quarta-feira, julho 30, 2008

Goodnight Irene (2008), Paulo Marinou-Blanco

Devia haver uma lei que obrigasse todos os realizadores portugueses a irem passar uns meses a uma escola de cinema americana, para aprenderem o que é a linguagem cinematográfica. Não quer dizer que se tornassem comercialóides, ou a seguissem, mas como os meus profs se fartaram de encher a cabeça, ‘é preciso saber como fazer para podermos fazer ao contrário’.

Porque o ponto forte deste filme é mesmo o domínio da linguagem, e a belíssima fotografia, e, é claro, um elenco de fazer chorar as pedras da calçada de tão bom que é. Primeiro que tudo, o inglês mal disposto de Robert Pugh (lembram-se dele decerto de Master and Comander) – rabugento, deliciosamente mal-educado, ahhhhh, e com sotaque britânico. Depois, Rita Loureiro como a pintora inconstante Irene, que desaparece a meio do filme. E Nuno Lopes, o serralheiro de estranhos hábitos mas que, apesar de tudo, sabe falar inglês – viva a globalização!

E pronto, uma história de ‘vamos morrer de bem com a vida’, ainda não perfeitamente desenvolvida (é o primeiro filme do rapazinho, temos de dar um simpático desconto[1]), que acaba num anti-climax que seria genial se não nos fizesse chorar por mais. Sim, depois do desaparecimento de Irene e até que eles se resolvam a pôr-se à estrada em busca dela (mas principalmente deles), há um tempo morto que, hum, devia ser mais curto. Sim, a parte mais divertida é sem dúvida os momentos ‘D.Quixote’ nas estradas desertas de Espanha.

As sequências oníricas estão muito bem feitas, com destaque para os momentos em que Alex (a personagem de Pugh) se farta de narrar sobre ilhas paradisíacas e vai fumar para o meio do vídeo, enquanto o casal apaixonado olha para ele. E o plano inicial (que só mais tarde saberemos ser o ponto de vista subjectivo de Bruno (Nuno Lopes), é.. tão… estrangeiro… (sendo este adjectivo um elogio).

Com música de Carlos Bica e Jaroslaw Bester, uma cinematogafia belíssima de Lisboa por Miguel Sales Lopes – afinal Lisboa não é azul, é laranja – e um ritmo que, mesmo nos tempos mortos já referidos, nunca nos deixa aborrecer – Goodnight Irene parece-me uma confirmação do renascimento da ‘terceira via’ do cinema português. Vá lá, ICA, não sejas mauzinho, dá-lhe outro subsídio.



[1] Quer dizer, ele tinha já feito uma coisa chamada The Curse of Marcel Duchamp, mas é uma curta. Nela Duchamp regressa dos mortos para punir pintores pretensiosos de Nova Iorque… uhhhhh….

Shine a Light (2008), Martin Scorsese

Após ganhar o óscar ao fim de não sei quantos anos a babar-se para cima do Robert De Niro, Marty resolveu dar uma de Godard e filmar os dinossauros aka Brigada do Reumático praticamente desconhecidos Rolling Stones. Hum. Filmes concerto, que não são em 3-D, nesta altura do campeonato, são sempre bem-vindos, mas será que acrescentam alguma coisa à curta história dos filmes-concerto???

O trailer é apelativo: ouvir Scorsese transformado em neurótico allenesco com os problemas que acarretam filmar um concerto de tal envergadura é qualquer coisa. O problema é que, os momentos de bastidores que aparecem no trailer, são os momentos de bastidores que aparecem no filme. Sim, assim tão pouco! Além das músicas propriamente ditas, também temos algumas entrevistas, sobretudo material de arquivo, que joga com a noção que eles nunca pensaram estarem a tocar com aquela idade, etcet etc. Sim, já percebemos que eles estão velhos. Sim, já percebemos que o Mick Jagger mexe-se que nem uma miúda de 15 anos. Sim, já percebemos que o Keith Richards é passado da cabeça. E???

Eu nunca perdoarei o Scorsese por não aparecer na versão final do filme (mas aparece na ost) a minha preferida dos Stones, Paint it Black. E pronto, vemos os Stones a abanarem-se em palco, a cantarem com garra (momento estranho no início quando Clinton aparece a apresentar o concerto…), com luzes que fazem as pessoas arder (sem o extra point de acontecer efectivamente algum desastre), e pronto, uns planos marados de grua, coiso e tal…

É muito raro um filme de concerto ser melhor que um concerto, e este não é. Além disso, parece que o senhor Scorsese está mais a fazer um hino à velhice e resistência dos Stones do que propriamente à sua música (que continua boa). É porreiro ouvir, convidados e tal, mas… ná… não me convence. Este é claramente um filme menor, ou de encomenda, ou um check na to-do-list. Nada mais do que isso.

Ok, é engraçado ver o baterista a suspirar e a limpar o suor da testa com as mangas, ou Richards a sair do palco numa evocação Raging Bull (o último plano, subjectivo, é muito bom), e a ignorância dos Stones nos anos 60. Mas, além disso, está lá mais alguma coisa? Não me pareceu. É bom, mas porque os Stones são bons – o filme nada faz para piorar ou melhorar a coisa.

Miss Pettigrew Lives For a Day (2008), Bharat Nalluri

Ora muito bem - que raio está a Frances McDormand (vulgo senhora Fargo) a fazer num filme ao lado da cantadeira e cartoonesca Amy Adams???

Respondo-vos eu: a fazer mais um feel good movie que vai decerto passar na nossa televisão naquela bela época que normalmente chamamos de Natáli. Mas não entendam isto como depreciativo: fossem todos os filmes que somos obrigados a suportar enquanto comemos bolo-rei e bebemos champanhe assim, seríamos decerto pessoas mais felizes (damn you Barbie e o Lago dos Cisnes!)

Primeiro, é uma comédia de época. Isto significa roupa, roupa de época. E sapatos, e bolsas, e lingerie… ahhhhh. Depois, tem a McDormand, que não é só boa actriz quando trabalha para o marido. Está aqui deliciosa como mulher desempregada que, em busca de dinheiro, faz-se passar por uma assistente pessoal da mimada Delysia (uhhhhhhh), interpretada por uma surpreendente Amy Adams. Ora, Delysia precisa de ajuda para lidar não só com a parca arrumação da casa, mas também com os seus três namorados: o dono da casa onde vive, o filho do produtor musical que lhe poderá dar um papel num musical (assim concretizando o seu velho sonho de ser actriz) e o pobre pianista com quem cantava num clube nocturno. Portanto, Guinevere (o nome da personagem de McDormand) tem de a ajudar a nem mais nem menos do que encontrar o amor verdadeiro. Ohhhhh. Isto num só dia, enquanto aviões alemães sobrevoam Londres, e encontrando também – surpresa das surpresas – o amor verdadeiro para si própria. Ohhhhhhh.

Os diálogos são inteligentes, a fotografia deliciosa, a reconstrução histórica bastante cuidada (nota máxima para o director de guarda-roupa), música não me lembro bem (o que significa que não era assim tão má ou assim tão boa…, feita por Paul Englishby, responsável entre outras pela bso das curtas Ten Minutes Older: The Trumpet), actores estupendos na recriação de um tipo de comédia que parecia perdido nos confins do studio-system (aka screwball comedy).

Grandes momentos: principalmente a questão da máscara social, e da grande revelação final sobre Delysia – e a sua decisão arrancada a ferros, diga-se. O ‘caso’ de Guinevere é um pouco previsível, mas pronto, é uma feel-good comedy, não é um filme do Haneke.

Sim, é um filme de outros tempos, mas de vez em quando sabe tão bem…

Reservation Road (2007), Terry George

(como tenho as críticas aqui atrasadíssimas, resolvi apenas passar a crítica que mandei para a Cabra.... sorry)


E se um desconhecido lhe atropelasse o filho?

Ethan Learner (Joaquin Phoenix) é um professor universitário feliz, até ao dia em que, ao regressar do concerto do filho com a família, uma tragédia acontece em Reservation Road. Dwight Arno (Mark Ruffalo) é um advogado que tenta a todo o custo ser um bom pai para o seu único filho, que vive com a mãe. Um peso na consciência sobre uma certa noite em Reservation Road fá-lo viver angustiado, dividido entre a confissão do seu crime e o manter contacto com o seu filho.

Podia ser um novo 21 Gramas, mas Terry George (que já nos dera Hotel Ruanda) não consegue levar o espectador a questionar-se profundamente sobre os dilemas éticos que caem sobre as duas personagens principais (Será justo que o castigo por matar alguém seja a morte? Pode-se julgar as pessoas pelos seus actos? Deve-se chorar os mortos ou reaprender a viver com os vivos?), limitando-se a fazer-nos seguir atenta e tensamente a trama à superfície (que não é de modo nenhum superficial), esperando o momento de redenção final de ambos, que deixará, apesar de tudo, um gosto amargo na boca.

