segunda-feira, setembro 29, 2008

Nightwatching (2007), Peter Greenaway


Que bom que é ter a possibilidade de ver em ecrã grande um dos grandes senhores do cinema inglês e do experimentalismo cinematográfico! Ah, TAGV abençoado que (quase) nunca nos abandonas…

Greenaway, para quem não sabe, é um maluco – no bom sentido. O seu primeiro filme, The Draughstsman Contract, é uma delícia cerebral, que mostra bem a formação pictórica do seu autor. E agora, com a teatralização de um dos mais famosos quadros de Rembrandt Van Rijn, deuses, ele volta à boa forma depois de uma longa ausência dedicada à televisão e à vídeo-arte.

Primeiro que tudo, nunca me deixo de surpreender pela artificialidade dos cenários, e contudo pela sua exuberância simplista, pelo paradoxal de uma nudez muito mais natural que um figurino, pelos diálogos verdadeiramente shakespeareanos e encantatórios. Ver um filme de Greenaway é sempre uma experiência mística. Nem sempre agrada – é preciso estar no estado de espírito certo para permitir que a extravagância nos seduza, e conhecimentos do delicado sarcasmo britânico são também recomendados. Mais, qualquer intertextualidade que julguem captar quase de certeza absoluta que não é coincidência.

A história, que mistura a semiótica do quadro com a biografia do pintor, ousadamente passada na sua maioria à volta de uma cama móvel e um telhado com anjos humanos, é ousada. Pessoalmente, não sabia nada da vida do pintor: a curiosidade aguçou-se-me, sem dúvida. Mais, nunca irei olhar para a Ronda da Noite da mesma maneira. Sempre achei que era um quadro bastante aborrecido de ‘tradição italiana’. Percebi finalmente que é, sim, uma paródia a essa mesma tradição, e com pormenores bem obscenos que revelam a podridão da nobreza que o encomendou e nela está representada.

Martin Freeman, a fazer um papel sério. Dêem-nos mais disso, por favor! Não só se revela fisicamente parecido com os retratos que conhecemos do autor, como há momentos em que esquecemos que ele é o eterno apaixonado da Shaun no The Office. Por momentos, digo, porque Greenaway brinca mesmo com esse nosso conhecimento prévio e põe-no a falar directamente para a câmara, apresentando as suas mulheres, putas e conhecidas.

Os cenários são teatrais, espartanos (o que não deixa de ser estranho neste realizador), e muito, muito escuros. Aliás, a fotografia, e a ironia com que quase casualmente são representados na película os momentos de tela de Rembrandt (com especial destaque para o momento do tapete oriental, ao ar livre), estão de mestre. A escuridão que só desaparece quando por momentos passamos de uma tradição pictórica para outra, quase no fim, é omnipresente. I’m watching the night… I’m night watching………. Darkness everywhere, with occasional lights spasms, if you’re lucky…

Destaque também para a intensa banda sonora, que não é da autoria de Nyman, o eterno companheiro (as associações realizador-compositor andam ultimanente a desfazer-se em pó, vide Burton-Elfman… Que se passa?), mas de um polaco de seu nome Wlodek Pawlik e que será atentamente seguido por mim e penso que por toda a gente que teve o prazer de estar naquela sala. Aliás, nem me importo de ir parar à cadeia por sacar ilegalmente as músicas desse senhor, porque vale a pena. Mais, nem me importava de dar dinheiro por um cd ou dois ou mais desse mesmo senhor.

Não me parece que Greenaway seja um bom elemento de transição de blockbuster para filme de arte, para aqueles que querem ser iniciados no cinema mais alternativo, mas para quem já gosta de filmes fora do normal, é a melhor maneira de reafirmar e reacender uma paixão. Deve ser o único realizador ‘teatral’ que não consegue ser aborrecido, mesmo que tente. Ou o único a quem perdoamos extensões no tempo da película desnecessárias… Pensem numa mistura de João César Monteiro (o interesse e estranheza do sexo, por exemplo) com o barroco de Baz Luhrmann, alguns laivos de Lynch e sobretudo muito teatro do século XVII… nem assim conseguem imaginar o que seja, a menos que tenham visto…

E agora uma frase cliché para terminar: Um must-see de um agradável regresso.

sábado, setembro 20, 2008

Superhero Movie (2008), Craig Mazin

Todos temos momentos em que olhamos para os filmes em exibição nas salas que frequentamos e pensamos, ‘hoje quero ver uma coisa mesmo má’. E pronto. Com medo que as críticas pouco entusiásticas do Get Smart se concretizassem, resolvi ver mais um daqueles subprodutos que se baseiam no nosso conhecimento blockbusteriano para arrancar umas gargalhadazitas.

Tenho de confessar que gostei do Scary Movie. Mais, também gostei do Date Movie. Por isso até que estava com alguma curiosidade sobre este filme que supostamente gozava com os filmes de superheróis. Gargalhadas fáceis, era o que eu ia à procura.

Das duas uma, ou me tornei muito intelectual entretanto (o que é possível mas não provável), ou este subproduto de subproduto em saldo é muito, muito fraquinho dentro do género. Baseado sobretudo na história do Spiderman, com uns pequenos laivos de Batman e umas piadas gratuitas X-Men, digo-vos, como é que um filme baseado em outros filmes (e o que não falta são filmes de super-heróis!!!) é tão fraco em referências????

Mais, se vejo o Leslie Nielsen a fazer de avô de alguém em mais algum filme não respondo por mim. O homem tinha piada no Naked Gun, ok. Mas desde que ele entrou no franchise que as coisas atingiram um pico negativo impressionante. Mais, Pamela Anderson. O dinheiro para estrelas devia ser mesmo muito baixo, pela rapidez com que ela surgiu e desapareceu.

A escatologia está presente – na sua variante gasosa – mas nem isso está bem feito (eu sei porque o público-alvo para este tipo de piadas, pré-adolescentes e por aí, riu, mas com muita fraca intensidade). As piadas sexuais não são muitas (medo da classificação?), e tenho de dizer que a história está tão batida, tão batida (sem tirar partido da ironia daí inerente), que até parece um filme de superheróis ponto.

Sabemos quando um filme é mesmo mau quando o melhor do filme não foi inserido na montagem final e posto como extra durante os créditos. Sim, é verdade. As melhores piadas (algumas das quais apareciam no trailer) apareceram depois do filme acabar, todas desorganizadas, e não estamos a falar de falhas de actores. Estamos a falar efectivamente de cenas bem feitas, sem erros, que não foram inseridas no filme não sabemos porquê. Talvez se trabalhassem para pô-las no filme a coisa resultasse muito melhor. A sério. Só me comecei a rir depois dos créditos começarem!

Começo a ter a sensação que os estúdios julgam estes filmes maus (e sempre o foram, é nisso que se baseiam para resultarem!), e por isso põem qualquer um por trás deles. Ora, não é qualquer um que consegue dar estilo ou piada a um filme naturalmente mau. E não é qualquer guionista que tem habilidade para isto. Se em vez do senhor realizador Craig Mazin (Scary Movie 3 e 4, como argumentista) tivessem investido num, sei lá, num Keenen Wayans, num Arthur Semedo (deuses! Eu adoro este senhor: d) ou mesmo, à maluca, um Paul Weitz nos seus melhores dias, ou então Joel Gallan, para o desastre completo…

Meus caros senhores dos estúdios, os filmes maus também precisam de ter qualidade!!!!

