sábado, junho 27, 2009

Lat den rätte komma in (2009), Thomas Alfredson

Foi há muito, muito tempo que fui ver este filme ao cinema. 9 libras da minha vida (mais ou menos). E posso dizer que me lembro da coisa como se tivesse sido ontem. As imagens bem fortes de Alfredson arranjaram maneira de ficarem gravadas na minha mente durante... sete meses?

Sim, mais um filme de vampiros. Mas este é bem diferente de Crepúsculo.Muito, muito diferente. Terrivelmente diferente. Primeiro que tudo, é um filme europeu. Compassado. Com um uso da neve da fria Suécia exímio, quase que sentimos o frio sentados na audiência. Depois, os seus dois actores principais, Kare Hedebrant como o bullied Oskar e a incrível, inesquecivel, quero-trabalhar-com-ela, olhar impressivo Lina Leandersson como Eli, o estranho vampiro que mora na porta ao lado. Ou vampira.

Há muita pouca conversa durante todo o filme, pequenos momentos de construção dramática impressiva (o significado do cubo de Rubik, os pequenos actos de Oskar) e alguns efeitos especiais que, embora raros, impressionam vivamente por irromperem num mundo aparentemente tão normal apesar de sombrio - lembro especialmente a cena em que a cama de uma recém-vampira se incendeia com a luz do sol.

A direcção de fotografia é de babar durante toda a duração do filme, os planos com espelhos geniais ao ponto de terem sido o meu tema de conversa com um fellow filmmaker durante os 15 minutos imediatos a termos acabado de ver a coisa, a maneira sóbria de filmagens - que atinge quase um orgasmo na cena final na piscina - só mostra que estamos claramente perante um realizador de respeito, sem explosões nem purpurina, e que claramente sabe contar histórias que nos atingem com uma veemência inesperada, diria eu. Eu faço questão de estar na sala no próximo filme deste senhor, sem sombra de dúvida.

E a música... a música é daquelas coisas que me faz estar grata por ter assistido a isto numa sala de cinema decente, com um bom som. O que Soderqvist faz com a banda sonora é visceral, parece brotar naturalmente da fria neve que vemos no ecrã. Sem nunca se sobrepor. O que é divinal.

A história provoca discussões, tem um final aberto, há tanta interpretação como pessoas. Passeando-me por fóruns deparo-me com coisas que nunca tinha pensado. Eu vejo o filme como uma estranha história de amor. Há quem o veja como uma amizade, uma metáfora, um novo caminho para o género de filmes de vampiros. Só há um consenso: este filme conseguiu um lugar na prateleira dos clássicos. Sem espetar dentes no pescoço de ninguém.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Bedtime Stories (2008), Adam Shankman

Ai, as maravilhas de ver um feel-good movie, sem nos preocuparmos com teorias de auteur e a aplicação dos conceitos de Deleuze...

E como já vi este filme antes de ser conspurcada pela escola de cinema e jamais vou conseguir voltar a essa inocência, e porque preciso de despachar esta crítica para falar dos filmezecos que tenho visto no cinema nos últimos tempos (muito, muito poucos...), aqui vai a transcrição do que enviei para a cara e querida Take (www.take.com.pt). Bolas, também mereço um pouco de preguiça intelectual...

Corre um mito na História do Cinema que George Lucas disse um dia que, para impressionar audiências, bastava matar gatinhos frente à câmara. A fórmula mágica foi evoluindo e parece que se descobriu o método infalível de arrancar gargalhadas do público: põem-se animais com olhos esbugalhados frente à câmara. Bugsy – assim se chama o porquinho-da-índia que merecia um spin-off ou dois – pode nunca ser nomeado a melhor animal secundário, mas nada o impede de tentar dar o seu melhor e conseguir o que o franchise Qualquer Coisa Movie já não consegue há muito tempo: fazer-nos rir.


E para gáudio do espectador, há muito mais do que animais felpudos neste regresso de Adam Sandler ao que sabe fazer melhor – comédias familiares com um toque de feel-good. Há quanto tempo não era possível ver um filme do género que não tem todos os melhores momentos no trailer? Ou um filme da Disney sem uma canção final de gosto duvidoso, mas com um medley inesperado de grandes êxitos do rock?


Adam Shankman, com longa carreira como coreógrafo, oferece-nos aqui um filme de um ritmo perfeito com gags visuais de desenho animado (indo mesmo à lâmpada luminosa de ideia genial ou a um cavalo vermelho chamado… Ferrari), mas sem cair no irrealismo fácil destes. O modo original como as histórias proféticas dos sobrinhos de Skeeter se vão traduzindo para o mundo real é sempre inesperado mas perfeitamente explicável, e por isso tal como o protagonista suspendemos a respiração à espera do aparecimento de Abe Lincoln em carne e osso num momento (mais uma vez) frustrado de romance. Sandler consegue levar-nos com ele numa variação fantasiosa da história de Cinderela sem nos deixar duvidar uma única vez do que vemos, se bem que a introdução de Marty Bronson, pai de Skeeter, convidando-nos a entrar no estado de espírito ideal de quem vai ouvir uma bedtime story, faz maravilhas nesse aspecto. Já Guy Pierce, mais uma vez o vilão de serviço, impressiona mais nos seus alter-egos fantasiosos (destaque especial para o seu equivalente medieval) do que no ambicioso contemporâneo Kendall. Deliciosamente pontuados por cameos inesperados, desde Roy Schneider a Carmen Electra, os devaneios narrativos de Sandler conseguem também ironizar certas regras do género cinematográfico, sempre com um suposto olhar inocente e infantil...


Mas sim, estamos perante um orgulhosamente ‘disneyado’ filme no melhor sentido da expressão, um filme que consegue agradar a miúdos e graúdos e que futuramente será comprado pela televisão e passado até à exaustão ao sábado de tarde. Isso não retira contudo o prazer de o ver em grande formato. Aliás, em grande formato… os olhos de Bugsy são ainda maiores.

Agora sim... FILMES CONSPURCADOS PELO TECNICISMO!! YEHHH!!!

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Rachel Getting Married (2008), Jonathan Demme


O must-see indie desta ano (mais ou menos indie, não me chateiem com detalhes…), que falhou as nomeações para melhor filme por causa dos gays de São Francisco. Entre famílias disfuncionais e famílias alternativas, também eu, tal como a Academia, optaria pelas segundas.