Joaquin Phoenix, quase irreconhecível na figura de barbudo patriarca, encarna um colosso de angústia, frustração e tristeza que nos leva à imediata simpatia pela personagem, deixando na sombra a sua mulher Grace, interpretada por Jennifer Connelly. Já Mark Ruffalo – o ponto forte do filme - impressiona pela capacidade de emprestar profundidade à personagem, a mais complexa da história, e a que mais facilmente soaria pouco credível se o actor não estivesse à altura.

De resto, é um filme que, entre ser um drama social e um drama doméstico, escolhe sem muita certeza a segunda opção, abandonando de todo a possibilidade de ser ambos e caindo em clichés que servem apenas para tentar manipular as emoções dos espectadores, numa abordagem “Casos da Vida Real” que não resulta de todo…

domingo, julho 20, 2008

Youth Without Youth (2007), Francis Ford Coppola

Ao ver pela primeira vez (Alas! Alas! )um filme tão abalroado pela crítica, que o apelidou de incompreensível, gratuito e até – crueldade das crueldades – enferrujado, começo a pensar que tenho um problema qualquer com filmes destes. Será que sou só eu que acho o filme excelente?

Penso na fraca recepção de Apocalipse Now quando estreou, e como envelheceu graciosamente na estima dos críticos. E agrada-me pensar que Uma Segunda Juventude (estas traduções perdem a subtileza do original, mas podia ser pior…) também é isso, um filme maior fora do seu tempo, demasiado à frente para ser compreendido, demasiado complexo, demasiado simbolista e efabulatório. Mas pronto, pode não ser. Como enorme fã de devaneios cinematográficos a la Lynch e Greenaway, a minha opinião pode ser posta em causa.

Dominic Matei, interpretado por um subvalorizado Tim Roth[1], é o protagonista improvável de uma narrativa não linear – porque o tempo não existe -, um professor de Linguística em busca do conhecimento total e que, por um acaso, consegue tudo o que deseja – o conhecimento, o amor, a juventude – para depois se aperceber que terá de abdicar de tudo e enfrentar a morte, como um menino bem comportado.

O tiquetaque do relógio, a evocação constante da vanitas renascentista iniciam o filme, que por momentos parece ser um mísero remake mais realista (mas ainda com o seu quê de fantástico) de The Fountain de Aronovsky. O duplo, as rosas, Veronique que é Laura (como a de Dante) e Rupini relevam a profundidade do filme num brilhante retratamento da história de Dorian Gray.[2] E mesmo o final, que à superfície parece demasiado simplista, demasiado fácil, revela um twist que acrescenta ainda mais uma camada de complexidade a um objecto demasiado rico e que demorará anos, décadas, a ser digerido mesmo na sua parcialidade. [3]

As grandes questões da Humanidade – o mistério da natureza, a metempsicose, a juventude eterna, o conhecimento ilimitado (Gray meets Fausto) – com todos os dilemas morais que tais items levantam são também postos em confronto com o impulso irresistível do ser humano em direcção à sua própria destruição: “Só importa o conhecimento e a perfeição do ser humano”.

Em termos estéticos (ou técnicos, ou formais, ou aquelas coisas que não interessam a ninguém salvo aos idiotas como a autora que querem fazer filmes), há um reaproveitamento do vocabulário de Apocalipse Now (ambos os filmes falam da guerra, mas o que é o tema num, é a nota de rodapé noutro), com belíssimos planos nocturnos, ângulos pouco habituais e a exploração iconológica do mundo dos sonhos e pesadelos. Muito bom a ideia de usar os planos ao contrário para indicar a passagem do onirismo ao (?) realismo. A notar também o estilo vintage usado com os planos clássicos e estáticos (numa altura em que as steadies proliferam que nem pulgas no meu cão, nota-se, permita-se o termo, bué.) e a evocação desse mesmo classicismo nos créditos iniciais.

Há também a sugestão de que a morte é o início e não o fim – vejam com atenção a cena do passaporte.

E quando alguém alcançou a juventude, o conhecimento absoluto do passado e do futuro, o amor há muito perdido, que resta fazer? Pelo menos o café do costume está sempre aberto para irmos ter com os nossos amigos…

Não há muitas coisas límpidas neste filme – algumas sabem a línguas remotas e misteriosas, que mesmo sem sabermos o que significam ressoam na nossa mente primitiva, como é o caso das três rosas.[4] E agora uma frase fatela: mais que um filme, um compêndio da Humanidade. Ahhhhhhh…. Quem gostou de Inland Empire quase de certeza que vai adorar este.

Era uma vez um rei que sonhava que era uma borboleta que sonhava que era um rei que sonhava que era uma borboleta que sonhava que era um rei…



[1] Se gostam de ver o Tim Roth a fazer papéis esquisitos, recomendo fortemente um dos meus filmes preferidos, onde ele contracena com nada menos que Gary Oldman: Rosencrantz and Guildenstern are Dead, de Tom Stoppard.

[2] Um chupa para quem conseguiu atingir a genialidade das palavras e duplos sentidos utilizados.

[3] Note-se que eu não estou a elogiar o filme por ser incompreensível. Acho-o bom pelos sentidos que lhe adivinho e que me são sugeridos por ele, mesmo no seu bem estruturado caos significativo.

[4] Comparado com isto, o final do Planeta dos Macacos do Burton é facílimo de se explicar.

My Blueberry Nights (2007), Wai Kar Wong

O senhor de Disponível para Amar volta com aquilo que foi em Cannes apelidado de ‘desastre’.

Mas quem quer saber da opinião dos franceses para alguma coisa?

A premissa com o cast mete um bocado de medo: Norah Jones e Jude Law, Rachel Weisz, Natalie Portman (ok, nem todos são imediatamente associados a ‘elementos de desaste’…), numa história – pensamos nós – de amor e de procura, com muita tarte de mirtilo à mistura.

A banda sonora (que aproveita algum repertório da protagonista) envolve-nos como um tépido banho quente, em nuvens vaporosas de odor a pãezinhos quentes e pastéis acabados de fazer…

Não, Norah Jones não é a melhor actriz do mundo, mas safa-se muito bem. A sua cara – aliás, a maneira como o senhor Wong filma a cara dela – dão-lhe um ar exótico, oriental, mirtilado. Jude Law é Jude Law, com uma ligeira evocação da personagem Alfie (se bem que tão diferentes…) Rachel Weisz como vadia incompreendida é a minha personagem preferida, de longe. E Natalie Portman – não é Ana Bolena aqui, não senhora. Bom sotaque. Quase irreconhecível, diria eu, que tenho má memória para caras. E claro, o senhor (?) é genial.

A narrativa nem que é assim tão previsível como seria de esperar. Ok, um final fechado, mas reparem na arte de acabar o filme antes de começar a estragar a coisa!

Porque o verdadeiro protagonista do filme é, como sempre, Wong Kar-Wai. As suas cores saturadas e mornas, o seu fascínio pelas luzes da urbanidade, os planos voyeuristas de fora da montra (no início, enquanto não somos formalmente convidados a entrar na história), o jogo formal com a câmara da loja (que mostra uma das lutas mais interessantes dos últimos tempos, no cinema – quer dizer, mostrar não é a palavra certa – o que pode levar a reflexões interessantíssimas sobre a contemporaneidade e as câmaras de vigilância, etc, etc, etc), os campos-contracampos com enquadramentos pouco usuais o uso profuso do freeze, slow motion, fast-foward e filtros, sem parecer um formalista oco…

Não posso pôr as minhas mãos no fogo sobre a qualidade dos outros filmes do senhor – só vi um. Mas todos insistem que esta é uma obra menor. Se é, tenho mesmo de ver mais filmes dele.

Bem… sabem, acho que o problema não é do filme em si. (muito americano para o gosto dos fãs, tenho por aí ouvido dizer). É como as tartes, parece-me. O cheesecake acaba sempre. O bolo de chocolate está quase no fim. E ninguém pede tarte de mirtilo. Não quer dizer que ela não preste, ou que as outras sejam melhores. As pessoas é que fazem outras escolhas…

P.S. I Love You (2007), Richard LaGravenese

Como ia passear-me à Irlanda, pareceu-me boa ideia ir ver uma adaptação de uma história originalmente passada lá (que no filme é relocalizada nos States, mas com uma viagem à ilha Esmeralda para compensar). Também me pareceu uma excelente ideia ver o Gerald Butler com sotaque irlandês (ele que é originalmente escocês), com pouca roupa e a cantar música irlandesa. Nada como um bom filme inconsequente para nos esquecermos das amarguras da vida. Ou para nos esquecermos da quantidade de trabalho que temos de fazer para a Universidade, que é quase a mesma coisa.

Além disso, tem o Gerald Butler. Leóoooooooonidas. Já tínhamos mencionado isso?