No Country For Old Men (2007), Coen Brothers


A decisão de não escrever neste blog sobre filmes que não vi no cinema tem alguns revezes, como por exemplo só falar da porcaria que passa pelas salas de Coimbra ou deixar de fora filmes obtidos por meios menos... hum.... legais. Por vezes tenho a impressão que ninguém acredita que nem gosto assim tanto de cinema mainstream, ou que tenho alguns guilty pleasures de cinema mau como toda a gente. Mas enfim. Resolvi fazer uma excepção daquelas muito grandes, isto é, não só vou falar de um filme que não vi no cinema, como não vou fazer uma crítica ao filme. Vou sim fazer um magnífico paste de uma parte de um trabalho que fiz sobre o objecto em questão. Cadeira, Análise de Argumento. Não sei, apeteceu-me. Vai fazer um tremendo contraste com o meu estilo (?) habitual, mas olhem, para desenjoar um bocado.

A parte do trabalho é sobre as personagens de No Country for Old Men. As primeiras partes falavam, respectivamente, da comparação livro/argumento, e das especificidades de argumento. Ambas são demasiado 'aluno de cinema', por isso escolhi a última para pôr aqui.... aí vai.

As Personagens

MOSS

What is he supposed to be, the ultimate bad-ass?

WELLS

I don’t think that’s how I would describe him.

MOSS

How would you describe him?

WELLS

I guess I’d say… that he doesn’t have a sense of humor.

O que é afinal uma personagem principal, e daí derivado o que faz uma personagem secundária?

Segundo Ken Dancyger e Jeff Rush,

The main character differs from secondary characters in a variety of ways. The primary difference is that the main character undergoes a metamorphosis during the course of the story. On the other hand, the secondary characters do not change and, in fact, necessarly serve as a source of contrast to the main character. Through interaction with the main character, secondary characters help to move the story along.[1]

Anteriormente definimos Moss como a principal personagem do argumento de No Country For Old Men. Mas se o é, porque o vemos de forma mais distanciada do que Bell ou Chigurh? E porque morre ele no final do segundo acto?

Moss é a personagem principal porque é contra ele que o antagonista, Anton Chigurh, se move. Bell não pode ser o protagonista porque nada contribui para o desenrolar da acção. Talvez uma definição de protagonista mais adequada ao nosso objecto de estudo seja a de Yves Lavandier: Llamaremos protagonista al personaje de una obra dramática que vive el mayor conflicto, por lo tanto, a aquel con quien el espectador se identifica (emocionalmente) más. La mayor parte del tiempo se trata de un conflicto específico, también llamado conflicto central. Por eso el protagonista posee, en general, un único objetivo, que intenta alcanzar a lo largo de todo el relato y ante el que va encontrando obstáculos. Sus intentos y las dificultades a la hora de alcanzar el objetivo determinan el desarrollo de la historia, lo que llamamos la acción.[2] O espectador identifica-se com Moss porque ele é uma vítima dos acontecimentos, está em perigo, em dificuldades. O objectivo dele pode ser ficar com o dinheiro, mas isso ao espectador não está em causa: o que interessa é que, com dinheiro ou sem ele, o protagonista sobreviva. Ironicamente, quando vemos Moss pela primeira vez ele está a caçar; pouco tempo depois passa de caçador a presa.

Moss pode ser o protagonista de No Country For Old Men, mas não é um protagonista comum. Não é uma personagem ‘heróica’, e apesar da sua inteligência (esconde a mala do dinheiro na conduta do ar do motel, descobre o transmissor no meio das notas) é difícil acreditar que ele consiga fugir por muito tempo de Chigurh ou dos mexicanos. Aliás, ele nunca enfrenta os seus perseguidores; prefere fugir. O único momento de confronto é quando Moss telefona a Wells e descobre que é Chigurh que está do outro lado da linha, e o ameaça: Yeah I’m goin’ to bring you somethin’ all right. I’ve decided to make you a special project of mine. You ain’t goin’ to have to look for me at all.[3] Para Lavandier, os obstáculos não devem parecer intransponíveis pelo protagonista, ou a história deixará de fazer sentido - La idea es conseguir que el espectador se debata entre la esperanza y el temor. [4] Neste momento breve julgamos que Llewelyn estará à altura de Chigurh (afinal ele conseguiu já duas coisas impossíveis: vê-lo e ficar vivo, e atingi-lo numa perna) e as coisas poderão acabar bem: a ilusão de uma vitória de Moss torna a morte deste um choque para o espectador.

Moss despoleta toda a acção mas não percebemos quais as suas razões para agarrar na mala de dinheiro. Não nos é dada uma resposta sobre o que ele planeia fazer com aquele dinheiro todo. Mais do que sobreviver (ele sabe que se expõe ao perigo no momento em que agarra a mala), o único objectivo de Moss é ficar com o dinheiro. A sua tragic flaw é a teimosia em crer que é capaz de se desembaraçar sozinho das pessoas que o perseguem.

Mas este objectivo único, definidor de uma personagem principal, mais não parece, pela sua falta de fundamento, do que um pretexto para um despoletar de violência, um macguffin, para utilizar o termo hitchcockiano. É como se Moss fosse, além ou apesar de protagonista, uma personagem irónica, i.e., something of an innocent who unleashes a course of events that "punish him or her" far beyond what we might expect given their actions.(...) As Frye claims, the story is then pushed toward myth.[5] O argumento dos Coen, ao colocar Llewelyn Moss em primeiro plano, transforma uma história de um velho xerife avassalado pelos acontecimentos à sua volta (o que é a lei, o que era a lei antes, se a lei faz sentido) numa reflexão sobre a violência[6], não dos anos 80 em específico, mas dos nossos dias. O argumento joga com o fascínio actual da violência, com o, podemos mesmo assim chamar-lhe, erotismo do gore, e despoja-o do seu encanto, apresentando-o em toda a sua frieza, sem música de fundo. Como sublinham Dancyger e Rush, An ironic character promotes distance between us and the character, and allows us not only to sympathize with the character's plight, but also to wonder why events and people seem to conspire against him. Often, the ironic character is portrayed as an innocent victim of a person or system. This type of character is very useful when you feel that the ideas are more important than the people in your screen story.[7]

Ed Tom Bell, xerife, é o old men a quem o título se refere. Sobre ele parecem ser indicadas as palavras de Dancyger e Rush sobre “reflective agency”: a character [that] does not directly affect the action line, but rather one in which his reaction shapes the viewer’s understanding of the scene.[8] A Bell cabe aquilo que os teóricos designam de background story, a parte narrativa relativa às emoções, aos dilemas interiores. Moss e Chigurh estão envolvidos de uma forma excessivamente intensa na foreground story, orientada para a linha de acção, para se poderem permitir a existência de uma vida interior. Esse ‘peso’ recai sobre Bell, o carro-vassoura das consequências da acção dos outros dois.

De facto, Bell é um espelho para toda a acção, e se no romance de McCarthy ele se mostrava à altura de representante dos velhos tempos, intrigado pelos acontecimentos e derrotado face a eles, aqui não é mais do que uma personagem desencantada e inerte que não se quer meter em sarilhos. Ele é o comentador inconsciente do que se passa, distanciadamente. He seen the same things I seen and it made an impression on me, diz ele a certa altura, mas não acreditamos que esteja impressionado com o que viu. A frieza com que analisa as cenas de crime (realçada pelas reacções contrastantes do impressionável Wendell: Hell’s bells they even shot the dog), a sua descontracção em beber leite sentado no sofá onde sabe que horas, minutos antes esteve sentado Chigurh, a calma com que se senta no café a ler o jornal, caracterizam-no como uma personagem habituada à violência, tão habituada que está mesmo dormente perante ela, não sentindo qualquer desejo de salvar o mundo, apenas a necessidade de auto-preservação.

O momento mais emblemático do Xerife Bell é quando ele entra no quarto de Moss, pensando (acertadamente) que Chigurh está lá dentro. É o único momento em que vemos Bell demonstrar alguma coragem, algum desejo de morrer por um objectivo maior. Mas o seu desejo de valentia sai frustrado: Chigurh não o ataca. Bell perdeu a sua oportunidade de tomar o lugar de Moss, de protagonista.