Roberto Jonathan Demme, que por terrível coincidência faz anos este domingo (uns 140, para aí), não nos brindava com um filme desde The Manchurian Candidate. Digo, com um filme que aparecesse aqui por Portugal (o que não estreia na Lusomundo não existe realmente, até vocês devem saber disso. Os tais filmes giros que vocês julgam existir são apenas a velha conspiração americana a brincar com as nossas mentes, para nos deprimir e fazer consumir mais recursos naturais). Portanto, depois de quatro longos anos, Demme resolve dar-nos um pouco do seu jeito para o filme digital. Ohhhh. À mão, como convém a qualquer filme pós-Bourne que se preze (a maldade no meu tom é tão grande que até me saltou uma tecla do portátil. Muahahahahah.). Preenchendo a lacuna deixada pela morte de um tal John Cassavetes em 1989, quiçá comemorando os vinte anos da morte dele, eis que estamos perante uma personagem feminina que nada deve em perturbação à protagonista de A Woman Under the Influence, Mimi, Kiwi, Sissi? Mabel! Mabel, como é que não me lembrei antes…

Portanto, Kym (aqui interpretada por uma Anne Hathaway que até acho que merece mais o homenzinho nu que Winslet, mas pronto, a minha opinião nunca conta nada para aqueles anormais – no sentido fofinho da palavra, claro - da Academia…) está bastante perturbada com acontecimentos do passado, e volta a casa após uma reabilitação bastante penosa a tempo para o casamento da irmã ‘boa’, Rachel. É claro que tudo corre mal, com bastantes gritos e discussões e tentativas frustradas de suicídio (uma espécie de), e nós com tanto volteio de câmara julgamos que estamos no meio daquela coisa toda e começamos a pensar que a nossa família é tão, mas tão normal, graças aos deuses, e pronto, de repente acaba tudo como começou, indefinido, e nós damos por nós a pensar: “mas que fantástica banda sonora que este filme tem”, e “devia fazer um corte de cabelo como aquele”, e pronto, mais um check na lista de filmes a ver antes dos Óscares.

Deixando o sarcasmo de lado (isto do humor britânico está-me a atingir mais do que eu pensava), a narrativa do filme está muito bem estruturada (a guinista, Jenny, é filha de Sidney Lumet, por isso ai dela que desgraçasse a honra da família…) , o que conjugado com um estilo de filmagem mais livre dá-nos muito mais, ouso dizer, do que estaríamos à espera por aquele estranho trailer que andava a passar nos cinemas. A banda sonora, como acho que ficou subentendido algumas linhas atrás, é de comer e chorar por mais. Hathaway é uma força da natureza num papel que lembra muito Angelina Jolie em Girl, Interrupted (o que pode ser um bom indício para a actriz que começou carreira a fazer – lembram-se? – Diários de uma Princesa). Além do mais, é homónima da mulher de Shakespeare, e decerto que todas as feministas empedernidas (nas quais desta vez me excluo) sentirão um perverso prazer a ver uma Anne Hathaway a ser mundialmente reconhecida por alguma coisa (além de um par de...chifres literários...)

Já descambei outra vez… UUfff… Melhores momentos: todas as cenas em que Hathaway está, que felizmente são muitas; os discursos do ensaio do casamento; o delicioso que parece aquele bolo azul com um elefante; a música, mais uma vez, especialmente a versão rock da Marcha Nupcial; o momento em que Rachel dá banho a Kym…

Momentos um pouco menos uau: bem, por vezes parece mesmo, e apenas, um vídeo caseiro de uma festa de casamento muito atribulada…

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Happy-Go-Lucky (2008), Mike Leigh

Oh! What-chu-ma-call-it ding dang dilly dilly da da hoo hoo!

(não, a minha percepção de pronúncia londrina não é assim tão boa, fui apenas ao IMDB…)

Sim, um filme feliz, colorido e passado em Londres. Com uma protagonista deliciosa e excêntrica que se recusa a casar, ter filhos, fazer um empréstimo e comprar uma casa, ou vestir-se de uma maneira monocromática. Educadora de infância, trinta e tal anos, a aprender a conduzir pela primeira vez, sempre alegre e contente e tal. Oh, Poppy! We love You!!! Marry Me!!!

Ahhh… Mike Leigh, Mike Leigh… Eu sei que troquei o teu patronato pelo do Terry Gilliam, mas que se há-de fazer? Que tipo de realizador julgavas tu que eu pensava que eras quando vi o Vera Drake e o famosíssimo Secrets & Lies? Nunca pensei que o teu método – no script, please – pudesse resultar numa coisa tão… tão… tão alegre. Yehhh. Quero saltar de trampolim, saiam da frente.

(uma cama partida e muitos berros mais tarde)

Sim, Happy-Go-Lucky, seja lá como estiver traduzido em português que nem vou ver para não me chatear, é um óptimo filme para voltar a acreditar na vida. Ou para justificarmos a nós próprios a razão porque não queremos ser adultos e responsáveis. Ou porque sim. Sim, esta é claramente a melhor razão de todas. Porque sim.

Além do filme ser fenomenal quando o vemos tendo em mente que todo ele resultou de improvisos e muitos ensaios sem guião – o senhor Leigh é um senhor de actores, claramente -, a personagem de Poppy é tão inesquecível, tão naif e ao mesmo tempo tão perspicaz, que qualquer um de nós mais não pode do que se render aos seus pés com botas de pele de crocodilo. Não dá. Não conseguimos desviar o olhar de tanta alegria. Damos por nós a gostar muito de respirar e tal, e no fim do filme deitamos fora o suicide kit e os papéis do IRS.

A mistura de um estilo de realização clássico (isto não podia estar mais longe de J. Cassavetes, apesar do espaço ao Actor em detrimento do Guionista) com diálogos e actuações nascidos de pequenas indicações e sugestões dá uma frescura à representação, um je-ne-sais-quoi de realismo que nos devora por dentro e deixa-nos a querer comer chupa-chupas e viver em Londres. [i] Mesmo os grandes momentos dramáticos das aulas de condução (um bocadinho de menos qualidade, porque essas foram filmadas em vídeo – eu sabia! Yehehh para a –soon to be - expert em cinematografia), com a fascinante personagem de Scott, o instrutor de condução frustrado que supostamente odeia Poppy, mas… Pois, já estão a ver onde a coisa vai dar, certo? Ohhh, vocês são uns fofinhos.

Melhores momentos: todos, mas senti-me particularmente tocada pelo encontro de Poppy com Charles, no pub. Muito intenso, sentiam-se faíscas por todo o lado. Excelente direcção de actores. Os créditos iniciais. A música. O ‘drama’ com a irmã mais nova, grávida e com uma casa própria; todas as cenas filmadas em sítios onde eu estive (tão divertido reconhecer lojas onde entrei, sítios onde comi pizza, etc etc); a cor, as cenas na escola, o momento ‘pássaro’, as aulas de flamenco, o trampolim… Menos bons momentos? Alguns, mas a vida é mesmo assim, né? Pois. O que interessa é olhar sempre com bons olhos. Mirrors, signal, maneuver, En-ra-ha. En-ra-ha. Não esqueçam.
(En-ra-ha)
(EN-RA-HA!!!)

[i] é claro que nem tudo o que queremos podemos ter. Não posso comer chupa-chupas porque me fazem mal aos dentes… e Camden fica-me longe da escola…

terça-feira, fevereiro 17, 2009

The Reader (2009), Stephen Daldry


E directamente do senhor que nos fez chorar baba e ranho com miúdos que dançam ballet e seropositivos que se deixam cair de janelas abaixo, eis o filme relacionado com a Segunda Guerra Mundial nomeado deste ano. Com o Ralph Fiennes a fazer de alemão (falem-me de type casting….) A cores. Uau. Com um momento de passeata pelos campos de concentração ao jeito de documentação histórica.

