já era razão para eu o tornar o meu favorito também, não acham?

Tenho a dizer que nem era para ver o filme agora. Estou completamente avassalada pela quantidade de trabalhos sérios e dignos que tenho de apresentar na próxima semana, ou seja, sair para ir ao cinema era extremamente improvável. Além do mais, a minha oftamologista recomendou-me que eu fizesse pausas do computador para descansar a vista (já vou nas 4.30/4.30 – pitosga mesmo).

Bem, deixem-me copiar o nome do realizador. Alejandro González Iñárritu. Não é um nome lá muito artístico, deixem-me dizer. Mas o meu também não é. Mais fácil falar do realizador de Amorres Perros e 21 Gramas. O primeiro, não consegui ainda ver, porque se há coisa que eu não suporte são cães a serem mortos à dentada. O segundo, vi sim senhor (estranhamente, considerações à parte, ver pessoas serem esventradas até à morte não me faz diferença nenhuma. Isto porque não acredito na bondade da Humanidade. Mas as lambidelas do Dumas são genuínas.) Sim senhor, prémio melhor realizador em Cannes 2006. Merecido. O rapaz sabe o que faz, é adepto daquela forma de filmar muito moderna, toda tremida, trata de assuntos interessantes, não faz nus gratuitos (aliás, apresenta o nu de uma forma tão natural que até nos esquecemos que estamos a ver alguém nu) e usa o Baenal. Façamos figas por ele. Ou pela Sofia Coppola, embora talvez este mereça mais.

De novo, várias histórias interligadas, bem ao estilo do Iñarritu (se ele vai ganhar o Óscar, é bom que me habitue a escrever o nome dele. Que diabo, consigo escrever Krzysztof Kieslowski de uma assentada, é uma questão de hábito). Uma com uns rapazinhos marroquinos, outra com um casal americano a passar férias em Marrocos (Brad Pitt com uma barba extremamente interpretativa e a minha cara Cate Blanchett que mal posso esperar para ver o The Golden Age), os filhos destes e a sua ama mexicana, numa visita forçada ao México acompanhados por aquele que espero que nunca se torne um sex-symbol, senão perde a piada toda (ok, um sex-symbol underground, é o máximo que permito), e por fim uma rapariga japonesa surda-muda que tem uma frustração imensa em não arranjar alguém que a leve para a cama. Tudo ligado no fim, como é óbvio.

A história que gostei mais? A da japonesa. A forma como o realizador mostrou as dificuldades dela em ter uma adolescência normal com as suas limitações (o momento na discoteca, a montagem sonora, então, … brutal), o desespero dela (sobretudo no último momento com o detective)… talvez a história mais perto da minha linguagem de vida, por assim dizer (note-se que o filme se chama Babel por lidar com isso mesmo, linguagens diferentes – em termos linguísticos e em termos de cultura). A situação mexicana, ultimamente tenho visto muito em filmes. Estou-me a lembrar do Traffic, que por acaso vi recentemente, e uma curta sobre os imigrantes ilegais que passam a fronteira à força. É uma situação ridícula e dá-me cada vez mais repugnância pensar o quão mesquinha e narrow-minded é a ‘home of the free, land of the brave’, que, caso não se lembrem, começou por ser o caixote de lixo da Europa, um verdadeiro melting pot. Era de esperar que fossem mais tolerantes, é o que quero dizer. E a questão de Marrocos, ligada ao tão popular tema do terrorismo… nem vale a pena falar. Todo o preconceito, aqueles turistas histéricos com medo de serem assassinados por marroquinos… quanto muito, obrigados a comprar um tapete, agora assassinados… andam a ver muitos filmes, vê-se logo. Ou a sacá-los da Net, têm ar disso. A estragar o meu futuro económico… Humpf!

Desempenhos: adorei o da rapariga chinesa da qual nem sei o nome, o Baenal estava muito bem, a tia dele talvez seja o desempenho que mais sobressai, os miúdos marroquinos, especialmente o mais novito – dêem-lhe mais papéis em filmes, por favor – Cate Blanchett, não deu bem para ver, basicamente passou o filme a esvair-se em sangue, Brad Pitt estás perdoado pelo Tróia (e não cortes essa barba), e acho que é tudo em relação aos desempenhos.