Anton Chigurh é a primeira personagem que nos é apresentada; a voice over de Bell não nos diz nada sobre o xerife, não é perceptível se estamos a ouvir um narrador heterodiegético (porque a história que a voz conta se confunde com os acontecimentos do ecrã, embora haja um momento de dúvida temporal até sermos situados no presente por The crime you see now… sobreposto ao algemar das mãos de Chigurh[9]) ou uma personagem participante, como é o caso. Chigurh é a primeira personagem a agir, mas não fala. As suas acções caracterizam-no – as suas palavras só virão mais tarde.

Chigurh é a personagem com menos variantes ao longo da narrativa, mais compacta – opaca mesmo - e arquétipa. É, como já foi referido, o antagonista. É também a personagem com mais carisma, aqui entendido na definição de Dancyger e Rush. Segundo eles, as características de uma personagem carismática são as seguintes: uma imperfeição subtil; um chamamento ou sentido de missão; agressão ou intensidade polarizada; uma dimensão sexual; capacidade para convencer os outros. De uma forma mais sintética, [t]he key element is that we quickly notice that they are different, but we are not put off by them; instead, we are curious about them.[10] A associação de carisma com antagonismo não é novidade; o que é particular neste caso é que, porque Moss é uma personagem principal pouco convencional, o papel de herói – aliás, de anti-herói – recai sobre Chigurh. É ele que se mostra a personagem mais capaz de ultrapassar os obstáculos que o impedem de alcançar o seu objectivo (mesmo que não sejam obstáculos, ele faz questão de os ultrapassar na mesma). Sobre o protagonista não convencional, dizem-nos Dancyger e Rush:

The trade-off, between classic main character and the main character who shares the same quandaries and questions as the secondary character, is the loss of the hero. If one character is no more privileged than any other character, heroic action becomes, simply, action, and the dramatic struggle of the main character becomes, in one fashion or another, the struggle of each character. [11]

Esta perda do estatuto heróico do protagonista para o antagonista tem duas consequências imediatas: não acreditamos que Llewelyn Moss consiga vencer Chigurh; e sentimos uma certa empatia com este, quando nos é dado o seu ponto de vista (geralmente) triunfante.

Perhaps the similarities between protagonist and antagonist are more memorable than are the differences.[12] Chigurh partilha com Moss uma característica fundamental: o dinheiro, apesar de ser aquilo que o move, não lhe interessa. Mais do que a meta, interessa-lhe o caminho. Ele quer ser the one right tool. Corrigindo, o que lhe interessa nem é o caminho. O que lhe interessa é fazê-lo bem, e chegar ao fim. Só assim se justifica que, após a morte de Moss, vá a El Paso matar Carla Jean. Ele só atira a moeda ao ar uma única vez (no filme duas); contudo, esse acto, pela sua força e simbolismo, fica-lhe para sempre associado. Onde está uma moeda, está Chigurh. Ou esteve.


[1] DANCYNGER… p. 4

[2] LAVANDIER, Yves, La Dramaturgia: los mecanismos del relato, … p.39

[3] p. 88

[4] LAVANDIER, …p.60

[5] DANCYGER, …p. 294

[6] Não que esta linha não esteja presente no romance de McCarthy, pelo contrário – o argumento apenas a transforma na linha principal.

[7] DANCYGER, …p.10

[8] DANCYGER, … p.247-8

[9]No filme há inclusive uma dúvida temporal, pois se houver algum tipo de conhecimento prévio da história (trailer, críticas), sabemos que Chigurh é um assassino. Vendo-o ser algemado insinua, por momentos, que estamos num flash forward.

[10] DANCYGER, …p.182

[11] DANCYGER, … p. 198

[12] DANCYGER, …p.198


Filmografia

COEN, Joel & Ethan, No Country For Old Men (2007)

Bibliografia

CARRIÈRE, Jean-Paul & BONITZER, Pascal. Prática del guión cinematográfico. Barcelona: Paidós, 1998.

COEN, Joen & Ethan. No Country For Old Men - adapted screenplay. Miramax, 2007.

DANCYGER, Ken & RUSH, Jeff. Alternative Scriptwriting - Sucessfully Breaking the Rules. Oxford: Focal Press, 2007.

FIELD, Syd. Manual do Roteiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LAVANDIER, Yves. La Dramaturgia. Ediciones Internacionales Universitarias. Madrid. 2003

MCCARTHY, Cormac. No Country For Old Men. New York: Vintage International, 2005.

MCKEE, Robert. Story - Substance, Structure, Style and the Principles of Filmmaking. New York: HarperCollins, 1997.

SOUSA, Sérgio Paulo Guimarães de,. Relações Intersemióticas entre o Cinema e a Literatura - A adaptação cinematográfica e a recepção literária do cinema. Braga: Universidade do Minho/Centro de Estudos Humanísticos, 2001.

WOODWARD, Richard. Cormac McCarthy's Venomous Fiction. 19 de April de 1992. http://www.nytimes.com/books/98/05/17/specials/mccarthy-venom.html?_r=2&oref=slogin (acedido em 11 de Junho de 2008).


quinta-feira, agosto 28, 2008

Wall-e (2008), Andrew Stanton

Quando os filmes com pessoas reais só nos desiludem, nada como apostar numa ida ao cinema para ver imagens completamente virtuais, feitas por máquinas que um dia tomarão o controlo do mundo e transformar-nos-ão em processadores de texto e plataformas para jogar GTA IV (por acaso, tenho de tratar da minha ignorância neste último aspecto…)

Primeira coisa maravilhosa extra filme: vem aí um Madagáscar 2. Após meses e meses a atrofiar com as pessoas que me incomodam no cinema, fiz toda a gente ficar incomodada com os meus gritinhos histéricos e “personificação” de pinguim. Nunca uma sequela me deixou tão esperançosa…

Segunda coisa maravilhosa extra-filme: a curta da Pixar que foi mostrada antes do filme. Ver curtas no cinema é tão raro que só posso pedir que isto se torne uma norma. É tão bom, um aperitivo antes do prato principal… Sobre um coelho e um mágico. E uma cenoura. Ahhhhhhh….

E chegamos ao filme. Estava reticente – toda a gente falava bem dele, e isso não costuma ser um bom indício para mim. Mas era uma animação, quiducha e tal. Sim, sabia a história por alto. Mas que mais havia para ver no cinema nesta altura?

Após a indescritível experiência de ver um dos filmes do ano (se não digo o filme do ano é porque ainda estamos em Agosto e está o novo dos Coen para estrear), digo-vos que este ‘ovni’ está alguns passos luz de se tornar num dos meus filmes preferidos de animação. Primeiro que tudo, é ficção científica. Sim, o meu género preferido não são chick-flicks, por estranho que pareça. Depois, é uma distopia, a minha variante preferida de ficção científica. Mais, tem as personagens mais adoráveis de sempre, para um filme desse género. Raramente falam (o que é bom, porque tive de ver a versão dobrada em português – só há quatro cópias do original em território nacional e, adivinhem, três delas estão em Lisboa…), são robots (amor à tecnologia só superado pelo amor aos animais irracionais e relâmpagos), a banda sonora é das coisas mais deliciosas – bem vindo de volta, Thomas Newman – e os créditos finais são… bolas, são geniais.

Isto conjugado com uma historia simples, de amor (uma variante de amor que não é irritante), que não se mete em aventuras para disfarçar com suberfúgios idiotas a sua simplicidade. Pixar, adoro-te profundamente. Isto sem moralidades disfarçadas (à lá Disney), e apresentando uma das personagens femininas mais fortes de sempre, sem quaisquer paternalismos – Eve. Yehhh.

E, claro está, Wall-E. Nunca um robot do lixo foi tão fofinho e outras coisas pindéricas acabadas em –inho. Cada robot com a sua mania. (palmas para o limpador incansável de sujidad).