Não interpretem mal o meu tom irónico/sarcástico/a armar ao engraçadinha (riscar o que não interessa). The Reader pode deixar os nossos mucos nojentos sossegados dentro de nós, mas isso não quer dizer que não seja espicaçante. Além de parecer um cardápio de ‘coisas complicadas demais para serem pensadas’, a saber relações entre mulheres de meia idade e rapazinhos de 15 anos, o direito e a moral, os crimes de guerra, a condenação simbólica, o sentido de justiça, etc etc etc , tem um elenco de peso – e isto não é uma piscadela de olho às belíssimas curvas da Kate Winslet – e uma história que, se não cometeram o erro de ler a sinopse no Sapo, consegue surpreender.

Uma reconstrução de época competente, com toda a história calmamente no background – a reconstrução de Berlim, por exemplo – e uma construção de cenários, nomeadamente interiores, brilhante (a pequena casinha da personagem de Hanna Schmidt, onde se passa o affair de Verão, com toda a sua pequenez íntima com um toque de perversidade – aquela banheira logo à entrada, meus deuses, genial…), que gosta de guiar o espectador na sua descoberta do twist mas sem fazer a papinha a ninguém; tudo é sugerido, mas nada explicitado. Quero dizer, ainda bem que não acharam necessário explicar que foi (SPOILER) por Hanna não saber ler que teve de recusar a promoção na Siemens e inscrever-se nas SS como guarda (END OF SPOILER). Mas o ainda melhor do filme é que, mesmo juntado esse 1+1=2, o comportamento dela continua injustificado. Podemos simpatizar com ela, é certo (afinal, é assim que a história está construída, para apesar de tudo simpatizarmos com ela, daí ser ela a principal vítima no final), mas há um travo amargo quando reparamos que ela tem mesmo culpa do que fez. Sim, há mais culpados, mas ela também o é.

É isso que é delicioso no filme. Hanna não é, de modo nenhum, redimida, a personagem partilhada pelo veterano Ralph Voldemort Fiennes e o novato David Cross, Michael Berg, muito menos (vamos lá, não foi propriamente querido dele deixar a tipa ir parar à prisão sabendo que ela não tinha feito aquilo que as outras diziam, e muito menos simpático não a visitar na prisão & ir buscá-la apenas para a pôr num lugar qualquer bem longe da vista), o que explica em parte um certo sentimento de indiferença final que nos atinge. Mas até aí, meus caros, turbilhão de emoções como qualquer filme nos deve provocar.

Grandes cenas? Para mim, sem dúvida, o primeiro banho de Michael, as cassetes enviadas religiosamente todas as semanas (a apontar na enorme e interminável lista de coisas a fazer um dia: ler a Odisseia), o passeio de bicicleta, o momento da revelação, o não perdão da sobrevivente, o velho Michael a levar a filha à campa de Hanna. Menos bom? Não há rapazes a dançar ballet nem seropositivos a cair de janelas. Nem vampiros. Nem justiça no mundo. Pois, mas isso já sabíamos…

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Slumdog Millionaire (2008), Danny Boyle



India, India, Índia… nos anos 60 a Meca dos Músicos, agora o must-go-and-shoot dos realizadores… Ah, a polémica, ah as nomeações, ah os globos de ouro, ah… o Óscar?

Faltam-me ver dois, mas acho que não. Mas é um claro caso de overrated? Não. É bonzinho? Mais que bonzinho, receio dizer. É muito bom mesmo. Não excelente, mas lá perto. E um feel-good movie, que é uma coisa cada vez mais rara. Senão vejamos os outro quatro nomeados – quantos deles acabam com o protagonista vivo e de bem com a vida? Pois.

Boyle começou muito antes de Meirelles a filmar o lado ‘negro’ das cidades, portanto não me venham com tretas. Ai é colorido demais? Glorifica a coisa? Exagera? É um filme que acaba com toda a gente a dançar na estação de comboio, não é propriamente Jean Rouch… E é sempre bom e reconfortante termos duas horas e tal da versão indiana de um concurso televisivo que até que gostamos, com o plus de não estarmos a olhar para o Jorge Gabriel a encher chouriços. Ou o Malato. Deuses, imaginem este filme com o Malato a apresentar o programa e, sei lá, um coitadinho jovem dos Morangos com Açúcar a fazer de slumdog… Ouch, espero que o senhor Alexandre Valente nunca leia estas linhas senão…

Mas voltando ao filme, narrativamente falando, está muito, muito bem feito. Temos os flashbacks do costume, explicações da suposta sabedoria do nosso amigo Jamal. Temos amor, temos dinheiro, temos a ambição do ‘irmão mau’, temos tiros, explosões, perseguições de carro, efeitos especiais, extraterrestres…. desculpem, nem por isso. Temos uma história certinha, sim, com tudo para resultar (ingredientes secretos incluídos), bons actores (ou deveria dizer boa direcção de actores, uma vez que muitos deles não tinham experiência prévia?), bom uso da música (nada a que não estejamos acostumados com Boyle), composições formais desniveladas (marca de autor e tal, muito bem, senhor professor), fotografia saturadíssima pelo senhor que já nos dera Dogville e a carta de apresentação do Dogme 95, Festen, - fixem o nome dele - Anthony Dod Mantle, mas deliciosa (sem chegar aos extremos coloridos de Darjeeling Limited), qualquer coisa de muitos filmes diferentes ao mesmo tempo que não conseguimos identificar tudo, e sim, Dev Patel que é tão bom que estou aqui a ver se arranjo a série em que participou, Skins, como se eu já não tivesse suficiente para ver no meu disco externo…

Grandes momentos: a queda no poço de mierda para conseguir um autógrafo (as grandes personagens de Boyle caem sempre dentro da sanita, literalmente), a nossa descoberta da love story inerente à coisa, o passar do tempo no comboio, a chegada ao Taj Mahjal, o miúdo cego que canta, todos os momentos dentro do programa, incluindo o momento confessional de casa de banho do apresentador (e mais não digo porque não me apetece escrever spoiler alert); a complexidade da personagem de Salim; o momento Bollywood final na estação de comboios.

Menos bom: aquilo ao início parece um excerto do ‘24’, a qualquer momento pode entrar o Jack Bauer por ali adentro; ou sou uma insensível (bastante provável) ou o filme – e o final, principalmente - não é assim tão comovente como me fizeram crer; será que é desta que um filme com um final feliz ganha o Óscar, ao fim de tanto tempo de filmes infelizes? Hum, pouco provável. E lado Bollywood poderia ser mais explorado, mas isto sou eu, que tenho um cd de músicas indianas de fundo enquanto escrevo isto.

Portanto, sim, original e diferente do que estamos habituados – parece-me que este é o indie substitute deste ano – mas, apesar de estar quase a meter as mãos no fogo que o Professor Boyle vai buscar a estatueta que eu ambiciono ter um dia por cima da lareira, não me parece que os produtores do filme tenham a sorte de subir ao palco… mas isto sou eu, que raramente acerto…

terça-feira, janeiro 27, 2009

Vicky Cristina Barcelona (2008), Woody Allen

intro: Barceloooonnaaaaaaa…. (voz do Freddy Mercury)…. Barceloooooonnnnaaaaaaa….