A premissa é a seguinte: após a morte do marido, Gerry, Holly descobre que ele lhe deixara dez cartas para a ajudar a voltar de novo à vida. A parte mais interessante é claramente a viagem à Irlanda, onde Holly se lembra de como o conhecera e de quão bela é a Irrrrlanda. Ahhhhhhh….

Sim, é um chick flick. Mais, a adaptação (mais ou menos livre) de um romance de Cecelia Ahern .Mas é dos bons, valha-nos isso. Primeiro, não é assim tão previsível. Não, Holly não fica com o amigo que a amava desde sempre. Nem sabemos sequer se fica com o irlandês bem parecido que era amigo do marido. Ná. Isto é mais uma historia de – ya, o amor é lindo, mas temos de aprender a viver por nós. Holly passa da mulher sem objectivos de Gerry (eles casaram-se muito novos) para uma designer de sapatos bem sucedida.

Hillary Swank fica muito bem a não fazer de boxer, realmente. É claro que o que realmente interessa é Butler de tronco nu, mas ela vai dando um ar da sua graça (no qual só reparamos quando o tronco nu de Butler não está no ecrã, sorry).

Gosto bastante de várias coisas neste filme. Primeiro, o Gerald Butler. Depois, o sotaque irlandês do Gerald Butler. A seguir, a verdura e planura da Irlanda que confirmei com os meus próprios olhos na semana seguinte. Também a Lisa Kuprow (Phoebe dos Friends) a fazer de devoradora de homens. A cena do funeral. O William (auf auf auf). E toda a música irlandesa que se passeou durante o filme, especialmente The Galway Girl. Yehhh. Grande destaque para o momento do karaoke, em que Holly tenta ser sexy e tropeça nos fios indo parar ao hospital. Muito, muito giro.

Menos bom? O Gerald Butler ter morrido logo no início e assim não termos tido a oportunidade de o ver ainda mais vezes em tronco nu, se bem que os flashbacks sejam bastante sumarentos…

Bem, por esta altura já perceberam a minha major reason para ir ver o filme… Yeahhhhh….

Mas pronto. LaGravenese, que é ainda um realizador verdinho, fez um trabalho um bocadinho mais do que simplesmente competente, mas que não chega para converter espectadores menos dispostos a ver chick flicks apenas razoáveis…

Sim, é um filme de domingo à tarde na televisão. Mas e depois? Também não tem o direito de viver??

quinta-feira, julho 17, 2008

Die Fälscher (2007), Stefan Ruzowitzky


Os óscares de Melhor Filme Estrangeiro são possivelmente os únicos com alguma isenção, já que os produtores não têm dinheiro para engraxar os membros da Academia. Outra coisa boa desta categoria é que o filme que ganhar tem fortes possibilidades de passar na Lusomundo, ao contrário do muito bom cinema que nos passa ao lado por causa dos estúpidos dos exibidores.

Temos aqui mais uma historiazinha da Segunda Guerra Mundial, etc etc etc. Mas com o seu quê de originalidade, graças aos deuses. Porque o protagonista não é um patrão alemão que tem pena dos judeus, nem um pianista judeu a fugir dos alemães, nem a própria encarnação do demo aka Adolfo Hitler.

Nada disso. Os Falsificadores (tradução portuguesa) conta-nos a história de uma das maiores – adivinhem – falsificações da história. Os nazis decidiram conquistar o mundo inundando os países inimigos de dinheiro falso, fazendo as economias colapsar.

O nosso protagonista anti-heróico é um judeu biblicamente chamado Salomon, mas todos lhe chamam Sally – o que é um bocado abichanado, mas pronto. Ele goza de altos talentos no submundo do póker e casas de jogo em geral, fazendo uns biscates como falsificador de documentos. Entretanto, para a história poder desenvolver, ele é apanhado e levado para um campo de concentração. Ao exibir as suas fantásticas qualidades, os alemães depressa o transferem para uma coisa bastante parecida com um resort de férias no meio de um campo de concentração – com mesa de ping pong e tudo. Entretanto, um tipo chamado Adolf Burger tem lampejos revolucionários e faz tudo o que pode para sabotar a operação de dentro. Sally tem alguns problemas de consciência – prolongar a sua vida e a dos seus companheiros ou não colaborar com o inimigo – mas…

Primeiro que tudo, o aspecto técnico como sempre. O senhor Ruzowitsky utiliza a ‘velha’ técnica de steady cam, o que não é usual neste género de filmes (e temáticas). Quer dizer, este género de filmes tem sempre um estilo clássico. Mas não. Quer dizer, não é o Bourne Ultimatum, mas percebem o que quero dizer…

Depois, os actores. A fazer da minha homónima Sally temos Karl Marcovicz. A cara dele não vos é estranha? Pois. Pensem naquela série fantástica cujo título original era Komissar Rex. Exactamente…

Ele faz um papelão. Toda a ambiguidade da personagem – nem no fim percebemos se ele está a tentar salvar a pele ou tem algum tipo de consciência universal pelo que se passa à sua volta (ele sabe – há um momento no jogo de ping pong que matam um judeu mesmo do outro lado da parede de madeira…)

Também muito bom é August Diehl, como Adolf Burger. Tão bom que há momentos em que só nos apetece dar-lhe porrada. Ok, estão a ajudar os nazis, mas então e o companheirismo, ahein?

Grandes momentos – as festas no campo de concentração, esse tal momento do jogo de ping pong, a maneira como a história começa no fim, com Sally e a mala de dinheiro, mulheres à disposição até que ela descobre o código de barras no braço… Menos bom? Não me lembro. Mas também sou um pouco suspeita em filmes sobre a II Guerra Mundial…

Grande trabalho de fotografia por Benedict Neuenfels, suíço. O ar sujo de tudo, mas ao mesmo tempo não completamente cinzento… muito bom.

Pronto, e não vi os outros nomeados, mas sim, um novo clássico, como berra o IMDB.

terça-feira, julho 08, 2008

10.000 BC (2008), Rolland Emmerich


Emmerich, o Ed Wood dos grandes orçamentos, volta, desta vez sem destruir Nova Iorque, mas com pirâmides e extraterrestres – ele leva a definição de marca de autor demasiado literalmente, parece-me.

Não sei se foi de ir sem expectativas nenhumas, ou do último filme que tinha visto ser tão … tão… argh, o certo é que esta coisa com mamutes, pássaros estranhos e carnívoros (vide poster) e tigres dentes de sabre me tocou no fundo do meu ser. Desde o Shoot ‘em Up que não via uma coisa no cinema que me divertisse tanto.

Toda a mitologia em volta do herói, D’leh (um homem das cavernas que, evidentemente, fala inglês americano), que se torna o salvador da tribo apenas por acidente, é francamente ridícula, se contada, mas faz todo o sentido enquanto estamos no escuro a fazer barulho com a palhinha na Coca-Cola. Sim, porque ele irá salvar a sua amada, Evolet, das garras da terrível tribo nómada que a rouba a ela e aos seus amigos para trabalharem para lá do sol posto, nas pirâmides dos deuses dos céus.

Emmerich é o Spielberg da série B, só vos digo isso. O grau de xunguice que percorre todo o filme, com D’leh a proclamar a união entre todos os povos, enquanto tenta salvar a sua amada, é amigo dos animais (mesmo daqueles muito grandes e muito esfomeados), são-lhe dadas as sementes que o permitem passar ao próximo nível de civilização, e tudo isto com o seu peito masculíssimo sem um único pêlo… como é possível não gostar de algo tão descaradamente mau???

Infelizmente, parece que o tempo que perderam de volta do difícil efeito de fazer chover sobre um tigre dentes de sabre (demoravam semanas a renderizar um único minuto da cena) fê-los esquecer o render noutras partes, em que parece que mudamos drasticamente do HDV para a Super 8. (quando D’leh, já no Vale dos Reis, tenta convencer os guardas a unirem-se todos, qual movimento comunista, contra o patronato opressor). Mas que interessa, quando nas cenas seguintes nos tentam convencer que, 1. As pirâmides já estavam construídas antes mesmo de passarmos de caçadores para recolectores; 2. Foram os extraterrestres que as construíram, quer dizer, obrigaram os pobres dos humanos a construí-las. (boa jogada, o só vermos a cara do et no fim de ele estar morto. Aprende, Spielberg!)

E como não só de ets, marximo-leninista, mitologia grega e plantas que crescem se faz um filme, eis que no fim nos é dado o golden egg da série B: após matar uma das personagens mais importantes, Emmerich, descaradamente, RESSUSCITA-A!!!!! Muito bom, muito bom, muito bom!!!!

E sim, os mamutes são os novos pinguins. Sem dúvida. (numa nota mais séria, o filme avança imenso na junção de CGI com acção real, sem parecer o Quem tramou Roger Rabbit versão pc. Ou os Sims[1])

E porque mais filmes destes são precisos para alegrar o Verão,

Do Not Eat Me When I Save Your Life!



[1] Pois, estou de férias, vou poder jogar Sims até cair para o lado!!! Yehhh!!!!