É um filme para crianças? Definitivamente. O melhor é a maneira como um futuro horrendo (Terra coberta de lixo, humanos supra-obesos, domínio da tecnologia) é apresentado de uma forma tão natural e sem dramas. Sim, a esperança da plantinha, verdusca, que é ao mesmo tempo o que une e separa Wall-e e Eve. Mas.. nem sei explicar.

E as referências cinematográficas ao longo do filme? Além das óbvias – os musicais que Wall-e vê vezes sem conta, vi pelo menos a mais gritante a 2001 Odisseia no Espaço, e ainda Voando Sobre um Ninho de Cucos, The Hitchickers’ Guide to the Galaxy, além de todas as referências ao Admirável Mundo Novo de Huxley, Pinóquio (temos uma ‘barata’ muda a substituir o grilo falante) e a Bíblia aka História Humana em geral.

Adoro que sejam apresentados os dois lados do desenvolvimento tecnológico – a liberdade absoluta e a escravidão absoluta. Tal como as vantagens e desvantagens das máquinas ganharem personalidade própria. I’m afraid I can’t do that, Dave. Wink Wink.

Mais uma ressurreição final, é verdade. Mais uma dança no espaço. Bom ritmo, óptimo guião, excelente trabalho de animação (ainda mais tratando-se de objectos que não existem ainda). E sim, não é por acaso que a Eve tem qualquer coisa de Macintosh, a inspiração é confessada. O que torna o Wall-e… hum…

Para ver muitas vezes até enjoar, se isso for possível. O melhor substituto do ET para os tempos modernos. E isto é um enorme elogio, acreditem.

sexta-feira, agosto 08, 2008

The Dark Knight (2008), Christopher Nolan


Why so Serious?

Ao fim de meses e meses de espera, eis que podemos ver o “filme do ano”, a única coisa que por aí andava com um hype ainda maior que o IPhone – e isso é dizer mesmo, mesmo muito. Com o seu primeiro filme, Batman Begins – um reload da série Batman, que teve a sua primeira aparição nos anos 60 na televisão – Nolan tinham posto no caixote do lixo os devaneios assustadores de Schumacher, com aquelas coisas coisas chamadas Batman Forever e Batman & Robin – sim, todos nos lembramos deste último dos belíssimos mamilos de George Clooney, mais do que da história propriamente dita.

Com The Dark Knight, lamento dizer, não perfilho a opinião do crítico do Público Jorge Mourinha – que para o caixote do lixo vão os incontornáveis filmes de Tim Burton. Snif. Só me consola o facto que o próprio nunca gostou muito deles - qual é o mal de serem cartoonescos???

Primeiro que tudo, Christian Bale foi talhado para vestir a pele – e as cicatrizes – do Cavaleiro Negro. Não só tem o queixo ideal requerido para o papel (com uma voz grossa estranhíssima quando enverga a máscara), como o ar de menino mimado aka Bruce Wayne. Aaron Eckhart finalmente nos dá as origens do Harvey Two-Faces (sim, eu posso ser uma gaja, mas mitologia batmánica é comigo – não tanto como história inglesa, mas dou uns toques), com o seu ar de bom partido completamente estragado por um bocado de gasolina. Michael Caine é o mordomo inglês que todos gostaríamos de ter, Gary Oldman a jogar contra o que nos tem habituado (Sirius Black! Sirius Black!) no papel do dúbio polícia Jim Gordon, e, claro, a garota de serviço, ? , a fazer inveja a muita namorada de super-herói, pois nem todas têm o prazer de, efectivamente, não serem salvas pelo seu bem querido, ou de darem os pés a esse mesmo bem querido ignorando ele o facto.

Não me esqueci de ninguém, pois não? Continuando…

Sim, estamos numa América negra, não um negro Burton (sempre estilizado e onde o roxo fica sempre bem), mas numa negritude realista, onde não é bem banda desenhada que vemos quando olhamos para os prédios a explodir, mas mais o telejornal da noite. O filme começa, inteligentemente, à luz do dia. Nem só de noite explodem coisas.

Batman como o herói de que Gotham merece. Um anti-herói fora-da-lei que assume os assassinatos feitos pelo ‘herói’ Harvey para que ele possa ficar branco e limpo aos olhos dos cidadãos. Finalmente Bruce parecia poder pendurar as orelhas de morcego e dedicar-se a Rachel – surgira alguém capaz de fazer o trabalho por ele (genial os wannabe Batmans ) – mas não cedo se apercebe que afinal não só Rachel deixara de se a ‘única possibilidade de uma vida normal’ como ninguém conseguia ser negro o suficiente como ele, sem se deixar corromper pelos vagos desejos de vingança.

Música muito ousada para blockbuster – ouvi laivos de minimalismo repetitivista???? -, grande trabalho de fotografia, excelente desenho do BatLab (todos o adoramos, certo?), e queremos ver mais vezes o Batman de mota ou de Lamborghini, porque é bem giro.

Grandes momentos: Joker.

Piores momentos: que raio aconteceu ao Joker, afinal?

Será que consigo ignorar por mais tempo? Não.

Bolas, não, não acho que o filme seja o novo Laranja Mecânica. Sorry. Mas temos um novo Alex, isso sim. Heath Leadger, assustadoramente ausente desta personagem (no melhor sentido possível), que nos enche de calafrios por ser impossível não pensar em coisas extra-película quando o vemos chegar ‘morto’ dentro de uns sacos de plástico ao escritório de um dos patrões da Máfia, e que dá um colorido muito mais que roxo ao filme – sem ele, nem metade do bom o filme teria sido. O assalto inicial dá o tom ao filme, nunca mais esqueceremos o momento do hospital – com Leadger vestido de enfermeira -, ou mesmo os seus requintes de malvadez enquanto persegue o Batman com um camião. David Denby tem uma frase fantástica acerca dele: He’s part freaky clown, part Alice Cooper the morning after, and all actor. E quanto aos momentos nos barcos? Delicioso. Sim, dêem a porcaria do homenzinho dourado ao rapaz! Ele nunca esteve tão bem. E eu sigo-o atentamente desde o 10 Coisas que Odeio em Ti. [1] É claro que agora o meu lugar de psicopata preferido se encontra bastante tremido entre o Joker, Chigurh e, claro, Alex. Argh, escolhas difíceis…

Mal posso esperar para o ver em The Imaginarius of Doctor Parnassus.

(não faço ideia porque raio os 1s estão tão grandes... joker??)


[1] Que, ao contrário do que muitos julgam, não é só um chick flick mas, primeiro que tudo, uma adaptação modernaça de uma peça de Shakespeare, The Taming of the Shrew.

Funny Games US (2008), Michael Haneke

Qualquer pretensioso cinéfilo que se preze conhece (nem que seja só de nome ou polémica) a obra do alemão demente Senhor Haneke, e eu não sou excepção – A Pianista foi de longe um dos filmes mais poderosos que vi, antes de saber mesmo como se ligava uma câmara & quem constituía o Novo Cinema Alemão dos anos 70…

Funny Games (falo do original) era daqueles filmes que estava na minha interminável lista de filmes a ver um dia, um objecto que tinha a impressão de conhecer na totalidade sem nunca ter visto, graças aos magníficos livros sobre guionismo & análise de filmes & cinema pós-moderno que tive de papar durante o curso. Por isso, ao ver escarrapachada da capa da Sight & Sound[1] que havia um remake americano a estrear, ainda mais dirigido pelo próprio Haneke (sim, não é só o Lucas que gosta de refazer os seus filmes), senti uma alegria imensa de poder ver o filme ‘actualizado’ e com um cast de categoria.