É sempre bom ir a uma antestreia, pensei eu enquanto me sentava numa cadeira partida no Dolce Vita. Pelo preço que os bilhetes estão, cinema à pala… nem que fosse o Rambo.

E pelos vistos foi mesmo bom ir ver o filme na antestreia, porque parece que, pouco tempo depois, a fita ardeu. Eu já tinha ouvido falar da ‘maldição de Woody Allen’, mas pensei que se estavam a referir a uma coisa bem diferente…

Portanto, depois de ver mais um filme do Allen em más condições – o filme não tinha começado há 5 minutos e caiu a imagem, acenderam-se as luzes, continuou depois, e de repente a meio do filme ficamos com a linha de vermelhos em extra saturação, durante uma boa meia-hora, e NINGUÉM REPARA[i] – que posso dizer eu? Bem, ainda bem que não estava em funções profissionais, primeiro; segundo, pagar 5 euros para ver uma fita a arder deve ser qualquer coisa, tens de me falar disso, Dário; terceiro, será que a ‘maldição Woody Allen’ - a outra – terminou? Hum…

Não é um Match Point – este filme grita ‘Wooooody!!!!!’ do início ao fim; tem qualquer coisa de Jules et Jim – triângulo amoroso, montagem livre, desfocagens, a voz irónica e distanciada do narrador –, com a vantagem de não ser falado em francês. Uhhhh…. Quem é o alter ego do realizador aqui? A personagem de Vicky, sem sombra nenhuma – a intelectual frustrada e neurótica. E há mesmo um género sobre americanos perdidos na imensidão cultural americana? As coisas que aprendo a ler o Público. Sim, este filme insere-se aí, sem sombra de dúvidas.

E se bem que Johansonn a fazer de rapariga insatisfeita com a vida e com pretensões artísticas, sempre em busca de mais e melhor[ii], e a ‘ ‘ com a sua vida certinha e aborrecida estão muito bem, o filme torna-se incrivelmente bom a partir do momento em que Bardem, com a sua camisa vermelha estrategicamente desabotoada e a sua personagem Juan Antonio estrategicamente desbocado, entra em cena. E quando julgávamos que a coisa não podia ser melhor, ao som da grande guitarra espanhola e tal, eis senão quando uma Penélope Cruz de jardineiras entra de rompante pela cena. Deuses, que mulher! Que furacão! Que grande pedaço lésbico de mim que se entusiasmou com aquelas pinceladas abstractas!

Além do velho cinismo de Woody sobre as relações amorosas, que desconfio ser o que mais adoro nele – afinal, estamos a falar de um tipo que tem uma relação amorosa com a ex-ENTEADA -, e o piscar de olhos a dois estilos de vida absolutamente opostos e que, afinal de contas, têm os dois os seus grandes e obtusos inconvenientes (falo das rapariguinhas americanas, claro, nada há de inconveniente em ser o senhor Bardem nesta altura do campeonato, ainda mais quando tem um penteado decente), temos também o rasar reflexivo sobre as relações amorosas entre artistas, e sobre a Arte Itself.

Melhores momentos: todos os com a Penélope Cruz, a voz irónica e distanciada do narrador, a original abordagem de Juan Antonio às duas raparigas, Cristina a vomitar nos preliminares, todo o trabalho de fotografia (digo, excepto a meia-hora estragada pelo projeccionista do Lusomundo Dolce Vita), o ménàge, o final que nada resolve, para variar.

Piores momentos não decorrentes da falta de pessoal tecnicamente qualificado nos grandes multiplexes dos nossos dias: não sei, não me lembro. Pode não ser uma obra prima, pode cheirar a Woody Allen a quilómetros de distância, mas afinal, foi com isso que eu fui a contar, claro. Alguma saudade de ver um dos piores actores de sempre (nas palavras do próprio) com os seus óculos e cabelo branco nos seus filmes. Parece que matou literalmente essa sua parte no Scoop, quando se estampou com aquele carro minúsculo… (ah, a beleza de conduzir pela esquerda…)

[i] é que ainda por cima foi a meio do filme a preto e branco, que se me varreu qual era, tal foi a minha raiva pelo que estava a acontecer…
[ii] e aqui entra o MEU alter-ego… he he he…

The Curious Case of Benjamin Button (2008), David Fincher


Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac… Nunca subestimem um filme com relógios.

Pessoalmente, gosto quando realizadores ficam seguros e quietos dentro das quatro paredes do seu estilo, do seu toque artístico pessoal ou das suas manias técnicas, como lhes queiram chamar. Torna muito mais fácil falar deles em trabalhos para a faculdade, por exemplo. E geralmente são esses mesmos realizadores, com marcas chamadas autorais, que ficam para a história e tal.

De vez em quando, eu e outros somos surpreendidos por autênticos Prison Breaks, uns mais exaltados do que outros. Veja-se, por exemplo, Coppola com Youth Without Youth (e abstenho-me de qualificar o filme); ou PT Anderson com There Will Be Blood (não, não vou mesmo fazer comentários maldosos); os Coen com o filme que lhes deu a estatueta, No Country For Old Men (likewise); Woody Allen com Match Point (Sam-Wise); e para acabar uma lista que, ao ser levada à exaustão, não cabia no Blogger, David Lynch e A Straight Story (dizem). Gostemos ou não do resultado destas fugas, o certo, meus caros amigos, é que – e tenho pena de não haver uma expressão igualmente forte que não fosse tão marcada de género, por causa das minhas futuras colegas – é preciso tomates. E Fincher lançou-se sobre o abismo com um filme que não tem nada (?) a ver com a sua obra anterior. Será que resultou?

Para mim, na minha estúpida opinião, sim. Ok, tem ecos de The Big Fish, além que o trabalho de maquilhagem é tão assustadoramente bom que parece que estamos a todo o momento à espera que apareça o Gollum a dizer para o Brad Pitt my precioussssss. E embora pareça ter a ver com a história do último filme do Coppola, não tem nada a ver. Esta história é muito mais fatal, mais emotiva, mais forte.

Primeiro que tudo, todo o production design, a sensação que temos de ir ouvir uma história, a imitação de filmes antigos, a banda sonora fortemente evocativa, o passar ligeiro pela história americana. Depois, Brad Pitt a convencer-nos que é um ser singular, velho e de cadeira de rodas e tal. Quando Blanchett aparece no papel de bailarina promíscua (aliás, já estávamos extasiados pelo aparecimento dela como moribunda), ficamos sem palavras. As cenas de dança são de uma beleza que nunca suspeitaríamos serem gravadas na câmara de um tipo que nos deu a crueza do mundo moderno. Todo o filme é tão poético, tão fairy-tale, que nem nos chateamos com a ‘grande revelação’ à filha de Daisy (Blanchett). Nem com a evocação do furacão de Nova Orleães, que funciona um bocado como Titanic – já sabemos o que vai acontecer no fim mas, mesmo assim, ficamos impressionados quando acontece.

