quarta-feira, março 19, 2008

The Assassination of Jesse James By The Coward Robert Ford (2007), Andrew Dominik




Um filme tão longo como o seu título. Ouch. Três horas de um pós-western compassado, um ensaio sobre o que Harold Bloom chamou, num famoso livro, a “ansiedade da influência”.

Comecemos pela superfície. É de longe um dos mais belos filmes do ano, com uma fotografia que tenta imitar as fotografias da época, em sépia tantas vezes desfocado nos cantos, como que se a referência à fotografia, uma esperança de (falsa) imortalidade, mais contribuísse para a construção simbólica da trama reflexiva do filme. Porque a nomeação “ensaio” nas linhas anteriores não foi acidental. Um movie é entretenimento. Aqui, estamos perante uma opus.

Mas continuando no reino das aparências, a referência imediata ao peculiar estilo de realização do estreante Andrew Dominik é, sem sombra de dúvidas, o mercurial Terence Malick, não nos seus aspectos dogmáticos (a filmagem em luz natural, o improviso), mas no que é, a meu ver, mais importante – a poesis cinematográfica, mais do que a construção épica, o (re)fazer de uma mitologia. Porque os planos são longos, arrastados, fazendo visceral a percepção do tempo, mas nunca logrando tentar os limites de resistência do espectador (uma qualidade rara, diga-se, em filmes do género) – a beleza sublima-se, nunca tocando a exaustão visual.

A música tem uma notoriedade de apontamento, pontuando levemente a imagem, nunca a violando – um trabalho notável e sensível por Nick Cave, que aparece trovando a história de que o título nos fala, num bar onde o cobarde Robert Ford medita amargamente sobre os reveses da fama. Ford esse interpretado por um underacting Casey Affleck, que se revela o admirador assassino necessário para um flamejante suicidário Brad Pitt, no papel de Jesse O Homem, mais que Jesse a Lenda. A escolha dos actores, aventuro-me a sugerir, passa por muito mais que as competências provadas de cada um – é quase que um prolongamento do ego. Casey viveu muitos anos à sombra do irmão Ben; Pitt convive com a Fama desde os dias em que o seu cabelo lhe ultrapassava os ombros.

O engano fulcral do filme, a sua armadilha e, creio eu, o porquê da extensão e definitividade narrativa do título cinge-se simplesmente a algo que passou despercebido a muitos: a personagem principal pode ser Jesse James, mas é a personagem de Ford que guia a narrativa, convertendo-se no principal motor dos acontecimentos. Assim, o centro temático do filme não é o assassinato e morte de James – algo que todos sabemos que vai acontecer e resolvido sem esplendor, dando a impressão mais de um suicídio voluntário do que um homicídio – mas as motivações e dúvidas de Ford, que julga conseguir, à semelhança de algumas tribos que comem o cérebro dos inimigos, adquirir a força do seu ídolo destruindo-o. Como que no antigo teatro grego, o que interessa não é o acontecimento em si – Édipo que mata o pai e dorme com a mãe – mas que reflexão se pode daí retirar.

Por isso continua o filme depois do desaparecimento de J. James – mesmo morto, assombra Ford. A repetição constante do crime no teatro, para agradar às pessoas – metáfora do palco mediático dos nossos dias? – imprime uma dúvida perniciosa em Ford, que se apercebe que, longe de eliminar o ídolo, elevou-o a deus. E quem mata os deuses não se torna igual a eles, muito pelo contrário. Ninguém tira fotos ao corpo morto de Ford, ninguém se importa que ele tenha morrido de todo – ninguém sabe quem ele é, ninguém colecciona as suas histórias e as guarda religiosamente debaixo da cama, ninguém.

Ford julgava que tinha de matar Jesse, o seu ídolo, para poder ser alguém, para sair da sombra, para o ultrapassar em audácia. O cobarde Robert Ford não falhou o tiro, mas falhou o acto.



(para um filme sério, uma (pseudo)-crítica séria. para desenjoar um bocadinho, também).

quarta-feira, março 12, 2008

Asterix aux jeux Olimpiques (2008), Frédéric Forestier e Thomas Langmann


Eu sei que já escrevi, uma vez pelo menos, que achava idiota (idiota talvez seja uma palavra fraca demais para o meu sentimento) que se criticassem filmes com base em coisas anteriores do realizador – julgo que foi com o último Allen que me saiu qualquer coisa do género. Ora bolas, lá vou eu contradizer-me. Ou não exactamente.