Grande maneira de filmar, só digo isto, muito moderna, muito a imitar o amador e contudo com planos brilhantes, tudo com um ar tão espontâneo e todavia tudo cuidadosamente pensado (de novo refiro a cena na discoteca), grande encenação do casamento mexicano (um ambiente que passou muito bem para o espectador… hum, talvez para as raparigas atrás de mim que não paravam de rir feitas idiotas – e acrescento que todos temos o direito aos nossos dias de idiotice – não tenham captado muito bem. Agora que penso nisso, talvez sejam as mesmas que ficaram atrás de mim a ver o Tróia e que não paravam de falar das pernas do Brad Pitt, que ironicamente nem eram dele mas sim dum duplo).

Foram três euros bem gastados, mais juntando o facto de que a Lusomundo não fez intervalo. Hip, hip, Hurrah! Sim, porque um intervalo dá sempre, aos cinéfilos e anti-pipocas nas salas como eu, uma sensação de coitus interruptus que não é nada saudável. Eu sei do que falo. Eu sou a doença em pessoa. ;) Por isso é que tenho um fetiche pelo Dr. House. (ai, a crítica estava a ir tão bem…)

Sim, espero que seja nomeado. O primeiro filme que vi este ano, parece-me que comecei bem. Venha o Scoop, o Apocalypto e o Contado Ninguém Acredita. Eu cá vos espero…

Nota: O Body Rice também, mas esse espero pelos Caminhos…

quarta-feira, janeiro 03, 2007

The Prestige (2006), Christopher Nolan


Oba, oba. Finalmente acertei num filme decente. Há quanto tempo…

Século XIX, finais. Dois mágicos rivais. A Scarlett Johansson a fazer de assistant de ambos, amante de ambos, etc etc. Um mata a mulher do outro sem querer. Ou não. As vinganças sucedem-se e acabam na morte de um, sem que o outro tenha a ver nada com isso. Ou não. Grande final, embora isto de ler livros sobre guionismo alternativo faça com que a meio do filme já saibamos como é que vai acabar. Mas mesmo assim, consegue manter-nos interessados. Oba oba.

Cristopher Nolan, és o terror da narrativa. Este é especialmente confuso – de repente já nem sabemos em que raio de tempo estamos (defeito ou qualidade? Nem sei dizer). O twist final não é óbvio, mas o que surpreende mais são todas as outras revelações. Qual é o truque, ãh?

Hugh Jackman, tinhas de ser bom rapaz (afinal, fizeste um filme com o Woody Allen, novamente a contracenar com a Scarlett – nem penses em trair-me com ela!). Charme, charme, charme. Contudo, é o outro rapazinho que me captou a atenção. Christian Bale. Fez-me lembrar, de certo modo, o Grenouille de O Perfume (sim, vou defender este filme até às últimas consequências, até que o mundo saiba como é bom). A interpretação é impecável. Nunca percebemos se o Alfred é uma vítima ou um carrasco. Aliás, finalmente um filme sem personagens boazinhas (virgenzinhas e boazinhas, acrescentaria eu). Scarlett Johansson, não apareceste tempo suficiente para eu tecer considerações. Guardo-me para ver o que fazes no Scoop. Sim, estou de passo atrás contigo. Demasiada fama muito depressa. Não faz bem a ninguém. Que saudades de ti no tempo em que ninguém te conhecia e eu te adorei ver em A Rapariga do Brinco de Pérola.

Grandes momentos: o coitado do Jackman a partir a perna, todo o embuste dos diários, a morte da mulher de Alfred, o duplo bêbado, o truque da gaiola e o resto vejam vocês que não gosto de ser spoiler.

A ver, absolutamente, no grande ecrã que no pequeno os truques passam-vos despercebidos. Nota negativa: espero sinceramente que nenhum pássaro tenha sido magoado durante as filmagens. Senão eu mesma me encarregarei de avisar a Sociedade Protectora dos Animais.

Post-Post (giro por extenso, não?): Já repararam que as minhas críticas cinematográficas estão cada vez menos profissionais? Oba oba.

Saw 3 (2006), Darren Lynn Bousman


Vamos fazer um jogo. Vamos definir o que é um filme de terror.



FILME DE TERROR - Filme que, de algum modo, assusta o espectador.



Bem, partindo disto, não sei em que raio de género hei-de colocar este filme. De autor não é, de certeza. Estou inclinada para o gore. Ya, para aí.