E se a coisa, para alguns, não funciona, para quem se deixa levar – se bem que com as expectativas a voar muito mais alto do que o filme em si – dá por si com a lagrimazinha ao canto do olho nos quinze minutos finais.

Grandes momentos: os créditos com botões, a história do relógio que anda para trás, a ‘cura’ na igreja, o funeral da cantora de ópera, a dança de Daisy no coreto, os flashbacks do homem que fora atingido por relâmpagos ‘sete vezes’ (e esperemos que este humor macabro de Fincher nunca desapareça), a breve história de amor entre Pitt e Tilda Swinton na Rússia, o momento do acidente de Daisy a evocar um bocado o Run Lola Run, os anos sessenta e finalmente a relação Daisy/Benjamin, o aparecimento de Benjamin como um miúdo cheio de acne e demente, o bebé Benjamin, o epílogo, etc etc etc.

Momentos menos bons: Hum, talvez nalgumas partes ainda seja um pouco ‘frio’ – o que torna o filme, numa analogia genial, super culta e esfomeada que me lembrei agora, um pouco como um semifrio coberto de chocolate quente – o que desliga as pessoas da coisa por segundos preciosos, e sem dúvida que, pelo trailer e hype à volta, esperávamos uma coisa mais poderosa, mas mesmo assim, quem não for ver este filme decerto arderá no inferno dos maus cinéfilos. Talvez. Um bom clássico futuro, sem dúvida nenhuma. Por mim, por toda a minha falta de consideração por valores estéticos e cinéfilos e etc, adorei adorei adorei.

NOTA: Lembram-se do elogio que fiz à Lusomundo por deixar de passar quantidades ridículas de publicidade desactualizada e pôr só trailers? Esqueçam.


POST-NOMEAÇÕES: Bem, 13. Uau. Será que posso não ser uma boa crítica, mas estou mesmo lá com a mentalidade da Academia? Hum...

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Changeling (2008), Clint Eastwood


E a época de caça aos Óscares está oficialmente aberta! Saquem das espingardas para acertar no vosso realizador desfavorito e na banda sonora mais irritante de sempre!

Não, não é este. Tive esperança que fosse este o filme irritante deste ano, mas não. Bolas. E eu que até tenho uma implicação com Mr. Eastwood desde que ele realizou aquela coisa sobrevalorizada chamada Million Dollar Baby. Implicação não. Digamos arrufo. Acrescente-se que este é um senhor do cânone, e eu não gosto de pensar em mim como alguém que acende velas e faz oferendas ao cânone…

Anyway…

O filme da Angelina Jolie, como é conhecido entre os meios menos cinéfilos, fala de uma criança desaparecida. E de um departamento de polícia que encontra a criança… errada. E assim, Christine Collins aka maiores lábios pintados de vermelho que alguma vez tivemos oportunidade de ver no grande ecrã, empreende uma luta para ter o seu filho verdadeiro de volta, luta essa que passará por várias cenas bastante, hum, jolies (IRONY AND PUNWORD ALLERT!), passadas em manicómios, galinheiros, forcas e, alas, os tribunais. Já disse que é passado em Los Angeles dos anos 20, com o toquezinho de época? Já disse que foi Mr. Eastwood que compôs a música himself (e não, não é irritante)? E que, apesar de ter o John Malkovich a dar apoio a Jolie, não há romance, nem beijo, nem, meus caros quatro leitores, UMA ÚNICA CENA DE SEXO?

E não é que o filme é muito bom?

Primeiro, a menina Jolie está quase irreconhecível (lábios aparte), magrérrima (ela teve mesmo gémeos????), e toda a sua atitude está tão “dêem-me o Óscar que eu mereço”, que embora ainda tenha de ver as outras meninas e tal, vou ficar com pena se ela for de mãos a abanar para casa. Há um único momento onde todos nós podemos ter a certeza que é a Angelina Jolie e não um clone mortiço e com excelente jeito para a representação que está à nossa frente: no manicómio, quando ela se vira para o médico e diz esta magnífica frase que irá ficar para a História do Cinema com C grande: Fuck you and the horse you rode on. Genial.

Depois, duvido que tenha havido alguém na sala que tenha ficado aquela cena de uma brutalidade de bradar aos céus, nos galinheiros do rancho. E isto nem o filme ia a meio (nota: finalmente uma boa razão para os intervalos existirem: sabemos quando o filme vai a meio). A maneira como foi filmada – não vemos tudo, apenas excertos – torna a coisa muito, mas muito mais chocante se víssemos mesmo o maníaco em plena acção. O ter posto o miúdo de 15 anos como cúmplice praticante, então… deuses. Demasiado murro no estômago.

E assim Mr. Eastwood vai brincando com a nossa expectativa até ao fim, dando-nos uma chapada na cara de vez em quando, um murro no estômago aqui e ali, e se por um lado estamos todos desertinhos para um tension release – i.e., que o raio do miúdo apareça, isto até um certo ponto, e depois se o raio do miúdo morreu ou não no rancho -, e todos queremos um final feliz, no fundo no fundo, por outro lado – e começa aqui o SPOILER ALLERT – se ele tivesse mesmo aparecido o filme teria sido uma merda. A sério. Porque assim era como se tudo tivesse perdido subitamente o sentido. A luta, e tal. E fazer festinhas em nós depois de tanta pancada… ná.

END OF SPOILERS ALLERT.

Fotografia, ouch. Reconstrução de época, uau. Bom pormenor, o dos eléctricos. Roupa dos anos 20, check. Afirmações muito interessantes sobre o papel das mulheres na altura, a polícia, a ideia de justiça, etc etc. Música, fica no ouvido, cumpre a missão, está aprovado, Mr. Eastwood. E, no fim de tudo, como se não bastasse, based on a true story. O tipo jogou a artilharia toda, não haja dúvidas. Hum, isto vai ser renhido…

Mas sim, um filme bastante impressionante, e so far – não desdenhando do ‘Austrália’, que é poderoso mas não na mesma linha – o melhor filme que vi no cinema este ano. Ah e tal, ainda só fui ao cinema duas vezes e estamos em Janeiro. E eu digo, ………. E depois?

PP. Este quase de certeza que vai fazer parte da lista de nomeados. Também ponho o meu dinheiro virtual inexistente no filme do Boyle e do Sam Mendes. Tenho quase a certeza, embora ainda não tenha visto mais nenhum dos runners, que o meu preferido é capaz de ser outro que não este, mas de qualquer maneira… (ou então não…) Duh, claro que sim. Claro que, a não ser que o Revolutionary Road seja UAU, vou estar a torcer pelo senhor Fincher. Esse sim, o meu estilo de filme e realizador.

(e não é que a Lusomundo, depois de ter feito o horror de aumentar o preço dos bilhetes, deixou de passar publicidade idiota antes dos filmes e só passa trailers? Será possível? Irá durar????)