Love in the Time of Cholera (2008), Mike Newell


A dificil tarefa de adaptar um livro muito, muito bom (segundo dizem) ao ecrã nem sempre corre bem. Aliás, é raro correr bem. Mas é o Mike Newell, e Ronald Harwood, o argumentista do Pianista…

Ambos precisam de uma carga de porrada. Voluntários?

Ainda pensei que fosse da minha alergia sazonal às histórias lamechas de amor – compreendam, estarmos a limpar o cérebro da nossa platonice de há 4 anos e ir ver um filme sobre um tipo que esperou uma data de décadas… - mas não. Não não e não. É muito mais que isso.

Primeiro que tudo, o ar produção da Globo que o filme tem todo. Começando pelos malfadados créditos com florzinhas, e zoomzinhos, e musiquinha de fazer bebés… ainda pensei: hum, será que estou no meio de um pesadelo? Mas não. O pior ainda estava para vir.

Ver o Bardem com ar de cachorrinho atrás lá da Fermina é, no mínimo, assustador. (ainda demais poucos dias depois de ver No Country For Old Men…) Acrescente-se o pior trabalho de maquilhagem que alguma vez vi num filme, e estou a incluir trabalhos amadores de colegas meus. E Shakira, por amor dos deuses???? Shakira como banda sonora???? Em que raio estavas a pensar, Newell??? (atenção, não estou a desdenhar da qualidade musical da cantora, que tem, na minha opinião, uma voz fantástica. Estou a desdenhar do ridículo e ‘golpe-comercialóide-frustrado’ que é pôr canções dela como única banda sonora…)

Atenção, há coisinhas boas. Tipo, o excelente livro que se consegue, apesar de tudo, perceber atrás de tanta falta de jeito/tacto. Parece que pensaram: bem, o livro nunca vai ser suficientemente bem adaptado para o cinema, por isso deixem-nos ganhar uns trocos enquanto fazemos o mínimo possível. Sinceramente. É que isto já parece um golpe das livrarias, tipo veja o filme. Compre o livro, ou então, numa vertente ainda mais assustadora, as Cliff Notes, agora em formato cinematográfico.

Bem, depois deste relembrar de todos os pensamentos que me atolaram durante o intervalo, vamos lá ver… Bardem é um excelente actor, e está aqui num registo fantástico (pena a péssima maquilhagem quando ele envelhece… onde é que tinham a cabeça, onde???) Giovanna Mezzogiorno (aka Fermina) tem um sei que de beleza estranha, foi bem escolhida para a personagem, embora até doa a diferença abismal quando tem de partilhar o ecrã com Bardem (não é que ela seja má de todo, ele é que é bom demais). Depois, Benjamin Bratt como aquele idiota do Dr. Juvenal (sim, ódio às personagens, ódio às personagens é que é bom) – adoro quando ele morre, principalmente da maneira que morre.

Outra coisa fantástica é o chamado ‘body count’ de Florentino (Bardem). (fantástico, excelente, etc etc… vê-se bem que desliguei o cérebro para as férias). Principalmente a primeira vez em que ele descobre as alegrias do sexo no navio… muito, muito bom. A cara de totó, a máquina sexual… fantástico. E a sua grande frase final, quando finalmente consegue Firmina – ‘eu mantive-me virgem para ti’ – geeeenial. Sim, essa genialidade parte do Marquéz e não dos imbecis que fizeram este filme, mas pelo menos deixaram estas coisas para nós podermos apreciar – podiam tê-las cortado impiedosamente. E, alguém tem de dizê-lo, grandes cenas de sexo. Se calhar foi pela atenção a elas que se esqueceram que o resto do filme também merecia um bocadinho mais de trabalho...

Sinto-me estúpida por estar a tentar lembrar-me de coisas que vi há muito, muito tempo atrás… Não me lembro de pormenores inteligentes nenhuns… Mas tenho de keep up até aos filmes recentes – é a minha OBRIGAÇÃO MORAL VIRTUAL. E isso tem muito peso. Ou não.

terça-feira, junho 17, 2008

Persepolis (2007), Vincent Parounnaud & Marjane Satrapi


Há filmes que nos conseguem pôr de bem com a vida. Este é um deles. (reparem na clichezice desta primeira linha. Vêem, eu sempre disse que demasiados filmes noir nos derretiam o cérebro…)

Na era da animação por computador, após a Pixar ter provado que as personagens virtuais podem ter o carisma de um Timon & Pumba ou de um Jack Sparrow (a referência à Disney é tudo menos inocente…), eis que surge uma animação 2D, tradicional, iraniana e, deuses!, na maioria do tempo na gama do preto e branco. E não é uma história para criancinhas…

Marjane Satrapi conta a sua biografia de uma maneira mais do que original, adaptando a sua bd ao grande ecrã. Desde os seus tempos como criança inocente fanática de Bruce Lee com pretensões a profeta, até uma pequena fase comunista, a revolução iraniana, as burcas, o ser uma rebelde numa ditadura (Iron Maiden! Yehhh!), ir para a velha Europa estudar, apaixonar-se, desapaixonar-se, ser niilista, existencialista e os outros –ista quase todos, querer morrer por amor, voltar – mas haverá ainda sitio pra voltar?)

A primeira grande qualidade do filme é que nunca, mas nunca, entra numa de dramatismo idiota (aka música de John Lennon e WTC a cair), ou mesmo em decidir quem tem razão, quem não tem, ou mostrar como o Irão é mau, etcec. Não temos nada disso. Temos sim uma maturation story muito bem humorada, que não esquece contudo o contexto à sua volta. Sim, é de Marjane que se trata, mas também é o Irão que lá está.

A segunda grande qualidade do filme (tão bom ver um filme em francês que de francês não tem nada, no sentido pejorativo da coisa) é que aprendemos imenso sobre que raio se passou no Irão nos últimos tempos. Pedaços negros sobre as manápulas dos EUA na coisa incluídos (como é que isto foi nomeado? A Academia consegue ser mais anti-americana do que nós ou escapou-me alguma coisa?). Ficamos com um contexto histórico upa upa e nem nos apercebemos. Se todas as aulas fossem assim…

Terceiro: A animação! O traço! O preto, branco e cinzento! O abstraccionismo ou simbolismo ou como lhe queiram chamar!

Quarto. (fazer assim resulta melhor do que: depois, depois, e depois, também,…) Banda sonora. Música iraniana – aliás, música com laivos de iraniana – e a boa música ocidental (sim, é discutível, depende dos gostos… calem-se). Nunca o ‘The Eye of The Tiger’ teve tanto estilo.

Tanta, tanta coisa boa…. Grande cena para mim: toda a sequência em que Marjane se apaixona por aquele pretenso futuro escritor, um anjo na terra, em que vemos o carro a voar, a natureza lindíssima, et cetc. E depois de ela descobrir a traição – bem, o rapazinho até os dentes tem de fora. Claro, a sequência em que Marjane resolve sair da depressão e ir para a Universidade. (tam tam tam tam tam tam tam tam tam tam!!!!!) – sim, é uma cena muito girl power, porque é que acham que eu adorei?

Coisas más? Não haver mais. Buáááá.

Uma rapariga perdida entre culturas… idealismos, pragmantismos… aaaaahhhhh

No fundo, a coisa ideal para percebermos que os seres lá do Médio Oriente são tão pessoas como nós. Ai sim? Sim. Até ouvem Iron Maiden e tudo…

sábado, junho 07, 2008

The Other Boleyn Girl (2008), Justin Chadwick


Tanto, tanto tempo há espera deste filme... arrrrghhh. Um filme sobre a época Tudor não realizador pelo Kapur... sim, sim, sim!!!

Ou não?

A verdade é que é muito complicado agadar-me nestas coisas, eu, que consumo tudo o que cheira remotamente a ruffs e collants. E quando dão na televisão séries do gabarito de Elizabeth com Helen Mirren (que além da I intrepretou a II, a mulher corre as Bessies todas) ou mesmo Os Tudor (que só vi depois, e não sei se não tem um toque modernaço demais…), fazer um filme sobre a coisa é arriscado…

A história centra-se no namorico de Henry VIII com Mary e depois Ann Boleyn, respectivamente interpretados por Eric Bana, Scarlett Johansonn e Natalie Portman. Ora, o que é novidade em termos de representação histórica, deixem-me já informar-vos, é: Henry VIII como alguém humano; Mary Boleyn sem ser uma putinha. De resto, segue as mesmas linhas gerais de milhares e milhares de recriações anteriores.