Não, não vi o início da trilogia (que, para mal dos nossos pecados, vai ser uma quadralogia - um desejo de Ano Novo que foi ao ar...). De qualquer modo, lá fui (pagaram-me o bilhete).

A ideia de um serial killer que tortura pessoas para ver o quanto elas valorizam a vida (perversão das perversões, o salvarem a vida implica sempre algum tipo de auto-mutilação ou enfiar as mãos nas entranhas de outra pessoa) é interessante. Deve ter sido por isso que o primeiro filme (dirigido por James Wan, da Malásia) teve tanto sucesso. Ora, alguém deve ter dito que o filme tinha pica porque apareciam uma data de tripas e coisa e tal. Quem vê o Nip Tuck, mes amis, está habituado a situações muito mais gore que estas. Falando nisso, o momento em que realmente há um nojo generalizado pela sala é o da operação ao cérebro do assassino.

Nem quero falar dos actores. Nada de especial. Pelos vistos o fim era bom, para quem tinha visto os outros dois. A mim pareceu-me um pouco forçado, estilo novela a acabar forçosamente mal. E que treta era aquela dos ciúmes da outra? Ahein?

Mas quem sou eu para falar. Eu só gosto de terror psicológico. E em termos de Psicologia, a única pergunta que se impõe é: para quando um filme de terror a sério, seus serial trilogists?




quarta-feira, dezembro 13, 2006

The Holiday (2006), Nancy Meyers


Sim, eu gosto de chick flicks. Porquê?
Aproveito e agradeço aqui à Kel, essa ganda amiga que me levou com convite à antestreia do filme 'O Amor Não Tira Férias' (nem eu, por acaso...) E vocês podem pensar, ah, por isso é que ela foi ver, mas desiludam-se. Eu queria mesmo ver o filme. Sim, dar 4 euros para ir ver uma comédia romântica de Natal. Eu, uma estudante de cinema a descobrir os prazeres do cinema polaco e russo. A ver filmes da Nancy Meyers.
Primeiro que tudo, é um óptimo filme de género. Boas gargalhadas, quentinho cá dentro quando saímos da sala, confortadas com a ideia que ainda há happy endings na vida real. Kate Winslet como nunca a viram, a interpretar a mulher mais frustrada e sem auto-estima que faz arrepiar os meus pêlos da nuca. Cameron Diaz (ou, como um certo professor meu goza, a Camarão Dias), a strong woman do filme, workaholic, a mulher que eu um dia tenciono ser, basicamente. ;) E, claro, Jack Black estranhamente a afirmar-se como herói romântico (bastante credível, aliás) e Jude Law, aquele homem que me conseguiria levar ao altar em 5 minutos, sem eu pensar sequer duas vezes, no papel do costume ou assim julgamos no início.
É óptimo que o filme não tenha pretensões além de ser o que é, uma Comédia Romântica prás gajas sozinhas que vão fazer compras de Natal e se sentem deprimidas. Mesmo assim, o jogo que se faz com os trailers é bastante original, tanto que não me importaria (?) de o ver explorado até à exaustão. Outros Grandes Momentos : toda a homenagem feita aos anos dourados do cinema pela personagem do argumentista Alfred, os diálogos (da realizadora - isto classifica-a como auteur?), o momento no clube de vídeo, com o cameo do Dustin Hoffman, Cameron Diaz a lidar com a neve de saltos altos e malas, o telefonema trocado... argh, tantos. Menos bom: bolas, é apenas uma comédia romântica, não se pode pedir muito. Entretenimento puro, bom para lavar a cabeça, tentar despertar o espírito natalício e varrer para longe todo o anti-men movement.
Ok, não digo que vão ao cinema vê-lo, mas quando passar nas matinés de Domingo da televisão pública, não o percam. Vale a pena.
PP. Que raio de empresa de legendagem contratou a Lusomundo? Cada subtitle, cada palavra com letras trocadas! Mas uma pessoa paga o bilhete pra quê, além de ter de gramar com intervalos e cheiro de pipocas?

PP2. Um dia hei-de fazer um manifesto pelo chick flick . A sério. Este mundo de machões do Rambo e do Rocky nem sabem o que os espera...

sexta-feira, novembro 24, 2006

Maria Antonieta (2006), Sofia Coppola


E as primeiras palavras que se impõe nesta crítica são : FINALMENTE!!!!