Não faço a mínima ideia quais as mudanças (ou se há mesmo mudanças) em relação ao original, por isso abstenho-me de falar disso (tretas que cada filme deve ser analisado per se e o mais possível sem referências externas apoiam-me nisto). Uma coisa é certa: Haneke não é para estômagos fáceis, e temos de estar preparados para aturar filosofia dos media de cada vez que nos concedemos ver um filme do senhor. O casal que teve o prazer de partilhar a sala de cinema comigo não estava a achar grande piada – aliás, acredito que Haneke ia achar genial a reacção do rapaz ao momento em que Pitt faz rewind na acção, destruindo a momentânea felicidade do espectador por ver justiça feita (e uma antevisão de final feliz).

Michael Pitt, digo já, nasceu para fazer papéis de psicopata. Naomi Watts, como vítima indefesa, ou dona de casa, fica um pouco na sombra. Roth está acima das minhas míseras palavras. A fotografia é, como já nos acostumámos nos filmes deste senhor realizador, uma carta muito forte. Palmas para Darius Khondji, que já tínhamos encontrado em algo completamente diferente como My Blueberry Nights, Se7en e Delicatessen. O mais chocante para mim, eu, a inimpressionável, foi a utilização da música. O contraste entre clássica e heavy rock… arrepia-me. Bastante potente foi também o anticlímax, que não conhecia.

É uma história forte, sobre a influência dos media na violência juvenil, mas que ironicamente se assume também como uma glorificação da violência, acrescentando que o espectador é um cúmplice passivo e indefeso, por muito paradoxal que isto possa parecer. Haneke afirmou em entrevista que a principal razão deste remake era levar a mensagem a um público mais alargado (ele sabe como a maior parte dos americanos é alérgico a legendas…), e faz assim um filme anti-Hollywood no seio do próprio.

Shall we end? Não causou tanto impacto como eu queria que causasse (o saber a história antecipadamente, ou talvez achar o tema da Pianista mais perturbante – afinal, já passaram dez anos desde que o original foi feito, entretanto o cinema tem-se tornado… hum… deliciosamente weirdo, nalgumas correntes - e não é claramente um bom filme para quem não sabe ao que vai, mas vale a pena, quanto mais não seja para os intelectualóides se sentirem perturbados e os outros se deliciarem com sangue, tripas, tortura e a Naomi Watts de roupa interior, amarrada, a saltar. Cada um com o seu gore…



[1] Reparem como a autora, aparentemente em tom de gozo quando fala de pretensiosos cinéfilos, deixa casualmente cair uma referência intelectualóide para mostrar a sua imensurável superioridade perante leitores de Empire & Total Film & Premiere & Tv Guia

Los Borgia (2006), Antonio Hernández


Há dias em que, não sabendo o que ir ver ao cinema, escolho a produção europeia e desconhecida. Mais, numa semana em que fomos deliciosamente presenciados pela segunda temporada dos Tudors na 2:, diariamente em dose dupla, pareceu-me boa ideia ir ver um filme espanhol que falasse dos devassos Bórgia.

Mas porque é que ninguém me dá uma estalada quando tenho estas ideias peregrinas?

Pondo de lado o facto que filmes em língua espanhola são normalmente irritantes (excepções honrosas feitas para alguns filmes, por exemplo, O Labirinto do Fauno), e pondo de lado que os Tudor elevaram os padrões da reconstituição histórica a um nível bastante elevado, estamos perante um filme completamente dispensável de ter estreado em sala. Quer dizer, privaram-nos do prazer de ver The Underdog em ecrã grande, e põem lá esta paneleirice?

Exactidão histórica – ao nível de pormenores não faço a mínima, mas parece que seguiram as linhas gerais. Conseguiram a proeza de ter a Lucrécia Bórgia mais irritante de sempre, o que é qualquer coisa. E o irmão – será a personagem principal? – também é bastante espanhol…. Argh. Era suposto ser italiano, não????

Mais - o pior trabalho de iluminação de sempre. Sempre a pôr sombras nos sítios que deviam ser de relevo, e luzes nas zonas que pura e simplesmente não interessam. Narrativa? Tentam pôr o Rossio na Betesga, comprimindo não sei quantos anos de história (muitos) em quase três horas, sem fazer qualquer trabalho de selecção de acontecimentos relevantes. Aliás, põem o mesmo ênfase nos três principais membros da família (Alexandre, Carlos e Lucrécia), mas um ênfase tão superficial que podiam aprender com qualquer novela de horário nobre. Não, não nos apresenta às personagens – elas mexem-se, falam-se, mas para nós tanto nos faz. A construção dramática (um empolar de acontecimentos a caminho de um clímax) é inexistente. Os actores, credo, não me façam começar a falar. Roupas giras? Nem reparei. Os meus bocejos frequentes não me deixaram ver.

Bons momentos: bem, eu tinha saudades de não gostar mesmo nada de um filme…

Música: o mesmo tema, aliás, o mesmo excerto de tema repetido vezes sem conta, mesmo quando era absolutamente necessário, por motivos dramáticos, um tipo de música mais apropriado. Sim, eu de vez em quando faço isso nas curtas, mas, 1º são curtas; 2º, é com intenção cómica.

Mais uma coisa: as referências constantes ao reino de Portugal irritaram-me fortemente, e eu até que sou anti-patriótica. Mas isto vindo de um país que na altura nem país era… Cabrones.


(pelos vistos em DVD tem mais uma hora e tal... hum... mas porque raio insistem em estrear em sala mini-séries condensadas, porquê????)

terça-feira, agosto 05, 2008

Hancock (2008), Peter Berg


A pergunta que se impõe é: porque raio este filme foi publicitado como comédia? Têm noção da quantidade de pessoas que foram ao engano?

Acrescente-se a irritação sentida quando, na primeira parte do filme, se houvesse mais anúncios ao ‘twist surpresa’, até as criancinhas de 4 anos percebiam. ‘Ah, fiquei tão surpreendido…’ Como, gente?

No fundo no fundo, ultimamente sinto que tudo o que vejo são remakes descarados, ou sempre o mesmo filme. Este pareceu-me a versão super-herói do Youth Without Youth. Hum. Ou do Eternamente Jovem. Ou coisa assim.

Sim, Will Smith é um bom actor – despe aqui a sua imagem de menino bonzinho para fazer de herói alcóolico e sem memória, que salva as pessoas estragando tudo em seu redor. Com a ajuda de um promotor que salva de ser passado a ferro por um comboio (atirando o carro para cima de outros – subtileza não é o seu nome do meio), John Hancock vai tentar ser amado (ohhhhhh) pela população ingrata. A meio do filme, surge um twist que fora anunciado por néons fluorescentes e campainhas, mas que no fundo parece metido a martelo para conduzir a coisa a um fim comovente (e batmánico), do que propriamente uma reviravolta wow. Porque a grande dúvida era como raio ia acabar um filme assim, sem vilão, apenas com o objectivo narrativo aparente que Hancock se teria de regenerar e se tornar um herói a sério (roupinha de licra incluída). Mas como isso era simples demais, os argumentistas pensaram – ná. Vamos surpreender as pessoas. Pois sim claro…

Acho que foi muito ousado pegar na premissa e não a transformar numa comédia. Mas até que ponto pegar numa história de superheróis marginais e transformá-la numa história de amor imortal… argh. Se fosse eu a mandar, evitava a parte do romance intemporal e jogava com a noção de amizade inter-species, isto é, entre humano normal e humano (?) com super-poderes. A ideia de perda de memória, deixem que vos diga, também é um bocado tvi demais, não? E se bem que a guerra dos sexos à velocidade da luz pela cidade é muito atraente visualmente, isso não redime a sensação do filme estar a caminhar por um caminho… sei lá.

Esteticamente, voltamos à câmara trémula que é tão moderna (mas aqui revela-se adequada, conjugada com uma fotografia “suja” que dá um outro lado interessante ao habitual glamour heróico) que daqui a uns anos ninguém poderá com ela, tal como hoje ninguém pode com os penteados e música dos filmes de acção dos anos 80. Ok, há dias…

Mais, se vejo mais alguma ressurreição final ponho uma bomba atómica em Hollywood. Não me compreendam mal – quando é o Emmerich que o faz, tem estilo, porque é nessa linha que ele faz filmes. Agora, um filme com pretensões de reinventar o conceito de filme de super-herói… Ná.