Como cinema (falando de termos técnicos, peço desculpa a quem não gosta destas partes, passe à frente e pense que podia ser pior, já que ando a aprender a analizar música erudita contemporânea e que bom que era pôr aqui partituras e falar de clusters e trítonos e serialismo integral e ninguém me acusaria de ser uma tecnicista… sim, o cinema é uma técnica e uma arte, não é só a história que interessa…[1]), é fraco, muito fraquinho – se nas primeiras vezes pensamos que é muito original fazer a transição de cena, ou fade, através de um travelling horizontal para as sombras e saindo das sombras, à décima quarta vez já é saturante. E não há muita exploração de widescreen, nem de imponência visual, nem mostrar os belíssimos figurinos (óptimo trabalho de ?) em todo o seu esplendor de cor – sim, um filme interessantíssimo a nível cromático, como j+a deixava adivinhar pelo poster. Isto tudo para dizer que o que o senhor Kapur tem a mais, aqui há de menos, e sentimos a falta da qualidade épica da coisa (se bem que é uma historieca de índole íntima, passada por baixo de lençóis e atrás de paredes secretas, mas bolas, é o Henry VIII, vamos lá reforçar essas cavalgadas…

Mas palmas para o sentido pouco pudico do filme (não, não estou a ser irónica) – nunca num filme desta época ouvi falar tanto de menstruação, e partos, e gosma, e etc etc etc. Fluidos, para resumir. (entretanto vi The Baby of Mâcon do Greenaway que põe este a um canto e quero prestar-lhe vassalagem) Realista, visceral, um bom retrato das crendices da época (a parte em que Ann é presa num quarto com grades diz muito da mentalidade tudor…)

O ponto fortíssimo do filme é Portman, no papel da bruxa de seis dedos, aka Ann Boleyn, que mostra um tal rol de manipulações, ambição e sei lá mais quê que é, até à data (e desculpa-me Helena Bonham Carter) a melhor Ana Bolena que já vi. Já Eric Bana, poderosíssimo e frágil nos seus momentos com Mary, mas não me convence como o rei das seis mulheres. E por fim Scarlett, não sei se foi por tê-la visto antes a fazer de Mary Poppins, agora como Mary Boleyn, demasiado type casting, demasiado sonsinha e boazinha para ser verdade. Ou então sou eu, que prefiro ver uma irmãzinha mais velha menos perfeitinha, e boa mãe, e boa esposa, etc etc.

Banda sonora adequada, por Paul Cantelon. Isto é, nada de arrebatador, mas suficientemente evocativa.

Grandes momentos: sem dúvida, quando Ann está prestes a ser decapitada e acredita (porque Henry assim o tinha dito a Mary) que iria ser perdoada. Ups. (não considero isto contar o final porque: 1. Não é o final; 2: qualquer pessoa que saiba o mínimo de história inglesa sabe que Ann Boleyn foi decapitada. Emocionante o momento das criancinhas a correrem no fim, à maneira de prólogo, em que vemos a gloriosa Regina Elizabeth I a correr por entre o trigo, como a sua mãe e tios tinham feito antes dela. Ah, o futuro de Inglaterra, a Golden Age, que profético…

Não se perde nada em ver, se for só para ver um telefilme de época… há coisas piores. Tipo Alvin e os Esquilos. Ou, credo, Haverá Sangue protagonizado por Alvin o Esquilo. O Musical.[2]

[1] Este enorme desabafo tem uma razão específica que não me apetece explicar. Fica como reflexão generalista casual.
[2] Claramente um dos sinais do Apocalipse, referido a seguir ao soar da Quarta Trombeta.. Espero que os malucos dos estúdios (penso sobretudo nos malfadados do Scary Movie ) não saibam português suficiente, senão estamos inquietados e não quero ter esse peso na consciência.

The Nanny Diaries (2007), Shari Springman Berman & Robert Pulcini


Depois da alta qualidade de filmes dos óscares (ou nem por isso), nada como um bom filme inconsequente para voltar ao cinema real americano(aquele que é feito para entreter e não para arrecadar estatuetas douradas). E como começa a ser difícil encontrar alguma coisa que eu não tenha visto ou que queira ver nos cinemas, resolvi dar uma oportunidade a uma maturation story, já que este ano vou acabar o curso e, bem, não sei o que vai ser de mim.

Scarlett Johanson interpreta uma jovem morena (!) que, no fim do seu major em Economia e minor em Antropologia, na entrevista que decidirá o seu futuro numa das empresas mais conceituadas de Nova Iorque, fica com cold feet e deita tudo a perder.

Passeando no parque, olhando para as velhotas, é confundida com uma nanny e contratada como tal pela família X. A jovem vê nisto um presente caído dos céus: pode sair de casa fingindo perante a mãe (uma enfermeira que lutara para lhe dar uma boa educação) que tinha sido aceite na empresa, arranja dinheiro, vai pensando o que quer fazer da vida e aproveita para fazer um estudo antropológico da fauna da zona rica de Nova Iorque.

Dispenso-me de contar as peripécias, mais o romance com um bonzão de Harvard do andar de cima, e moral final que afinal todos devemos seguir as nossas verdadeiras vocações, mesmo que por isso fiquemos desempregados para todo o sempre e mais além.

Johanson a interpretar o papel de uma jovenzinha angustiada... nada mau. Se bem que nada que se compare ao alto nível de uma Rapariga com Brinco de Pérola ou o allenesco nefasto de Match Point... Muito boa a cena que aparece parcialmente no trailler, ela a confrontar um ursinho de peluche com câmara incorporada. Também muito boas as cenas no museu de antropologia, em que ao lado das figuras de cera das tribos – representando os costumes das várias sociedades – aparecem também os nova-iorquinos – lésbicas, executivas, estudantes, tias, e nannies.

segunda-feira, março 31, 2008

There Will Be Blood (2007), P.T. Anderson

Deixem-me exprimir o meu sentimento mais profundo por este filme com três pequenas letras:


W-T-F?

E sim, eu sei que toda a gente adorou, que o PT Anderson é o novo Welles com um petrolífero Citizen Kane, e Daniel Day-lewis é o Actor com Maiúscula.

Destas afirmações lamento só concordar com a última.

Este vai ser daqueles filmes que tenho de ver daqui a uns anos, outra vez, para ver se percebo se o problema é meu, ou da maioria das pessoas que puseram o filme num altar.

Primeiro, deixem-me confessar uma coisa – há coisas do filme que não vi, porque o aborrecimento que tomara conta de mim fez-me adormecer na segunda parte durante largos minutos, só acordando quando o Day-Lewis matava alguém ou bufava (ou seja, frequentemente).

Dito isto, as linhas seguintes são isentas de qualquer, bem, isenção crítica, dando apenas largas à minha subjectividade, e tão fortemente venenosas quanto conseguir, para contrapor às críticas adocicadas de quase toda a gente. E sim, incomoda-me partilhar alguns aspectos da minha opinião com alguns críticos portugueses, mas pronto, vamos lá descascar a coisa.


Primeira dentada de veneno: o PT Anderson passou a rodagem toda na casa de banho, com alguma crise de estômago? Parece. Porque tendo na mente Punch-Drunk Love, Magnólia e Boogie Nights (que vi há pouco tempo, para ver se tinha alguma alergia especifica ao senhor, mas não), onde é que ele está em There Will Be Blood (que carinhosamente trato por There Will Be Blharch), ahein? Onde está, onde está?

Segunda medusa flamejante? Julgo que a ausência de PT Anderson se deve ao bufar constante de Daniel Day-Lewis. Eu também tinha medo de estar ao pé de alguém tão assustador, com medo de apanhar raiva. O que acontece, na minha opinião, é que o actor enche de tal modo o ecrã que não deixa espaço para absolutamente mais nada. Nicles. Também acho que é por isso que tanta gente gostou do filme – pela excelente interpretação de Day-Lewis, apenas levemente riscada por um Paul Dano bastante prometedor – mas pensem comigo: além destes dois, o que há de bom no filme? Pois. O Eterno Nada.

História? Ai e tal, a ambição desenfreada, o petróleo, etc etc. Booooriiing.

Banda sonora? Ui, pizzicattos saltitantes, medo.

Fotografia, figurinos, plasticidade da imagem? Aspecto tão oleoso quanto o próprio petróleo. O que não é necessariamente mau.

Grandes frases: I drink your milkshake. ????????????????????????????? And the winner for the stupidest line goes to… Além que – ok, talvez tenha perdido essa parte enquanto sonhava com filmes melhores – o que é que isso tem a ver com seja o que for?

Apesar de tudo, lembro-me de um grande momento: a cena de conversão de Daniel Plainview, onde o bufar do protagonista até que cai bem. Parece mais um exorcismo, mas pronto. Na América dizem que a religião é assim, quem sou eu para desmentir?

Repito que isto é a minha opinião extremamente parcial, e que possivelmente há qualquer coisa no meu inconsciente ou vidas passadas que me faz odiar o filme,

Lembro-me agora: Plainview é um bom adjectivo para o filme. Mua-ah-ah.
PP. Mas não fui a única a topar com o vazio por detrás de Day-Lewis:
Mas pensem assim - um filme que desperta tanta raiva (dos detractores e dos fiéis), tem alguma coisa de facto. E adormecer uma tipa insone que normalmente só adormece depois das 4 da manhã, depois de 5 cafés ao longo do dia... é dose.


sexta-feira, março 28, 2008

Juno (2007), Jason Reitman


O indie (não confundir com o ancião Indy) nomeado do ano. Porque fica bem fingir que o cinema independente também pode ganhar homenzinhos dourados. Pois sim claro.