Após um longo ano de espera, mes amis, Marie Antoinnette da senhora Coppola dignou-se aparecer em Coimbra, já um mês depois da estreia oficial neste 'pedaço de merda à beira-mar plantado', como já ouvi dizer nem sei por quem. Mas não interessa. Mais vale tarde do que nunca.
Primeiro ponto: um filme deitado abaixo pela crítica portuguesa é sempre um filme a ver. Depois, a oportunidade de me espetar no cinema sozinha (mesmo sozinha, ninguém na sala) é a não desperdiçar (nota para o futuro: fazer isto mais vezes). Por fim, o filme é bom, inovador, e resulta muito bem se entrarmos no espírito da coisa - adolescente lançada aos monstros, incompreendida, etc etc.
Bem, a música e a maneira de filmar chocam mesmo com a ideia de filme de época, biopic, whatever. Talvez por isso tenha sido tão mal recebido. Uma coisa é o Coração de Caveleiro, que não pretendia representar nenhuma realidade histórica - está cheio de anacronismos, tipo a armadura da Nike - e é um teen pic, o que afasta os senhores críticos barbudos todos. Agora, a filha do Coppola a fazer isso com a vida de alguém que existiu - ui, cruz credo, acudam. Sim, foi apupado em Cannes, e como lá também se riram no Código Da Vinci, talvez isso quisesse dizer alguma coisa, mas sabem como é a droga nesses festivais - bate forte e o cor-de-rosa dá tripes maradas.
Todo o ambiente é de auteur, a história está bem contada (adorei o facto de ter terminado quando e como terminou), Kirsten Dunst muito protagonista, olhos todos pra ela, nem sequer me lembro da interpretação dos outros - é pra verem como ela esteve bem. Todo aquele cor-de-rosa, fantástico, muito kitsch, os bolos que fizeram a minha barriga rosnar, os fogos-de-artifício, a ópera,... muito Coppola, muito soft, muito queridinho, muito bom.
A realçar o uso do som e do silêncio, tudo muito bem pensado, aquele tique-taque infernal no quarto da Maria Antonieta, os 'paxarinhos' - aprendam, cineastas portugueses!
Grandes momentos: todas as cenas nocturnas entre Maria Antonieta e o Rei Luís (que devia julgar que as crianças vinham das couves ou qualquer coisa assim), o jogo 'guess who I am', a traição com aquele conde 'gostoso' -ui ui a minha fidelidade -, os pequeno-almoços, a festa de anos da rainhazita, etc etc etc. Bolas, vejam por vocês. E não, não recebo parte dos lucros do filme. Apenas me chateia que andem tão mauzitos com os filmes que saem das histórias de gangsters e atentados terroristas. Isso sim é um lobby americano.
Não me apetece dizer mais nada, vou ter aula. Talvez republique o post depois de uma reflexão profunda, ou não. Definitivamente não.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Perfume (2006), Tom Tykwer


Sim, a Maria Antonieta já chegou a Coimbra (demorou-se porque se esteve a vestir), mas eu tinha, absolutamente, de ir ver este filme. É com alegria que anuncio que SIM, li o romance de Patrick Süskind antes de ver o filme e – é tão raro isto acontecer – NÃO, não fiquei NADA desiludida com o filme. Agora que aprendi o valor expressivo de usar maiúsculas num post, não quero outra coisa. Agora que descobri que é possível uma adaptação que capture a essência – percebem, essência, perfume… hoje sinto-me genial – de um livro, não vou perdoar ou ser complacente (vêem? Até uso palavras caras…) com os próximos Harry Potter, nem com nada do género que nos reserva o futuro.

O filme é MUITO BOM, mesmo. Conseguiu libertar-se do estigma da adaptação - e agora vou citar João Mário Grilo, só pra dar uma de snob que por acaso anda a ler sobre estas cenas: Regra geral, basta que um filme enuncie claramente que é “adaptado de…” para que sobre ele pensa, imediatamente, uma hipoteca identitária, com o seu rosário de especificações e – pior ainda – comparações. («O cinema não filma livros…», in Discursos. Estudos de Língua e Cultura Portuguesa, nº11-12 (Outubro de 1995/Fevereiro de 1996), p.210). Tenho de confessar que sou uma daquelas pessoas que gosta de ver adaptações fiéis que excedam o original, se possível. Este filme é um desses casos.