Come-se, mas pode-se bem esperar pela versão televisiva embalada. Não há necessidade de ir ao restaurante. (isto de férias torna-me a escrita esquizofrénica, peço desculpa).

Made of Honor (2008), Paul Weiland


Chick flick alert!

Confissão a fazer: até ir confirmar ao imdb o nome do realizador, estava convencida que o título em inglês era ‘maid of honor’. Afinal o trocadilho é ainda mais profundo do que eu julgava. E que tradução teve em português? ‘Padrinho mas Pouco’. Tremo de saber qual o título brasileiro… oh não. Não é tão giro como suspeitava. ‘O melhor amigo da noiva.’ Duh. Até os brasileiros ficam desinspirados na silly season…

E sim, CLARO que fui ver o filme por causa do Patrick Dempsey. Há mais alguma razão para ver tal coisa? E depois de passar meses, semanas, fechada no quarto da residência a ver filmes noirs, a ler sobre noirs e a editar um malfadado noir (que qualquer dia tenho de pôr online), até as novelas da TVI me estavam a parecer apelativas (ladysarac, a rainha das referências pessoais que não interessam a ninguém)…

Pronto, Tom era um engatatão que descobre que a mulher da vida dele é a melhor amiga Hannah, ao sentir a falta dela no mês e meio que esta foi passar à Escócia. Entretanto, ela vem… com um duque escocês agarrado como noivo. Sim, depois de ter visto Run FatBoy Run, com Simon Pegg a fazer de Julia Roberts em Runaway Bride, eis que sou contemplada com Dempsey a fazer de Julia Roberts em O Casamento do Meu Melhor Amigo. Para quando uma nova Julia Roberts masculina em versões pouco dissimuladas de Erin Brokovitch, Notting Hill (aahahahhah adoro este filmeeeeee) e, quiçá, Pretty Woman? (atenção – quero uma parte dos lucros destas ideias, ouviram???)

Mas aqui em vez de Julia Roberts a atazanar a rival, temos o desenvolvimento da química entre Hannah e Tom, já que este, como devem ter adivinhado pelo título, é a Dama de Honor, vulgo Madrinha por terras lusas, de serviço. Sim, o momento de mostra de lingerie era completamente dispensável, mas pronto, que se há-de fazer? Tudo para ver Michelle Monaghan (lado lésbico allert!) em pouca roupa e muito … aham… charme…

Não deixam de ser divertidos os clichés que povoam o filme – a chegada do ‘salvador’ num cavalo branco (o original e o remake, muito mais divertido); todas as coisas acerca da Escócia – mau tempo, ovelhas, gaitas de foles, sotaque, kilts, mini-kilts, whisky, caçadas… tudo. E castelos, bateladas de castelos. Pubs. Costumes esquisitos de casamento. Hum…

Sim, que pode um mulherengo incorrigível contra um duque escocês? Quase nada. Se bem que consegui perceber quase no início como iria ele ganhar a rapariga no fim (o grande motivo, vá lá), mas isso sou eu, que ando há demasiado tempo a ler livros de guionismo…) E não deixa de ser querido como a personagem quer conquistar Hannah por meios lícitos… Oh, os homens são tão honestos…

E sim, o senhor que faz de pai de Tom, não estão a ver mal, não, é o senhor Sidney Pollack, o Realizador. (para testarem os vossos conhecimentos faciais de realizadores, que tal passarem pelo meu outro blog www.saricesartisticas.blogspot.com e jogarem ‘Name the Director’? ladysarac, a rainha da auto-publicidade).

Mas pronto, não é assim uma coisa por aí além. Tem uns one-liners porreiros, de vez em quando, para o género. Mas nada de wow. É razoável/bom dentro do género, mas para quem viu o da Julia Roberts, vai ter déjà-vus constantes. A banda sonora também é demasiado radiofónica para meu gosto (You Give me Something do James Morrison??? PorquÊ????)

Óptimo para uma tarde de domingo, ou para qualquer altura que queiram perceber porque é que as gajas acham piada ao Dempsey (mesmo sem roupa médica), ou as belíssimas pernas dele… ahhahahahahaha…

sexta-feira, agosto 01, 2008

Run Fatboy Run (2007), David Schwimmer

Que a presença de Simon Pegg não vos iluda: isto não é Hot Fuss. A primeira coisa que fica clara após o visionamento do filme é que a Nike é o seu principal patrocinador. A segunda é que David Schwimmer ainda tem muito que aprender como realizador. A terceira é que Pegg é muito mais divertido, apesar de tudo, do que Julia Roberts (e usa melhores sapatilhas).

Dennis Doyle, guarda, fugiu do seu casamento e, ironia das ironias, tem de voltar a correr para ele. Tem um arqui-inimigo, Whit (Hank Azaria, a voz do Moe dos Simpsons, numa de trivia fútil), que lhe tenta roubar a mais que amada, ex-noiva e mãe do seu filho, Libby. Para provar que é um homem de compromissos, e que se esforça para conseguir as coisas que realmente quer, Dennis inscreve-se na Grande Maratona de Londres, onde Whit corre todos os anos. Após um treino que joga com os sempre-eternos clichés do treino (Eye of the tiger…), ajudado pelo seu senhorio Mr. Goshdashtidar e o amigo naturalista Gordon, Dennis lá vai correr, mas uma rasteira feita por Whit lesiona-o. É claro que o nosso herói não se deixa abater e arrasta-se para a meta a uma velocidade sofrível, acompanhado por jornalistas, apoiantes e outros ocasionais. E sim, fica com a rapariga no fim. Ahhhhhh…. Que surpresa…

A história não tem tanto humor britânico como eu gostaria de ver, mas tem os seus momentos. As personagens não são de todo superficiais (Libby por exemplo), mas fazer de Whit um malvado parece-me demasiado fácil. A marca da Nike constantemente a aparecer no ecrã também irrita um bocado.

Mas pronto, aquele grande tema da perseverança a todo o custo, a beleza em podermos recuperar o amor da nossa vida com imenso esforço, a ideia peregrina que todo o desportista tem um lado negro, que não há homens perfeitos e que as mulheres têm de se contentar com o abaixo de forma e falhado que gosta delas, porque os bem-sucedidos são o demo (se bem que eu não me importava de dar umas voltinhas com o Pegg, mas o que quero dizer é que comédias românticas realizadas por homens vão dar sempre a esta parede – oh pra nós tão feios, gostem de nós… credo. Se bem que Schwimmer não vai, felizmente, ao ridículo de Appatow)

E é sempre agradável ver pessoas a correr e a suar enquanto nos empaturramos de pipocas nas cadeiras desconfortáveis da Lusomundo. Porque até temos a sensação de fazermos exercício, bolas. Se bem que sem resultados visíveis…

Sex and The City (2008), Michael Patrick King

Ora bem, que razões pode ter uma miúda que na maior parte dos dias se considera uma pseudo-intelectual, rapariguinha que mais depressa se torna monja budista que sobe ao altar de vestido branco, que não quer ouvir falar sequer em romance e compromisso e anilhas e etc e tal, a ir ver a solteira das solteiras, Carrie Bradshaw, com quem cresceu a ver
à socapa uma das poucas séries que tinha bolinha vermelha nos anos 90, e que lhe impingiu o desejo secreto alas nunca resolvido de ser uma escritora nova-iorquina bem-sucedida, a deixar-se levar para o altar pelo Mr. Big?

Todas!!!!