Há duas coisas grandiosas neste filme – a primeira, o guião de Diablo Cody; a segunda, a almighty Ellen Page, a actriz mais refrescante (e menos artificial) dos últimos tempos.

Juno é uma adolescente que, num momento de tédio, resolve experimentar o maravilhoso mundo do sexo com o melhor amigo, e, ups, fica grávida. Inicialmente decidida a enviar o pequeno contratempo para o Limbo (na altura em que o filme saiu ainda existia, acho eu), Juno tem uma revelação súbita na clínica de abortos (bastante creepy, por acaso, com uma adolescente horripilante no guichet de atendimento) e resolve ter o bebé. É aqui que os movimentos pró-vida fazem hip, hip, hurra – porque Juno é tão hip e não aborta – mas convinha lembrar a esses senhores que se a miúda tem feito o que é provável que tivesse feito, fosse ela uma miúda real (não conheço ninguém de 16 anos com tanta atitude e auto-confiança), não havia filme. Duh.

Ellen Page é, provavelmente, a única actriz que faz sentido para uma personagem como Juno. Quer dizer, conseguem imaginar mais alguém naquele papel? Eu não. E, graças aos deuses, a profundidade não se esgota na personagem principal. Michael Cera, que interpreta o melhor amigo de Juno/pai biológico da criança é tão totó que só dá vontade de lhe atirar o alguidar de pipocas (não, não me enganei, alguidar mesmo) à cara. Acorda para a vida miúdo! É assim tão difícil de perceber que ela também gosta de ti, seu idiota! Argh, projectos de homem ingénuos… (sim, porque o grande momento romântico deste senhor é quando o vemos cheirar as cuecas de Juno, sozinho na cama). Além do miúdo corredor (aqueles rapazes que se passeiam pelo filme como leitmotiv são bem engraçados), temos a madrasta (Allison Janney), o pai de Juno (JK Simmons), e o casal perfeito (ou nem tanto) Jason Bateman e Jennifer Garner, que tem o relógio biológico a gritar horas.

E sim, Jason Reitman deixa o filme fluir com os one-liners incisivos de Cody e com o carisma de Page, e por isso tem um bom filme, sem dramatismos, tearjackers, etc etc. Não é um teen flick. Graças aos deuses.

A banda sonora, com temas dos Kinks, Mott the Hoople, Belle & Sebastian e até Velvet Underground, é uma excelente antologia para ouvir, seja antes de ver o filme, depois ou em vez de (ná, vão ver o filme, seus idiotas). As faixas de Kimya Dawson servem que nem uma luva a este filme, com a sua voz infantil e tibutear adolescente (se bem que Juno não parece ter papas na língua).

Melhores momentos? Começam logo na deliciosa animação dos créditos iniciais, passando para o momento em que Juno anuncia aos pais o seu desvaire, as cenas em casa dos pais adoptivos, e – por momentos receei que a coisa descaísse de nível nos momentos com Bateman e Page, sei lá, vi ali um cheirinho de romance inter gerações mas felizmente foi só um cheirinho, mesmo – o grand finale entre Juno e o seu amigo. Tcharam.

Um feel good movie sem vergonha de o ser, com o bónus de bons actores, excelente argumento e, bem, ser indie, e o indie, como toda a gente sabe, is the new black.

segunda-feira, março 24, 2008

Lust, Caution (2007), Ang Lee


Depois de Brokeback Mountain, que entusiasmou toda a gente menos eu (tenho algum problema, quase de certeza), Lee vem filmar pela primeira vez o banal amor heterossexual.


E antes mesmo de falar do objecto em si, deixem-me divagar um bocado sobre a maneira como Lee entende o sexo, mais conhecido pelo pseudónimo de amor. Para Lee – convém avisar que este é o segundo filme dele que vejo, por isso posso estar a meter-me em águas profundas sem salva-vidas, e entender uma tendência recente como marca de autor, mas pronto, vamos lá saltar pela borda – o sexo/amor é sempre uma relação de dominação, de dono e dominado, algo aparentemente calmo à superfície mas que borbulha qual lava incandescente nos momentos mais inesperados. Já no filme anterior, não havia dúvidas de quem era o ‘homem’ da tenda (curiosamente o mais feminino na sua sensibilidade, se compreendem o que quero dizer). Agora, após estas cenas nada românticas de sexo – pornografia hardcore, sem a parte pornográfica propriamente dita – a temática da dominação parece-me evidente: primeiro, o senhor Yee (Tony Leung Chiu Wai), depois a espia Wong Chia Chi (a estreante Wei Tang) que o conquista pelo amor (ou seja lá o que for) e passa de dominada a dominadora. Bem, senhor Lee, a sua visão do amor consegue ser ainda mais negra que a minha, credo…


Não posso deixar de notar a qualidade composicional de Lee, principalmente nas muito faladas cenas de majhong, onde o vazio existencial das personagens grita silenciosamente. Os diálogos, aliás, o uso da conversação como trilha sonora (quero dizer, barulho de fundo) é igualmente notável. O tratamento de cor é delicioso – como aliás em quase todos os filmes de realizadores orientais.

A história começa in media res (quase no fim, para ser específica), e na primeira meia hora torna-se complicado perceber o que raio se está a passar – se forem como eu, com uma péssima memória para caras, ainda vai ser pior. Mas enfim voltamos ao inicio, e a partir daí tudo se segue como mandam as regras aborrecidas da continuidade temporal. É de realçar o excelente trabalho de representação da actriz principal, que consegue ser credível quer como rapariga inocente do grupo de teatro quer como Mata Hari implacável, que comete o único erro de se apaixonar (ohhhhhhhhh) pela sua suposta vítima, um implacável general chinês. Sim, porque até o pequeno Hitler de olhos em bico merece um pouco de amori. A nossa empatia pela personagem masculina até é fácil, já que, tirando o sexo à bruta com a protagonista – dentadinhas e chicotadas de paixão, se me faço entender – não o vemos a maltratar ninguém. Isto até ao fim, que me impeço de estragar, ainda mais porque considero que é o grande momento do filme (e não estou a ser irónica). E sim, a última imagem é mais uma vez um signo de ausência, este um pouco mais doloroso ainda porque… ah, não posso contar. Por isso, até que nos identificamos com a pobre rapariga, já que todas gostamos de homens poderosos de uniforme (ou não).

Grandes momentos: os jogos de majhong (que lá é jogado tipo póquer, não em frente a um computador a pingar baba), o momento quase final, em que a protagonista fica presa no meio do transito e subitamente não sabemos que raio vai acontecer, ou aconteceu; o treino sexual com o amigalhaço anti-regime (não aquele que gosta dela, outro, só para verem a demência dos revolucionários), e uma imagem plástica que dá vontade de trincar. Tem o seu quê de filme noir oriental (ou então é por eu andar com os noirs pelos cabelos); a femme fatale, a traição, as pistolas, os cigarros, os pastéis de nata (sim, eu vi pastéis de nata, não estava a sonhar!), etc etc etc.

Maus momentos? Bem, é um bom filme, mas não arrebata. E eu preciso de ser arrebatada, arrebanhada, sentir a lagrimazinha ao canto do olho. Sim, é um filme frio. Mas não deixa de ser interessante de se ver.

quarta-feira, março 19, 2008

The Assassination of Jesse James By The Coward Robert Ford (2007), Andrew Dominik




Um filme tão longo como o seu título. Ouch. Três horas de um pós-western compassado, um ensaio sobre o que Harold Bloom chamou, num famoso livro, a “ansiedade da influência”.

Comecemos pela superfície. É de longe um dos mais belos filmes do ano, com uma fotografia que tenta imitar as fotografias da época, em sépia tantas vezes desfocado nos cantos, como que se a referência à fotografia, uma esperança de (falsa) imortalidade, mais contribuísse para a construção simbólica da trama reflexiva do filme. Porque a nomeação “ensaio” nas linhas anteriores não foi acidental. Um movie é entretenimento. Aqui, estamos perante uma opus.

Mas continuando no reino das aparências, a referência imediata ao peculiar estilo de realização do estreante Andrew Dominik é, sem sombra de dúvidas, o mercurial Terence Malick, não nos seus aspectos dogmáticos (a filmagem em luz natural, o improviso), mas no que é, a meu ver, mais importante – a poesis cinematográfica, mais do que a construção épica, o (re)fazer de uma mitologia. Porque os planos são longos, arrastados, fazendo visceral a percepção do tempo, mas nunca logrando tentar os limites de resistência do espectador (uma qualidade rara, diga-se, em filmes do género) – a beleza sublima-se, nunca tocando a exaustão visual.