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Australia (2008), Baz Luhrmann



É claaaaaro que alguém como eu tinha de ir ver este filme. O cheiro a epic chick flick era inebriante. E, mes amis, estamos a falar do Hugh Jackman. A cavalo. Com a camisola molhada. Coisas dessas não acontecem todos os dias. E mais, estamos a falar de um dos poucos realizadores dos quais eu vi a obra completa. Sim, os três filmes anteriores. Inteirinhos. Isto hoje pode não contar muito, mas daqui a 40 anos, quando ele tiver feito mais uns vinte ou trinta… ah pois é.

E passemos à parte irritante e desnecessária onde eu exibo os meus conhecimentos cinéfilos. Sim, o Senhor Luhrmann é um excêntrico. Sim, o Senhor Luhrmann é um megalómano. Sim, o Senhor Luhrmann tem um estilo tão distintivo que aposto que até os vídeos caseiros que ele faz dos seus filhinhos se devem topar a léguas. E sim, para quem veio à procura de um quarto volume na Red Curtain Trilogy ficou desapontado. Mister Luhrmann is no Douglas Adams, oh no. Mas Mister Luhrmann sabe o que faz. E poucos terão o descaramento de o fazer tão à grande como ele. E é tão inspirador ver um realizador jovem, australiano e bem parecido a lançar-se sobre o abismo com tanta confiança… que parece que todos torcem para que ele parta a câmara de vez. Porquê, porquê, porquê? Mauzinhos que vocês são, críticos maldosos do Mister Luhrmann…

Se vejo Mr. Emmerich como o sucessor endinheirado e talentoso de Ed Wood, tenho forçosamente de ver em Mr. Luhrmann um… hum… um Cecil B. Demille meets MTV. Para aí. Claramente.

Vejamos agora o filme com os olhos educados e super-analíticos de quem está prestes a entrar numa escola de cinema, e acabou mesmo ontem de ler o See Your Film Before You Shoot. Hum. Mr. Luhrmann claramente apontou para o épico emocionalmente estafante, senão vejamos:

- começa o filme ligeirinho, com a introdução da fofura que a personagem de Nullah, o ‘creamy’, é. Kidman aqui mais não é que uma caricatura de inglesa mimada (deuses, dêem-lhe um Óscar só pela sequência dos ‘kangoroos! They’re jumping! Look! They’re… AGAHAAHAHAHAH’), Jackman faz de homem sujo e vivido, Carnay, o rêi du Gádu (em brasileiro no original), o antagonista suprasumo, Fletcher, o pau-mandado sem um pingo de piedade ou vergonha. Até que…

…o filme vira de uma luta pela independência para uma história de amori e racismo…

… Fletcher surge como verdadeiro antagonista (deuses, a personagem é mesmo unidimensional, a encarnação do mal até aos últimos momentos)…

… o homem forte da coisa zarpa rumo ao pôr-do-sol e a mulher frágil põe tudo em jogo pelo seu instinto maternal…

…chega o momento Pearl Arbour que todo o realizador deve meter no currículo pelo menos uma vez na vida….

… reencontram-se todos, salvos e sem tragic flaws, e o filme ‘acaba’…

… o respeito pelos aborígenes vence tudo, até as mães galinhas, e acaba o filme, desta vez a sério.

Ora bem… porque é que o filme irrita tanta gente? Por ser longo? Não me venham com tretas. Nem chega às três horas E não tinha como único motivo de interesse o Daniel Day-Lewis oleado a berrar de um lado para o outro… Por ter momentos assumidamente e orgulhosamente ridículos (aka momentos de evocação Wizard of Oz?) Hum… claro que carros a transformarem-se em robots e a lutarem contra o mal NADA TÊM DE RIDÍCULO…

O que irrita as pessoas, acho eu do alto da minha insignificância (e convém despachar que isto já está a ficar grande e nem sequer mandei as chalaças do costume ainda) é que é um filme EMOTIVO. Ou seja, é um daqueles filmes para ir, viver a coisa deixando o lado intelectualóide de fora, e CHORAR. Tipo, sim, Gone With the Wind. Duh. Claro que se é um filme emotivo feito antes dos anos 50, é genial, é um clássico, é arrebatador. Se é algo recente, buuuhhh.

Duh.

Não digo que o filme seja, uau, é o MELHOR FILME DE SEMPRE!!![i] Não. Mas é bastante bom. Bom, ponto. E a embirração com a Kidman, donde é que veio isso? Deuses…

Pontos altos: a fotografia à la Luhrmann (que parece saída de um livro de fotos do século XIX e, no entanto, com uma atenção à cor…), a edição estilosa da senhora Dodi Dorn (que copiou uma ideia da antiga colaboradora de Luhrmann, Jill Bilcock, para a cena de sexo… não digo qual porque também tenciono inspirar-me livremente na coisa para uma curtazinha que está a ser editada de momento…), a emoção despudorada, Brandon Walters como Nullah, as sequências open field, a cena dos cangurus (fica para a história do cinema…), o romance, vá lá, as canções aborígenes, os ‘quatro’ finais diferentes, cada um a puxar mais e mais o elástico do espectador e os canais lacrimais…

Pontos, digamos, um bocadinho mais baixos: a evocação descarada do filme Pearl Arbour (se bem que, pensando nisso, será possível fazer uma cena do género de outra maneira?), a linearidade da personagem de Fletcher, o momento ‘disney’ com a canção do genérico final…

Resumindo e complicando: for the next movie, Mister Luhrmann, save me a chair, please. :D

[i] Porque será que me vêm à cabeça as imagens sobrevalorizadas de poços de petróleo à cabeça sempre que digo isto? Hum…