Pronto, tenho de falar do filme propriamente dito. O realizador, Tom Tykwer, é o mesmo de Lola Corre Lola - ou seja, o tipo tem efectivamente um fetiche por ruivas. Os actores principais são ilustres desconhecidos. O rapaz que faz de Jean-Baptiste Grenuille (Ben Whishaw), se bem que mais bonito do que a imagem transmitida por Süskind, faz um papelão daqueles de fazer muita impressão. Ele veio para ficar, mes amis, ouçam o que eu vos digo. Pelos vistos fez de criado da Pórcia no Mercador de Veneza - bem me parecia que a cara não era estranha.
Algures li uma crítica (naquele jornal que começa por P, acaba em O, e é sinónimo literal de audiência) – negativa, porque crítico de jornal é um monstro sempre muito mal disposto para tudo o que perturba a sua normalidade de matiné da Sic de tarde – a evocar Hannibal Lecter. Sobre o Silêncio dos Inocentes, devo ser das únicas pessoas que leu o livro e não viu o filme. Mas percebo a ideia. Sim, um serial-killer sem sentimentos que procura o perfume ideal, estou a ver as semelhanças. Mas negar que a história de Süskind é muito boa – mais não seja pelo incrível twist final e pelas descrições abrasadoras de algo tão indescritível como o é um cheiro – só porque é um best-seller de há 20 anos e muita gente a leu – francamente! É o mesmo que negar originalidade à J. K. Rowling só porque combina Tolkien com Enid Blyton – que mal tem uma pequena mistura de vez em quando, seus puristas manhosos? (Eu hoje tou pra defender o Harry Potter – a obra literária, bem entendido. Sim, literária) Há imensas histórias de serial-killers, ora essa, e esta é radicalmente diferente do comum – quanto mais não seja pela temática do ofício de perfumista. Senhor Jorge Mourinha, go f*ck yourself, seu escritor falhado. Sim, falar sobre o filme. Não me esqueci.

Retomando os actores, o tipo que faz de Grenouille está nos trinques. As ruivas, pronto, além de serem ruivas passaram um bocado ao lado. A virgem final – a 13ª essência – devia ter algo mais nela para suscitar a obsessão de Grenouille além daquele cabelo fenomenal. Um Dustin Hoffman irreconhecível até ao momento em que abre a boca – ainda estou para decidir se isto é uma crítica ou um elogio, desculpem. Alan Rickman, ou ‘Snape’ – deve ser por isso que o Harry Potter não me sai da cabeça – mediano, mediano.

O argumento adaptado, como acho que já perceberam, está genial. Claro que a Caroline Thompson tinha de estar metida nisto. Uma tipa que se mete com compositores tem necessariamente de ser genial (pronto, a primeira private joke deste blog. Já tardava…). Para quem a não conhece, sim, é uma habitual colaboradora de Burton. Não se percebe? :) (eis o primeiro smiley do blog)

A fotografia está de bradar aos céus a perguntar: “Deus, porque não contrataste este director de fotografia para te ajudar durante a Criação? Sua divindade inconsequente e inexistente…”. Todas as cores de Grasse estão – ui – aromáticas como tudo. Uma das virtudes deste filme – ou terá sido dos comprimidos da gripe? Ou de ter estado três dias sem sentir o cheiro das coisas e estar cheia de saudades? Sei lá – é evocar os cheiros tão bem ou melhor do que o livro. Para mim o cheiro sempre foi um elemento potencialmente cinematográfico. Nos inícios do cinema ainda tentaram, mas sabem como é, era algo tão ridículo, raspar uma lista em determinado sítio correspondente a determinada altura do filme… Tenho perfumes que associo a filmes, o da pessoa mais perto de mim que se encharcou antes de vir para a sala. (por isso é que para mim ir ao cinema é que é. Em casa o único cheiro que tenho é a comida ou a cão.) Toda aquela fruta tão viva, aquelas flores coloridas, a própria banha… hum! Uma verdadeira Gesamtkunstwerke…

Momentos memoráveis – o nascimento de Grenouille, os da vendedora de ameixas, enquanto viva e enquanto cadáver, a casa do perfumista a desabar, todo o empenhamento de Grenouille na sua colecção, e, last but not least, o momento em que Grenouille sobe ao cadafalso – e para não ser acusada de spoiler, não vou adiantar mais. Claro que o final touch tem muito que se lhe diga…

Quatro euros muito bem pedidos emprestados para ver este filme. Sem dúvida. Subiu a fasquia para os próximos que for ver, disso tenho a certeza. Mais um que vai para a colecção de DVDs mal fique a um preço decente – isso diz quase tudo, não? Snif snif.