A música tem uma notoriedade de apontamento, pontuando levemente a imagem, nunca a violando – um trabalho notável e sensível por Nick Cave, que aparece trovando a história de que o título nos fala, num bar onde o cobarde Robert Ford medita amargamente sobre os reveses da fama. Ford esse interpretado por um underacting Casey Affleck, que se revela o admirador assassino necessário para um flamejante suicidário Brad Pitt, no papel de Jesse O Homem, mais que Jesse a Lenda. A escolha dos actores, aventuro-me a sugerir, passa por muito mais que as competências provadas de cada um – é quase que um prolongamento do ego. Casey viveu muitos anos à sombra do irmão Ben; Pitt convive com a Fama desde os dias em que o seu cabelo lhe ultrapassava os ombros.

O engano fulcral do filme, a sua armadilha e, creio eu, o porquê da extensão e definitividade narrativa do título cinge-se simplesmente a algo que passou despercebido a muitos: a personagem principal pode ser Jesse James, mas é a personagem de Ford que guia a narrativa, convertendo-se no principal motor dos acontecimentos. Assim, o centro temático do filme não é o assassinato e morte de James – algo que todos sabemos que vai acontecer e resolvido sem esplendor, dando a impressão mais de um suicídio voluntário do que um homicídio – mas as motivações e dúvidas de Ford, que julga conseguir, à semelhança de algumas tribos que comem o cérebro dos inimigos, adquirir a força do seu ídolo destruindo-o. Como que no antigo teatro grego, o que interessa não é o acontecimento em si – Édipo que mata o pai e dorme com a mãe – mas que reflexão se pode daí retirar.

Por isso continua o filme depois do desaparecimento de J. James – mesmo morto, assombra Ford. A repetição constante do crime no teatro, para agradar às pessoas – metáfora do palco mediático dos nossos dias? – imprime uma dúvida perniciosa em Ford, que se apercebe que, longe de eliminar o ídolo, elevou-o a deus. E quem mata os deuses não se torna igual a eles, muito pelo contrário. Ninguém tira fotos ao corpo morto de Ford, ninguém se importa que ele tenha morrido de todo – ninguém sabe quem ele é, ninguém colecciona as suas histórias e as guarda religiosamente debaixo da cama, ninguém.

Ford julgava que tinha de matar Jesse, o seu ídolo, para poder ser alguém, para sair da sombra, para o ultrapassar em audácia. O cobarde Robert Ford não falhou o tiro, mas falhou o acto.



(para um filme sério, uma (pseudo)-crítica séria. para desenjoar um bocadinho, também).

quarta-feira, março 12, 2008

Asterix aux jeux Olimpiques (2008), Frédéric Forestier e Thomas Langmann


Eu sei que já escrevi, uma vez pelo menos, que achava idiota (idiota talvez seja uma palavra fraca demais para o meu sentimento) que se criticassem filmes com base em coisas anteriores do realizador – julgo que foi com o último Allen que me saiu qualquer coisa do género. Ora bolas, lá vou eu contradizer-me. Ou não exactamente.

A verdade é que no meu top pessoal de comédias, vem Asterix & Obélix Missão Cleópatra. Pronto, crucifiquem-me. Um guilty pleasure, e depois? É que o filme é tão genial do início ao fim…e é daqueles em que passamos meses e meses a citar piadinhas do filme… Onde está o mémé? Onde está o mémé? (além daquele momento clichetóide da música romântica quando Asteríx(co) vê Beijofibis, com o vento nos cabelos e coiso e tal. Gosto tanto da cena que basta o vento bater-me nos cabelos para ficar loucamente apaixonada – por mim própria, sempre).

Mas não é desse filme que estamos a falar aqui. É do seu sucessor, Asterix nos Jogos Olímpicos. Ora, a primeira vez que vi o teaser, achei piada. À segunda e terceira vez, começou a irritar. Mas mesmo assim desloquei-me ao centro comercial do inferno para ver o filme (noblesse e Cabra oblige).

Hum…

O aborrecido é que um filme com tantas potencialidades só tenha razado o razoável quase bom nos dez minutos finais (e mesmo assim perdendo com a repetição excessiva da mesma piadinha) e na corrida de quadrigas – Germany always the best. Mas… argh. Uma comédia presume… mas isto sou eu a dar palpites… que se provoquem risos na audiência? Sorrisos pelo menos? Ou o filme é mesmo demasiado francês (não acredito – a comédia francesa pode não ser tão excitante e aventurosamente deslavada como a britânica, mas é interessante q.b. – vide Grrrrrrr!), ou ficou demasiado fiel ao livro (espero bem que não, quer dizer, um livro tão insosso?), ou então o Missão Cleópatra foi um feliz acidente e este último filme resolveu voltar ao nível fraquito do primeiro – talvez conseguindo ainda o superar em desinteresse?

Depois… cadê os grandes momentos musicais? Cadê o ir além das personagens? Ah ah, um romano a ser sovado, ah ah, Obélix e Asterix a zangarem-se, ah ah.

?

E aquele Brutus (interpretado por Benoit Poelvoorde), ou é muito bom actor e consegue irritar-nos como personagem, ou é mau actor e irrita-nos com a sua irritante representação. César sim, César é muito, muito bom- menos não se esperava de Alain Delon. O pequeno tique dos lábios define na perfeição toda uma personalidade complexa. Ah, actores do Método, como gostamos de vocês…

Acho que tudo se resume a eu dizer que o momento alto do filme é quando aparece no ecrã uma das personagens do Missão Cleópatra. Quer dizer, quando os próprios realizadores reconhecem a sua impotência e resolvem servir-se da genialidade do anterior(volta, Alain Chabat, temos saudades) para arrancar risos ao público, está tudo dito, não?

segunda-feira, março 03, 2008

Sweeney Todd (2007), Tim Burton

Genial.

(end of critic)









Pretende-se alguma seriedade na página bloguística que é a nossa, mas como querem uma opinião semi-isenta sobre um filme com o meu realizador (vivo) e actor (vivíssimo) preferidos? Que querem que eu diga mais? Acrescente-se: o meu realizador preferido num slasher musical – que mais podia eu querer? Melhor melhor só a ideia de ver a Sofia Coppola a fazer um filme sobre a Dama Negra dos Sonetos.

Bem, comecemos por falar do Tim Burton. O sr. Burton é um génio. Ponto final. Ele é dos poucos realizadores actuais que tem um universo próprio, muito marcado, e assinaturas constantes que não se tornam repetitivas ou enjoativas (pelo menos para os fanáticos como eu). Continuando, ele é um génio. Ponto final. Se havia pessoa capaz de transformar uma história sobre um barbeiro sanguinário num filme grandioso era ele. Musical? No problem.

Importa aqui aniquilar todos os que dizem que este é um Burton menor. É incrível como dizem isto sempre que o senhor Burton lança um filme. Na minha parca inteligência, isso chama-se evolução. E o senhor Burton tem evoluído muito desde o Eduardo Mãos de Tesoura. Experimentado, jogado com o seu universo pessoal, expandindo-o, fazendo coisas que não estamos à espera. Por exemplo, musicais.

O senhor Burton, segundo consta, não gosta lá muito de musicais. Mas o ter visto este meteu-lhe bichinhos na cabeça. E nós até percebemos porquê. Não consigo imaginar outro realizador a fazer este filme. Nem consigo imaginar outro protagonista além de Depp. E demos graças que o menino sabe mesmo, mesmo cantar. Um milímetro abaixo do seu estilo de representação (de construção externa, li não sei onde, de fora para dentro), mas mesmo assim, ficámos com vontade de ouvir mais. Neste irmão mau de Eduardo manápulas cortantes, as facas/navalhas são externas, o esgar é tudo menos inocente, o olhar é opaco, a pele cinzenta. Yeh.

Para mim, o tema do filme é a vingança. Dizer que é sobre a obsessão não me parece correcto. Porque a obsessão é com a vingança sobre o juiz (e alastra sobre toda a população de Londres), em Todd, mas Pirelli também se quer vingar de Todd, e Mrs. Lovett vinga-se de Laura, e o miúdo vinga-se de Todd. Etc etc etc.

Não é um musical vulgar. Primeiro, a história. Depois, a fotografia – associamos sempre o musical a uma maior paleta de cores, e aqui isso só nos é dado na sequência de sonho de Mrs. Lovett, By the Sea (algo que sai deliciosamente de tudo o que tínhamos visto até aí) – os devaneios de Todd são sempre cinzentões com splashes de vermelho ocasionais. E o trabalho de câmara, meus caros, genial. (sim, estou a repetir propositadamente o adjectivo). No fundo, é filmado como um filme ‘normal’, em que as personagens por acaso não param de cantar. O plano inicial burtonesco? Temos direito a dois: aos créditos iniciais, em animação, e a um accellerando nas ruas de Londres, do cais até Fleet Street, quando Todd volta à sua antiga casa.