terça-feira, dezembro 16, 2008

Bolt 3D (2008), Byron Howard & Chris Williams


Hum, esta coisa do regresso do 3D ainda não me convenceu, não… vocês imaginam o aborrecido que é para uma caixa de óculos como eu ter de pôr mais um par de lunetas por cima daquelas de que depende para ver alguma coisa além de um ambiente impressionista? E quando está uma dedada numa lente, nunca saber em qual delas é? Argh…
Lassie meets Truman Show. Infelizmente o conceito não fui eu que o descobri (isto de ler críticas antes de fazer o meu comentário tem esses inconvenientes plagiariais), mas define bem aquilo que fui ver. Yah, os tipos da Disney aprenderam a mexer em computadores! E pediram ajuda a alguém da Pixar para lhes orientar umas dicas. Consta. E o que é que resultou?
Um conceito bem interessante. Um filme bom (mas só bom, não ‘bastante bom’, nem ‘bonzito’, nem ‘yah, passa’), que não sei até que ponto seria melhor se visse a versão original, sem óculos especiais (tenho de confessar que, so far, até gosto bastante da dobragem portuguesa de filmes de animação, QUANDO NÃO SÃO OS SIMPSONS, claro). Personagem preferida para mim? Os pombos. Os pombos são geniais, e não me importava de os ter ao meu lado como conselheiros de carreira. Aliens. Brutal. O hamster Rhino não é tão fofinho como o meu arquétipo de hamster
[i], e a hiperactividade é um bocado irritante, mas passa. A gata anoréctica é um bocado estereótipo, não? (não deixa de ter piada puxar o conceito para um filme de animação onde tudo, por norma, é estereótipo…). O cão, protagonista, Bolt, tem mais piada como cão normal do que como superherói. É suposto? Se calhar. A miúda parece-se com uma das personagens do Ratatuille. Coincidência? Sabe-se lá…
História, história, história… comovente, previsível, filme para miúdos que não passa assim tão bem para um público mais adulto, quando mais para um projecto de adulto obcecado com vampiros como eu. A música (aka tema principal a la Disney) dificilmente poderia ser mais irritante. Seria o 3D necessário? Não. Definitivamente não. Pelo menos desta vez não tive de pagar o extra pelos óculos (adoro quando me convidam para ser a segunda pessoa dos convites para antestreias… faz-me sentir… vipe.). Melhor filme da Disney de há muito tempo? Deuses, espero que eles não estejam assim tão mal…
Bons momentos: todos onde estavam os pombos; as sequências de acção iniciais (se bem que se não tivesse com a porcaria dos óculos era capaz de gostar mais); a sequência ‘aprender a ser cão’; os cães do canil a dizerem ‘bola?’; a perche (eu e a Kel desatámos a rir, ninguém percebeu porquê
[ii]); o feel good do filme; e é tudo. Também gostei bastante do intervalo, quando o Edward se vai matar pela Bella, mas isso não estava no filme e as luzes apagaram-se e não pude ler mais…
Momentos ridócules: a música (argh); o incêndio final (duh); os créditos finais (agora tudo que é filme de animação imita o Wall-e nisso, é?); o 3D; o miúdo da fila de trás que não se calava com perguntas idiotas; os estereótipos da gata e do agente…
Hum, rói-se, mas entre ver o Bolt e aturar o Dumas prefiro este último… menos previsível… E tem dentinhos afiados…. :D




[i] Pessoas que convivem comigo decerto sabem do que estou a falar. Parem de rir…
[ii] ‘Lena, há uma perche entre nós…’. Desculpem, hoje estou toda private jokes…

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Twilight (2008), Catherine Hardwicke


Vampiros! Vampiros! Vampiros!
Claramente, tenho de ir mais vezes ao cinema à espera de ficar desiludida, porque sempre que vou com esperança de viver umas duas horas e tal bem passadas (a não ser que estejamos a falar de um filme do Clive Owen, claro), venho para casa a gemer o dinheiro do bilhete.
E estava mesmo certa que não ia gostar da coisa. Primeiro, tenho a banda sonora há mais de um mês e ao ouvi-la lembrava-me daquelas compilações Now 26 ou assim. O cheiro a teen flick, ok, mais teenage chick flick topava-se a léguas de distância da coisa. Depois, filmes de fantasia é tão raro serem bons, ainda mais filmes de fantasia baseados num best-seller. Quer dizer, basta olharem para os Harry Potters (à excepção daquele onde o senhor Cuáron meteu as talentosas mãos). E eu sei que os livros são bons, acreditem. Mantiveram-me a viver um hype durante vários anos, eu que gosto de ver em mim uma underground.
Sim, estou numa fase de vampiros, mas é uma coisa muito mais devida ao True Blood do que, digamos, ao Moonlight. E os cartazes e trailers que via apontavam todos na direcção deste último. That is to say, oh, uma humana que gosta de um vampiro, e ninguém sabe que é um vampiro, e tal, e romance e beijinhos românticos e coiso.
[i] E digamos que o facto de ter um tal de Robert Pattinson a fazer de vampiro-mor (aka Edward), ele, uma cara bonita que se passeou durante um Harry Potter só para morrer no fim, era extremamente suspeito. Tudo parecia montado para fazer um esquema de filme de Natal, para obrigar os milhões que leram os livros (eu não me incluo no grupo, já que me recusei inconscientemente a ler as coisas ou mesmo a saber do que se tratava, numa de underground birrenta).
Arrastei-me então para o Fórum a pé debaixo de chuva torrencial no dia de estreia para ver a sessão da meia-noite e despachar a coisa (sim, porque ficar de fora de um hype literário é uma coisa, não ver o blockbuster do momento é outra…), e se bem que estava até de bom humor depois de ver o saldo da minha conta, sentei o meu crescente rabo na cadeira azul à espera de me aborrecer um bocado com os clichés vampirísticos e o amori adolescenti e tal. A excitação que estava à minha volta na sala (não cheia, mas bastante razoável para a hora e clima), onde tudo falava dos livros (eu e a Kel sentimo-nos nesse momento não undergrounds mas ignorantes), parecia indicar um déjà-vu do meu visionamento cinematográfico do Tróia (onde as duas raparigas atrás de mim passaram o filme todo a comentar os corpanzis do Pitt e Bloom…)
Começam os créditos (depois de muita publicidade e poucos trailers, como sempre), recosto-me na cadeira, abstraio-me do cheiro a pipocas e concentro-me que nem uma aluna de cinema bem educada. E ao intervalo já tomei a decisão de acordar no dia seguinte – quero dizer, dali a umas horas – para ir comprar o livro. Mensagens subliminares? Não sei. Só sabia que a história estava a ser fantástica, o filme bem feito nas horas (fotografia divinal), os actores tão mais do que caras bonitas, e até a música, discretíssima, me estava a cair bem. No final reforcei a minha ideia de ir comprar a coisa TODA, já que os restantes espectadores, especialmente as raparigas, estavam um bocado desiludidas com o filme que não chegava aos pés do livro.
E A CRÍTICA PROPRIAMENTE DITA DO FILME COMEÇA AQUI.
Não querendo estragar a surpresa aos 5% da população mundial que ainda não leram o livro, mas a história é tão mais interessante do que seria de esperar no género… Bella é uma personagem feminina forte (tão raro acontecer), independente, um bocado desastrada e com um óptimo gosto para rapazes. Edward é um vampiro (mas só o vamos saber de certeza na segunda parte do filme), rude, que tem uma grande dificuldade em articular palavras, que não sabe se quer mais morder o pescoço de Bella ou dar-lhe um beijo (no fim do filme continua sem saber), um corredor nato e leitor de pensamentos (qual Sookie Stackhouse qual quê); passeiam-se por lá mais alguns vampiros (a família adoptiva de Edward, todos lindíssimos e jovens) e, claro, os humanos aborrecidos do costume. Também há uns índios, que vivem numa reserva perto – La Push – e são, segundo as lendas, descendentes de lobos e inimigos mortais dos cold ones (isto vai dar história para a frente, de certeza). Acrescente-se que os novos colegas masculinos de Bella ficaram louquíssimos com ela, e tal.
Aspectos tremendamente positivos: fotografia lindíssima, realização de mestre, boa adaptação
[ii], bons actores, música adequada (Bella’s Lullaby, principalmente, que é o leitmotiv da coisa), não resvala para o teen pic nem sei muito bem como, vampiros que não mostram os dentinhos nem se desfazem em cinza. Também muito bom o momento em que eles vão para a floresta, o jogo de basebol, toda a questão original amor/ódio, a reprodução da capa do livro…
Aspectos menos positivos: hum, tal como a mim, a origem do filme pode assustar um bocado as coisas. Além disso, percebo agora porque é que os leitores de Meyer se podem sentir desiludidos com a coisa: afinal, o livro é riquíssimo em detalhes e nuances, coisas que o filme não pode, pelo seu tempo reduzido, reproduzir na íntegra.
Sim, claramente um óptimo cruzamento romance/sobrenatural, à lá Anne Rice. E pronto, tenho de acabar por agora porque quero comprar o segundo livro… muahahahahah. :D