Sex and the City é o responsável pela existência de gajas com a mania que são independentes (como eu), além de ter aberto o caminho a séries tão interessantes como The L Word . (e reparem naquela mesh up frustrada das duas séries que é Cashmere Mafia). E numa altura em que parece que tudo o que é série está obrigado a ter uma adaptação cinematográfica (Simpsons, X-Files…), porque não esta?

Sim, é um episódio quase quádruplo, um prólogo à série e às manias que vimos desenvolver perante os nossos olhos. Mas poderia ser outra coisa? Michael Patrick King é o típico realizador tarefeiro que se estreia nestas andanças. Sim, lá veremos Carrie casar (não como pensamos que casaria - mas não quero estragar a surpresa…), e temos a delicia de rever Samantha mais gordinha e mais… monogâmica???? Depois a irritante Miranda e a parvinha Charlotte, ambas casadas e com uma vidinha típica… Para quem não seguia a série, a explicação inicial dá um cheirinho da história e personalidades de cada uma.

Depois temos o politicamente correcto com uma actriz negra a fazer de assistente de Carrie (Jennifer Hudson), e os gays de serviço (lésbicas nem vê-las – seria demasiada a insinuação, parece-me). Com uma música inicial que deixa as fãs loucas, passando depois para um hip-hop numa de ‘eh, os anos 90 já passaram, actualizem-se!’ (um bocado detestável, mas pronto), e piadinhas escatológicas, appleísticas e até púbicas – a série também era assim, eu lembro-me bem do episódio em que Carrie deixa escapar um pum à frente de Mr. Big… - lá vamos vendo 148 minutos de filme. Sim, houve quem achasse que até ao intervalo já era demasiado filme, mas não, nunca poderia acabar assim. Com uma viagem ao México, a descoberta do amor verdadeiro, bebés, roupa e sapatos, lá caminhamos em cima de high heels até ao final previsível, que, pronto, era-o demasiado.

Sim, a moda mudou muito nos últimos anos – genial o momento do desfile do ‘pior dos anos 80’. Referência a Cinderela – pirosa. Samantha como monogâmica? Demasiado forçado. Ter mulheres quarentonas e cinquentonas a protagonizar filmes, com banhas e estrias à mostra ? Hurrayyy!!_ Pior tagline de sempre (‘Get Carried Away’)? – bastante provável. Trocadilhos com o nome do Mr. Big? Nunca suficientes.

Em suma, um filme de gajas – e para gajos que gostem de moda -, um presentinho para os fãs da série, um mega-final (?) para a trapalhada toda, a vontade renovada de ir para Nova Iorque com 4 amigas e fazer uma vida esplendorosa… ahahahahah….

quinta-feira, julho 31, 2008

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (2008), Steven Spielbergl

Este é daqueles filmes que uma pessoa pensa, “bolas, tenho de ir ver isto ao cinema. Tenho a impressão remota que era grande fã quando era miúda, por isso não posso perder esta oportunidade única de ver o Harrison Ford e o seu chicote e chapéu e etc etc etc. Além disso é um filme do Spielberg sem Holocausto, pró-semitismo ou extraterrestres.”

Quer dizer, o que pode correr mal, numa fórmula tão garantida? Todos gostamos de arqueólogos, têm o seu quê de perigoso e ousadia (os dos filmes, porque os da vida real não são bem assim – não, nada de Henry Jones ou Lara Croft nesta aborrecida dimensão…) Quantos foram estudar História por causa destes filmes? (quase tantos como os que foram para advocacia por causa da Ally McBeal ou para cinema por causa do Dawson’s Creek ou para enfermagem por causa do ER.)

Desta vez a acção passa-se nos anos 50, em plena guerra fria. E em vez de nazis temos os sempre divertidos russos, que na persona fascinante de Irina Spalko(Cate Blanchett) querem o conhecimento total. Ahhhhh… Acrescente-se o regresso da kiducha Marion Ravenwood, e do seu filho billyboy Mutt Williams, e temos uma boa premissa…

Mais uma vez, tudo joga no ‘Dr. Jones is older’. A reconstituição de época está bastante bem feita (estereótipos à parte – ah ah ah, rockabillies vs. Desportistas), Cate Blanchett é a coisa mais deliciosa que nos aparece no ecrã – o sotaque é tão bom, que desconfiamos se ela não será MESMO uma espia russa… Harrison Ford está muito bem (pudera, é o único papel que sabe fazer, e ninguém o faz como ele… :D brincadeirinha). É claro que se ele tivesse recusado participar na quarta parte da trilogia (oh, Douglas Adams, meu amori), Blanchett teria decerto feito um óptimo trabalho e sido nomeada para melhor actor 2008 (perdendo para o Ledger, claro). Shia Labeouf (raio de nome)… lá está, John Hurt é John ‘Elephant’ Hurt e por isso inatacável e Sean Connery faz a sua melhor interpretação de sempre como fotografia em moldura. Estive sempre à espera que entrasse um cameo de um Rolling Stone a qualquer momento, mas não, felizmente.

Deixando de ser mazinha, as expectativas eram médio-altas e o filme não desilude (se resolvermos esquecer a sequência formigas gigantes e macacos com armas… Lucas aproveitou a folga de Spielberg, claramente, para brincar com os computadores do CGI). Temos umas referências subtis aos filmes anteriores da série, e também algumas private jokes dos dois realizadores (que já cresciam).

Música John Williams – trabalho interessante no ta, tadatá…. Ta, tadá!... ta, tadatááááá´… ta tada ta tá… Adoro quando vemos pela primeira vez a sombra de Indy a agarrar no seu chapéu, em sombra… e, claro, o grande momentos das Cobras, esses bichos nojentos que fazem o senhor arqueólogo arrepiar-se de medo (inda mais depois da revelação que acabara de ter…)

O fim fim é novelesco (no sentido tviístico da palavra), o clímax – argh – um bocado fora e surreal demais, não? Os elementos sobrenaturais dos outros filmes não me chocaram tanto (ou então era por ser miúda), mas estes… hum… não sei não. Demasiado ahahahahahhahahahahaha.

Volta, ET, estás perdoado.

quarta-feira, julho 30, 2008

Goodnight Irene (2008), Paulo Marinou-Blanco

Devia haver uma lei que obrigasse todos os realizadores portugueses a irem passar uns meses a uma escola de cinema americana, para aprenderem o que é a linguagem cinematográfica. Não quer dizer que se tornassem comercialóides, ou a seguissem, mas como os meus profs se fartaram de encher a cabeça, ‘é preciso saber como fazer para podermos fazer ao contrário’.

Porque o ponto forte deste filme é mesmo o domínio da linguagem, e a belíssima fotografia, e, é claro, um elenco de fazer chorar as pedras da calçada de tão bom que é. Primeiro que tudo, o inglês mal disposto de Robert Pugh (lembram-se dele decerto de Master and Comander) – rabugento, deliciosamente mal-educado, ahhhhh, e com sotaque britânico. Depois, Rita Loureiro como a pintora inconstante Irene, que desaparece a meio do filme. E Nuno Lopes, o serralheiro de estranhos hábitos mas que, apesar de tudo, sabe falar inglês – viva a globalização!

E pronto, uma história de ‘vamos morrer de bem com a vida’, ainda não perfeitamente desenvolvida (é o primeiro filme do rapazinho, temos de dar um simpático desconto[1]), que acaba num anti-climax que seria genial se não nos fizesse chorar por mais. Sim, depois do desaparecimento de Irene e até que eles se resolvam a pôr-se à estrada em busca dela (mas principalmente deles), há um tempo morto que, hum, devia ser mais curto. Sim, a parte mais divertida é sem dúvida os momentos ‘D.Quixote’ nas estradas desertas de Espanha.

As sequências oníricas estão muito bem feitas, com destaque para os momentos em que Alex (a personagem de Pugh) se farta de narrar sobre ilhas paradisíacas e vai fumar para o meio do vídeo, enquanto o casal apaixonado olha para ele. E o plano inicial (que só mais tarde saberemos ser o ponto de vista subjectivo de Bruno (Nuno Lopes), é.. tão… estrangeiro… (sendo este adjectivo um elogio).