Sobre a fotografia – a cargo do senhor – fantástico. É como um filme a preto e branco (meio esverdeado, às vezes, qual foto antiga colorida à mão – com sangue vermelhaço que parece saído de um slasher do nessa altura novato Peter Jackson, que embora minimizando o efeito gore da coisa (porque não é isso que interessa), resulta très jolie, bonito, estilizado, simbólico (tomem esta, Cahiers).

A ausência aqui é Danny Elfman. Mas a partir do momento em que ouvimos a belíssima banda sonora de Stephen Sodheim perdoamos tudo. Porque não é Elfman, é certo, mas resulta muito bem. Estão lá órgãos, é o que interessa. Influências da música londrina da época, diz o senhor Stephen. Sim, parece-nos muito bem. No meu caso, a música só começou a entranhar-se depois do filme – no fim de saber ao que é que corresponde o quê. Mas eu sou uma insensível, por isso não conto. Só com desenhos e imagens é que consigo perceber o que é suposto sentir aonde. ;)

Helena Bohnam Carter. Sim, ela dormiu com o realizador para conseguir o papel. Mas nós importamo-nos? Ná. Além de já ter dado provas anteriores dos seus dotes musicais (em A Noiva Cadáver, por exemplo), quem mais podia fazer da andrajosa Mrs. Lovett? E quem mais deixaria Burton andar aos beijos (um, pequeníssimo) com o melhor amigo? O tamanho dos seus seios oscila de plano para plano? Sim, estão enormes (não acredito que estou a escrever sobre isto), mas quando sabemos que no contraplano está Depp, quem é que presta atenção a eles?

Da primeira vez que vi, tenho de confessar que achei o final abrupto. Porque no fundo eu (e o resto do público, com um ‘oh’ colectivo) era capaz de ver mais umas 5, 6 horas daquilo. Da segunda vez, o final pareceu-me mais natural, o único possível (continuar seria possivelmente estragar), e como já sabia tudo o que ia acontecer, pude deliciar-se com a mestria técnica de Burton, que pode não ser gritante, mas não deixa de ser genial, claro, porque o senhor é um génio (estarei a repetir-me?).

Grandes momentos: o dueto ‘My Friends’, onde Todd se declara às suas navalhas enquanto Mrs. Lovett se declara a ele, o concurso com Pirelli (go go Sacha Baron Cohen), a epifania de Todd, o trio ‘Johanna’ com a aparentemente insignificante vagabunda a cantar city on fire!, e, não podemos esquecer o momento mais out da coisa, o By The Sea, com um acabrunhado Todd a aparentemente ceder aos avanços amorosos de Mrs. Lovett.

Momentos maus? Onde? Não me apercebi…





quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Atonement (2007), Joe Wright



Há muito, muito tempo que um trailler não me despertava tanta vontade de ver um filme. Compreenda-se: a música de Dario Marianelli deixa qualquer ser com um pingo de sensibilidade artística completamente hipnotizado. O uso da máquina de escrever como instrumento musical… Isto numa música deliciosamente tonal, mas que roça o wagneriano em alguns momentos… Mais, a fotografia belíssima que o trailler deixa entrever, as cores, a patine discreta da imagem (sim, Joe Wright nasceu para fazer adaptações Jane Austen e afins, e desde quando é que isso é uma coisa má? Ele reinventou o filme de época, temos de dizê-lo sem vergonhas).

Ora, apesar de tudo o trailler diz muito pouco do filme. What? Sim, muito pouco mesmo. Mais: engana-nos. Ilude-nos. Intriga-nos, supostamente responde-nos, mas afinal dá-nos a volta que nem uns tolinhos.

História? Briony, miúda de 12 anos, surpreende umas interacções românticas entre a irmã Cecília e Robbie, o filho quase médico da governanta – e sua paixão platónica, acrescente-se. Por despeito, por vingança, ou por má interpretação, mete Robbie num belíssimo sarilho, que irá separar Cee do seu amor durante muito, muito tempo, destruindo qualquer possibilidade de felicidade para os três. Porque a cabra ingénua que é Briony resolve estragar também a sua vida em consideração para com a irmã. E depois a guerra. E depois o reencontro, a hora da verdade. E depois… o livro.

Atonement é muito mais que uma história de amor. É uma meditação profunda sobre o que significa o arrependimento e – como é que os idiotas dos críticos portugueses permanecem cegos para algo tão gritante – uma reflexão artística sobre os limites morais da ficção. E se podemos achar que, inicialmente, a opção em dar-nos a ver o ponto de vista de Briony primeiro, depois o que realmente se passou, é um pouco, como dizer, ‘piroso’, quando chegamos ao fim percebemos que devíamos ter mais cuidado com os pontos de vista que nos atiram para os olhos.

Há quem acuse o filme de estar bem filmado demais, o que me dá uma vontade imensa de rir. Que raio de critério é esse? Wtf? E comparar aquele que estou certa se tornará um marco na história do cinema, nem que tenha de ser eu a escrevê-la (já era tempo de uma mulher se propor a isso, para vingar injustiças com géneros ditos menores por uma cambada de estudiosos falocântricos e patriarcais) a um ‘telefilme’ – João Lopes, mas que raio de coisa. Um telefilme é uma coisa assim tão asqueirosa (e digo que não concordo mesmo nada com a comparação, apenas saída de um preconceito enorme para as adaptações de ‘romances’ com protagonistas mulheres, sobretudo)? Bem filmado demais? Exibicionismo técnico? Jorge Sauron Mourinha aposta nesta linha. Hum… ter-se-á enganado na sala e ido ver o Elizabeth II? Isso sim é exibicionismo técnico – mesmo que queiramos só estamos a ver a câmara a mexer, mexer, mexer, olhem que bem que mexo a câmara. Agora a técnica de Atonement – primeiro, nem é assim tão gritante, se exceptuarmos o plano-sequência na praia de Dunkirk. Depois, toda a técnica é justificável pelas exigências narrativas. Eu sei que em Portugal há um certo analfabetismo voluntário das técnicas narrativas hollywoodescas tidas como ‘o Demo, Senhor dos Infernos da Ilusão Cinematográfica e do Entretenimento’, mas noutros países, a câmara funciona como se fosse, digamos, uma caneta, que adjectiva e faz metáforas com a imagem. Oh, entramos no filme, que está belíssimamente construído, banda sonora soberba, imagem linda, linda, linda, e não bocejamos uma única vez, nem olhamos para o relógio. Credo, deve ser terrivelmente mainstream e apelativo às massas incultas! Vamos exorcizá-lo com uma bolinha preta e chamá-lo de piroso! Vade Retro cinema que ganha globos de ouro!

Uf!

(lady sara c, defensora dos filmes em que apenas o tempo provará que até tenho razão algumas vezes)

De novo ao filme. Mais uma vez, obrigada a falar da banda sonora. A interligação do som diegético com a música de Marianelli parece-me um dos mais perfeitos até hoje realizados. Quanto ao tal plano-sequência de tal forma genial que ninguém consegue atacá-lo directamente, preferindo dizer que nem parece do filme, foi inserido a martelo – deuses, são uns 5 minutos de Steadycam a levar-nos por entre um cenário desolador, queriam que continuassem os tons amarelos, e as coisinhas bonitas? Seria ridículo. (mais uma vez no plano-sequência se vê o poder da banda sonora, quando nos aproximamos dos soldados a cantar em direcção ao mar)

Actores: palmas para as três intérpretes de Briony, uma personagem poderosíssima, sobretudo na sua versão infantil (Redgrave destoa um bocado das três, mas perdoamos-lhe porque 1º é uma excelente actriz, e não desilude 2º, dá-nos a Briony verdadeira. Keira Knightley estranhamente sensual no seu vestido verde, ar snob e sotaque, bastante bem (o que é perigoso, porque podem pensar que ela só sabe fazer este tipo de personagens feministas q.b.); James McCavoy, hum, mudança extrema entre o despreocupado Robbie e o soldado demente (assustador neste momento); verdadeiramente detestável e por isso promissora rapariguinha que interpreta Lola, a prima do Norte.

Por fim, falemos do realizador. Quem viu o filme anterior, Orgulho e Preconceito, sentiu que estava ali qualquer coisa, mas que ainda raspava muito à superfície, muito comedido, pouco ousado (é que nem um beijito durante o filme todo), e tirando Knightley, todos pareciam figuritas de cartão. Agora… agora estamos perante uma Gesamtkunstwerke. Será Wright uma reencarnação de Wagner? Será que alguém vai ter vontade de invadir a Polónia no fim de ouvir Marianelli?

De vontades, só de esperar ansiosamente o próximo filme do senhor. E afirmar aos quatro ventos que estamos perante um clássico. E lembrar aos senhores críticos que E Tudo o Vento Levou tem muito mais de telefilme que este, duh, e nada o impede de ser bom na mesma. Frankly, my dears… f*uck them.