[i] Para quem não sabe (já tinham saudades das notas de rodapé, não tinham? :d ), True Blood é muito mais na linha: f*de-me com força, seu vampiro charmoso, ostracizado e mauzinho que mata pessoas)
[ii] Sim, entretanto, no espaço entre uma linha e outra acabei de ler o livro. Muahahahaha.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Ensaio Sobre a Cegueira (2008), Fernando Meirelles

Estou seriamente a pensar em consultar um psiquiatra de bloguistas ou assim, porque quando alguém como eu começa a concordar com os críticos do Público algo se passa. Algo de muito, muito mau.

Este é daqueles filmes dos quais estou à espera há muito, muito tempo e pelo qual tinha uma muito, muito grande expectativa. Primeiro, um filme do Meirelles, aqueles senhor brasileiro que consegue que eu aprecie filmes de géneros que nem são lá muito o meu cup of tea. Depois, uma adaptação de um dos meus escritores preferidos (e, há uns anos atrás, o meu único escritor vivo preferido…). Por fim, um livro que eu sempre quis ver no grande ecrã, e julgava que nunca, por causa do ‘pé atrás’ do senhor Saramago em relação às adaptações das suas obras, algo acentuado ainda mais depois daquela… coisa… chamada Jangada de Pedra…

O que acontece é que fui para o cinema com uma enorme vontade de gostar, adorar, amar, rebolar-me no chão, fazer altares, destruir carreiras, gritar alto e bom som que o filme, afinal, era MUITO BOM e não, ‘ya, come-se’, como toda a gente parecia dizer por aí. E tal como li no Público, acho que o Jorge Mourinha ou assim, senti que me via obrigada a tomar lugar na outra barricada, porque o filme não é assim tão bom. O que é estranho é que as pessoas que foram comigo sentiram-se bem impressionadas com o filme, e até vi um casal a sair mal-disposto durante a famosa cena de violação (será que se pode chamar cena de violação a um ecrã quase negro?). Será que o problema é meu, por ter lido o livro antes? Provável. Raramente me impressiono com uma adaptação fílmica quando já conheço o livro – The Handmaid’s Tale, Brave New World, Harry Potters… mesmo quando não gosto assim grande espingarda do livro, como no caso do The Da Vinci Code, a sensação é a mesma: muita coisa tirada que era importante, o filme de certo modo é mais leve, ou mais pesado, ou insiste numa linha que eu, numa visão completamente subjectiva e pessoal de leitora, não considero que seja a mais relevante. A única deliciosa excepção a isso é Perfume: The Story of A Murder, do Tykwer, mas com este senhor a minha opinião pode não ser considerada válida, porque eu o Amo Profundamente e Quero Ter Filhos Dele (e fazer filmes também).

Continuando, o que é que eu acho que falhou? Hum. Quase tudo. Empatia com as personagens: zero. Apesar da Julianne More ser uma excelente actriz, de alguma maneira não consegui me sentir tão próxima dela como da mulher do médico no filme. Verem-se as sardas não sei se contribuiu para isso – percebo o sentido de pôr a protagonista sem uma beleza hollywoodesca, mas ná… Mais, gosto da ideia de branco e negro e tal, mas que é um bocado irritante lá é. É demasiado tempo, e ter usado os planos ‘terciários’ na montagem, isto é, desenquadrados, como que filmados por um cego, etc e tal, pode parecer uma ideia fantástica quando se está desesperado para fazer a montagem resultar, ou quando, sei lá, se lê isso no blog das filmagens (eu lembro-me que achei genial na altura), mas é mais uma daquelas coisas que fora do papel não resulta lá muito bem. Falta a encenação. Falta o apelar aos sentimentos do espectador. Sim, mete mais medo o que não se vê e só se ouve do que a imagem per se (estou a pensar na malfadada cena de violação), mas como ouvi algures no trailer, pior do que ser cego é ser o único que pode ver. Por isso, por muito giro que seja apenas seguir um filme pelo som (que estava horrível, mas penso que era da sala – por favor, se me dizem que era mesmo assim vou ter com o Meirelles e parto-lhe a cara), não resulta. Não tenho nada contra o aspecto artsy da coisa (alô, grande fã do Greenaway a carregar nestas teclas), mas quando é só isso, argh. Não, não, não. Desorientação visual, porreiro, mas tal como o livro, lá por ser uma ‘história de cegos’, não se coíbe de descrever (demais, até) pormenores e tal, o filme também não devia. E nem quero começar a falar da grande ausência do mundo fora das camaratas… Filmagens subjectivas só resultam temporariamente, e quando estamos empatizados com as personagens. Por isso (dizem, ainda não tive paciência para ver) The Lady of The Lake não resultou, e por isso momentos no Perfume ou, por exemplo, a genialíssima cena da discoteca em Babel resultam tão bem: são temporários, e nós deixamos – ou até queremos – perceber o que essas curiosas personagens sentem ou vêem. Neste filme, por exemplo, quando a mulher japonesa reencontra o marido. Momento bonito. Câmara a filmar às cegas nos outros momentos: irritante.

Não posso deixar de referir que a sala, numa quarta à noite, sessão das 9, estava de lotação esgotada. Sim, nem o 007 teve esse feito ainda. O que é curioso, pensando que não conheço quase ninguém que aprecie Saramago. O facto é que muita gente foi exactamente porque era uma adaptação do nosso Nobel (e que melhor maneira de ‘ler um livro’, né?), pela polémica lá fora, mas também, espero, porque sentiam que era um filme obrigatório para nós, portugueses. Afinal o país sem nome, duh, não é preciso ser bruxo. O filme era, apesar da tentativa de multinacionalização do cast, muito, muito americano. Em mais nenhum lado há daquele tipo de estradas…

Música: a original, nada que mexesse muito com a imagem (distante, superfície); as outras, muita coisa latina, receio. Momentos bons: hum, o tal momento de reencontro entre o casal japonês, os cães a comerem as pessoas, o diálogo mulher do médico- verdadeiro cego depois da noite da violação, as cenas de desolação na cidade depois de saírem das camaratas (muito bom, o momento supermercado); notícias portuguesas no rádio portátil (sem sotaque brasileiro, graças aos deuses); chama as pessoas ao cinema.

Momentos maus: como adaptação, argh, mesmo como filme, não sei não; a filmagem ‘cega’; pior cena de sexo dos últimos anos; pouco desenvolvimento da questão do velho cego/prostituta; demasiada polémica não percebo porquê (sempre assim…)…

Enfim, sempre que espero muito pelos filmes fico desiludida… argh argh argh…