Com música de Carlos Bica e Jaroslaw Bester, uma cinematogafia belíssima de Lisboa por Miguel Sales Lopes – afinal Lisboa não é azul, é laranja – e um ritmo que, mesmo nos tempos mortos já referidos, nunca nos deixa aborrecer – Goodnight Irene parece-me uma confirmação do renascimento da ‘terceira via’ do cinema português. Vá lá, ICA, não sejas mauzinho, dá-lhe outro subsídio.



[1] Quer dizer, ele tinha já feito uma coisa chamada The Curse of Marcel Duchamp, mas é uma curta. Nela Duchamp regressa dos mortos para punir pintores pretensiosos de Nova Iorque… uhhhhh….

Shine a Light (2008), Martin Scorsese

Após ganhar o óscar ao fim de não sei quantos anos a babar-se para cima do Robert De Niro, Marty resolveu dar uma de Godard e filmar os dinossauros aka Brigada do Reumático praticamente desconhecidos Rolling Stones. Hum. Filmes concerto, que não são em 3-D, nesta altura do campeonato, são sempre bem-vindos, mas será que acrescentam alguma coisa à curta história dos filmes-concerto???

O trailer é apelativo: ouvir Scorsese transformado em neurótico allenesco com os problemas que acarretam filmar um concerto de tal envergadura é qualquer coisa. O problema é que, os momentos de bastidores que aparecem no trailer, são os momentos de bastidores que aparecem no filme. Sim, assim tão pouco! Além das músicas propriamente ditas, também temos algumas entrevistas, sobretudo material de arquivo, que joga com a noção que eles nunca pensaram estarem a tocar com aquela idade, etcet etc. Sim, já percebemos que eles estão velhos. Sim, já percebemos que o Mick Jagger mexe-se que nem uma miúda de 15 anos. Sim, já percebemos que o Keith Richards é passado da cabeça. E???

Eu nunca perdoarei o Scorsese por não aparecer na versão final do filme (mas aparece na ost) a minha preferida dos Stones, Paint it Black. E pronto, vemos os Stones a abanarem-se em palco, a cantarem com garra (momento estranho no início quando Clinton aparece a apresentar o concerto…), com luzes que fazem as pessoas arder (sem o extra point de acontecer efectivamente algum desastre), e pronto, uns planos marados de grua, coiso e tal…

É muito raro um filme de concerto ser melhor que um concerto, e este não é. Além disso, parece que o senhor Scorsese está mais a fazer um hino à velhice e resistência dos Stones do que propriamente à sua música (que continua boa). É porreiro ouvir, convidados e tal, mas… ná… não me convence. Este é claramente um filme menor, ou de encomenda, ou um check na to-do-list. Nada mais do que isso.

Ok, é engraçado ver o baterista a suspirar e a limpar o suor da testa com as mangas, ou Richards a sair do palco numa evocação Raging Bull (o último plano, subjectivo, é muito bom), e a ignorância dos Stones nos anos 60. Mas, além disso, está lá mais alguma coisa? Não me pareceu. É bom, mas porque os Stones são bons – o filme nada faz para piorar ou melhorar a coisa.

Miss Pettigrew Lives For a Day (2008), Bharat Nalluri

Ora muito bem - que raio está a Frances McDormand (vulgo senhora Fargo) a fazer num filme ao lado da cantadeira e cartoonesca Amy Adams???

Respondo-vos eu: a fazer mais um feel good movie que vai decerto passar na nossa televisão naquela bela época que normalmente chamamos de Natáli. Mas não entendam isto como depreciativo: fossem todos os filmes que somos obrigados a suportar enquanto comemos bolo-rei e bebemos champanhe assim, seríamos decerto pessoas mais felizes (damn you Barbie e o Lago dos Cisnes!)

Primeiro, é uma comédia de época. Isto significa roupa, roupa de época. E sapatos, e bolsas, e lingerie… ahhhhh. Depois, tem a McDormand, que não é só boa actriz quando trabalha para o marido. Está aqui deliciosa como mulher desempregada que, em busca de dinheiro, faz-se passar por uma assistente pessoal da mimada Delysia (uhhhhhhh), interpretada por uma surpreendente Amy Adams. Ora, Delysia precisa de ajuda para lidar não só com a parca arrumação da casa, mas também com os seus três namorados: o dono da casa onde vive, o filho do produtor musical que lhe poderá dar um papel num musical (assim concretizando o seu velho sonho de ser actriz) e o pobre pianista com quem cantava num clube nocturno. Portanto, Guinevere (o nome da personagem de McDormand) tem de a ajudar a nem mais nem menos do que encontrar o amor verdadeiro. Ohhhhh. Isto num só dia, enquanto aviões alemães sobrevoam Londres, e encontrando também – surpresa das surpresas – o amor verdadeiro para si própria. Ohhhhhhh.

Os diálogos são inteligentes, a fotografia deliciosa, a reconstrução histórica bastante cuidada (nota máxima para o director de guarda-roupa), música não me lembro bem (o que significa que não era assim tão má ou assim tão boa…, feita por Paul Englishby, responsável entre outras pela bso das curtas Ten Minutes Older: The Trumpet), actores estupendos na recriação de um tipo de comédia que parecia perdido nos confins do studio-system (aka screwball comedy).

Grandes momentos: principalmente a questão da máscara social, e da grande revelação final sobre Delysia – e a sua decisão arrancada a ferros, diga-se. O ‘caso’ de Guinevere é um pouco previsível, mas pronto, é uma feel-good comedy, não é um filme do Haneke.

Sim, é um filme de outros tempos, mas de vez em quando sabe tão bem…

Reservation Road (2007), Terry George

(como tenho as críticas aqui atrasadíssimas, resolvi apenas passar a crítica que mandei para a Cabra.... sorry)


E se um desconhecido lhe atropelasse o filho?

Ethan Learner (Joaquin Phoenix) é um professor universitário feliz, até ao dia em que, ao regressar do concerto do filho com a família, uma tragédia acontece em Reservation Road. Dwight Arno (Mark Ruffalo) é um advogado que tenta a todo o custo ser um bom pai para o seu único filho, que vive com a mãe. Um peso na consciência sobre uma certa noite em Reservation Road fá-lo viver angustiado, dividido entre a confissão do seu crime e o manter contacto com o seu filho.

Podia ser um novo 21 Gramas, mas Terry George (que já nos dera Hotel Ruanda) não consegue levar o espectador a questionar-se profundamente sobre os dilemas éticos que caem sobre as duas personagens principais (Será justo que o castigo por matar alguém seja a morte? Pode-se julgar as pessoas pelos seus actos? Deve-se chorar os mortos ou reaprender a viver com os vivos?), limitando-se a fazer-nos seguir atenta e tensamente a trama à superfície (que não é de modo nenhum superficial), esperando o momento de redenção final de ambos, que deixará, apesar de tudo, um gosto amargo na boca.

Joaquin Phoenix, quase irreconhecível na figura de barbudo patriarca, encarna um colosso de angústia, frustração e tristeza que nos leva à imediata simpatia pela personagem, deixando na sombra a sua mulher Grace, interpretada por Jennifer Connelly. Já Mark Ruffalo – o ponto forte do filme - impressiona pela capacidade de emprestar profundidade à personagem, a mais complexa da história, e a que mais facilmente soaria pouco credível se o actor não estivesse à altura.

De resto, é um filme que, entre ser um drama social e um drama doméstico, escolhe sem muita certeza a segunda opção, abandonando de todo a possibilidade de ser ambos e caindo em clichés que servem apenas para tentar manipular as emoções dos espectadores, numa abordagem “Casos da Vida Real” que não resulta de todo…