PP- Nunca entrei dentro de tantos narizes como neste filme, disso tenho a certeza… Otorrinos, este é o vosso filme por excelência.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Children of Men (2006), Alfonso Cuarón


Lá tive de ir ver este, já que a Marie Antoinnette está longe de aparecer pelas salas de Coimbra...
Alfonso Cuarón será sempre para mim o senhor que salvou o Harry Potter das adaptações fatelas. E isso é dizer muito. Sim, o terceiro volume da saga é um dos mais interessantes, mas a capacidade de estragar uma boa história anda por aí à solta e é imprevisível (cf. Ron Howard e o seu bloca buster do Vinci). E que o tipo tem jeito para a coisa, ninguém o pode negar.
Sobre os Filhos do Homem, bem, é um bom filme. Poderia ter mudado a minha vida se eu tivesse ido noutro estado de espírito ao cinema, i.e., sem a vontade irresistível de fazer piadas de tudo e mais alguma coisa. Digamos que me ri muito de coisas supostamente dramáticas, mas o filme, como todo o seu humor negro (para mim um dos melhores traços do filme) puxa pra isso.
A história passa-se numa Inglaterra futurista e perfeitamente verosímil. Terrorismo e poluição com força, e, pior de tudo, deixou-se de parir. Ou seja, a raça humana caminha para a extinção. Eis senão quando surge Clive Owen (o único ponto positivo do Reino dos Céus de Ridley Scottex), muito conformado com a sua vidinha de merda, e, de repente, tem a oportunidade única de salvar o mundo com chinelos de enfiar no dedo. Hurrah!
A história é excelente. Ainda mais quando podia ter fugido para fatela em tantos momentos. Matar a Julianne Moore logo na primeira meia-hora de filme (seria por honorários demasiado altos) foi uma boa opção. A tipa estava com um ar muito sonsinho, e o Clive Owen é muito mais atraente quando não tem tipas a cuspir-lhe bolas de golfe para a boca. Nada é desnecessário, os pequenos pormenores estão muito bem pensados, um final brusco, para deixar espaço à interpretação da obra aberta. Ou não.
Clive Owen, brutal, esse sotaque parte tudo, mas, muito mais que isso, és um cabrão de um bom actor e ninguém te pode tirar isso.
É um filme cheio de bons momentos. O nascimento do bebé, a saída do prédio por entre as caras espantadas de todos (e a explosão súbita que nos arranca do ambiente onírico), e mais que tudo, a ideia de salvar o mundo de chinelos. Ainda melhor que a ideia de construir um império de roupão (cf. Hugh Heffner).
A verdade, mes amis, é que eu tenho um estranho fascínio por filmes futuristas. Fui ver O Dia Depois de Amanhã ao cinema, e isso diz muito. E o meu filme preferido é o Inteligência Artificial. No fundo, eu adoro ficção científica, mas não fica nada bem a uma gaja dizer isso.
Vale a pena todos os cêntimos do bilhete. A sério. Não me desiludiu, pelo contrário. Ultrapassou em muito as expectativas.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Rapace (2006), de João Nicolau


Vi este filme na competição internacional do IMAGO, e pude compará-lo com o melhor que se faz a nível mundial por jovens realizadores. Sim, eu sei que ganhou um prémio em Vila do Conde. Sim, esteve em Cannes na Semana dos Realizadores. Sim, se há alguém que não é expert em cinema português (ou mesmo cinema a nível geral) sou eu, que passei a adolescência a ver teen pics e filmes de serial killers. Sei isso tudo. Só não sei porque raio insistem que esta é uma boa obra. A sério. Expliquem-me.

OK, OK, o tema até prometia. Um pouco pseudo, mas temos de dar um desconto porque, afinal, o português é mesmo assim. Pretende dar uma de snob intelectual sem as bases para o ser. Mas o tema não basta para fazer um bom filme. Quer dizer, de boas intenções está o inferno cheio…

No mesmo festival tive a oportunidade de ver um filme de Adam Smith, em animação, chamado The Boy With No Name. E escrevi junto à descrição do fime ‘imitação descarada de Tim Burton’. Ora, este homem é bom, e não me cansarei nunca de dizê-lo. Nunca me desiludiu. Agora, Tim Burton só há um, e é ele. Copiar-lhe o estilo descaradamente sim, de certo modo é uma homenagem, mas não tem valor para além disso. Do mesmo modo que a maioria dos cinéfilos despreza o cinema comercial por não ter marca de auteur (e incluo-me neste grupo – são bons para lavar o cérebro apenas, para distrair, daí a designação recente de cinema pipoca), que podemos dizer de um cinema que imita a marca de auteur de outros.
Ora, quando saí da malfadada sessão, pensei para comigo – ‘ou o tipo está a tentar fazer uma imitação do João César Monteiro, ou julga, coitado, que está a inventar algo de novo’. Conheço a obra do César Monteiro melhor que conheço a do senhor Manoel de Oliveira – sorry! – e até que tem a sua piada estética, embora para mim aquilo não seja bom cinema. Um cinema baseado numa teoria estética, ou num conceito, cinema conceptual, chamemos-lhe assim, é… interessante, mas não é bem cinema. É filmar teses. (é a minha opinião e, como tal, já sabem, não tem qualquer valor whatsoever). Voltando ao João Nicolau, depois de ter espalhado aos quatro ventos o quão mau o filme é, a Lília orientou-me uma entrevista do realizador à Y do Público, edição de 5 de Maio 2006. E, tcharam! O senhor Nicolau tinha montado o último filme do Monteiro, assim como organizado a retrospectiva para a Cinemateca. Experiência prévia na realização: documentário (o rapaz vem da área da Antropologia). Afirma não ser cinéfilo (mas que raio de realizador é este? Ou quer dizer que não tem conhecimentos na área da história do cinema? É que são coisas diferentes. Soa a desculpa…)
O meu grande problema, daí a raiva sobre esta questão, não é ser um trabalho abaixo do razoável (erros de continuação e técnicos num tipo que já fez montagem a nível profissional? Que é isto?), porque, no final de contas, é um primeiro trabalho e nem todos podemos ser o Orson Welles. Tenho a certeza que o rapaz, se continuar por aqui, e parece-me que tem intenções, vai acabar por descobrir um estilo próprio e quiçá, tornar-se uma referência. Agora, engraxar o menino a dizer-lhe que Rapace é formidável, etc, etc… Por favor! E ao ler a reportagem da Y fiquei com sérias dúvidas se o sr. Vasco Câmara tinha visto o filme ou, numa atitude de aluno do secundário, sacado o resumo da net… Ok, numa reportagem sobre um realizador criticar negativamente os seus filmes não faz muito sentido… mas das duas uma – ou pensa o que disse e então discordo dele, ou então dourou a pílula e então pergunto – cadê a honestidade para com os leitores? E um prémio em Vila do Conde? A droga por esses lados deve bater bem!

Mas o que me irrita mais é julgarem que eu não gostei porque não percebi a intenção. ‘É representação teatral, os pormenores técnicos que falham são de propósito!’ Pois, e eu sou a Leonor Teles. O Hugo Leitão –ignoro qual a sua formação na área – é um péssimo actor de cinema teatral. Isto é, é a pior representação teatral no cinema que já vi. Não consegue transmitir a ironia e a alienação dos actores às ordens de César Monteiro. Ah pois, a mim não me vendem gato por lebre. As lebres tem orelhas compridas e não fazem ‘miau’!

Tinha mesmo de gastar o teclado do portátil com isto. São pequenas coisas como esta que me explicam porque é que o cinema em Portugal está tão mal. De um lado, pipocas e coca-cola para os filmes mais vistos de todos os tempos. Do outro, os pseudo-intelectuais que passam a vida a dar palmadinhas nas costas um dos outros, com medo de dizer que o rei vai nu porque podem passar por ignorantes da moda.

Para quando um cinema pós-César Monteiro e pós-Oliveira, pessoal adepto do film d’auteur? E onde estão os filmes comerciais que não roçam as novelas bregas televisivas, cujos lucros estão em directa proporção com o tamanho das mamas da actriz (atroz) principal?