A verdade é que no meu top pessoal de comédias, vem Asterix & Obélix Missão Cleópatra. Pronto, crucifiquem-me. Um guilty pleasure, e depois? É que o filme é tão genial do início ao fim…e é daqueles em que passamos meses e meses a citar piadinhas do filme… Onde está o mémé? Onde está o mémé? (além daquele momento clichetóide da música romântica quando Asteríx(co) vê Beijofibis, com o vento nos cabelos e coiso e tal. Gosto tanto da cena que basta o vento bater-me nos cabelos para ficar loucamente apaixonada – por mim própria, sempre).

Mas não é desse filme que estamos a falar aqui. É do seu sucessor, Asterix nos Jogos Olímpicos. Ora, a primeira vez que vi o teaser, achei piada. À segunda e terceira vez, começou a irritar. Mas mesmo assim desloquei-me ao centro comercial do inferno para ver o filme (noblesse e Cabra oblige).

Hum…

O aborrecido é que um filme com tantas potencialidades só tenha razado o razoável quase bom nos dez minutos finais (e mesmo assim perdendo com a repetição excessiva da mesma piadinha) e na corrida de quadrigas – Germany always the best. Mas… argh. Uma comédia presume… mas isto sou eu a dar palpites… que se provoquem risos na audiência? Sorrisos pelo menos? Ou o filme é mesmo demasiado francês (não acredito – a comédia francesa pode não ser tão excitante e aventurosamente deslavada como a britânica, mas é interessante q.b. – vide Grrrrrrr!), ou ficou demasiado fiel ao livro (espero bem que não, quer dizer, um livro tão insosso?), ou então o Missão Cleópatra foi um feliz acidente e este último filme resolveu voltar ao nível fraquito do primeiro – talvez conseguindo ainda o superar em desinteresse?

Depois… cadê os grandes momentos musicais? Cadê o ir além das personagens? Ah ah, um romano a ser sovado, ah ah, Obélix e Asterix a zangarem-se, ah ah.

?

E aquele Brutus (interpretado por Benoit Poelvoorde), ou é muito bom actor e consegue irritar-nos como personagem, ou é mau actor e irrita-nos com a sua irritante representação. César sim, César é muito, muito bom- menos não se esperava de Alain Delon. O pequeno tique dos lábios define na perfeição toda uma personalidade complexa. Ah, actores do Método, como gostamos de vocês…

Acho que tudo se resume a eu dizer que o momento alto do filme é quando aparece no ecrã uma das personagens do Missão Cleópatra. Quer dizer, quando os próprios realizadores reconhecem a sua impotência e resolvem servir-se da genialidade do anterior(volta, Alain Chabat, temos saudades) para arrancar risos ao público, está tudo dito, não?

segunda-feira, março 03, 2008

Sweeney Todd (2007), Tim Burton

Genial.

(end of critic)









Pretende-se alguma seriedade na página bloguística que é a nossa, mas como querem uma opinião semi-isenta sobre um filme com o meu realizador (vivo) e actor (vivíssimo) preferidos? Que querem que eu diga mais? Acrescente-se: o meu realizador preferido num slasher musical – que mais podia eu querer? Melhor melhor só a ideia de ver a Sofia Coppola a fazer um filme sobre a Dama Negra dos Sonetos.

Bem, comecemos por falar do Tim Burton. O sr. Burton é um génio. Ponto final. Ele é dos poucos realizadores actuais que tem um universo próprio, muito marcado, e assinaturas constantes que não se tornam repetitivas ou enjoativas (pelo menos para os fanáticos como eu). Continuando, ele é um génio. Ponto final. Se havia pessoa capaz de transformar uma história sobre um barbeiro sanguinário num filme grandioso era ele. Musical? No problem.

Importa aqui aniquilar todos os que dizem que este é um Burton menor. É incrível como dizem isto sempre que o senhor Burton lança um filme. Na minha parca inteligência, isso chama-se evolução. E o senhor Burton tem evoluído muito desde o Eduardo Mãos de Tesoura. Experimentado, jogado com o seu universo pessoal, expandindo-o, fazendo coisas que não estamos à espera. Por exemplo, musicais.

O senhor Burton, segundo consta, não gosta lá muito de musicais. Mas o ter visto este meteu-lhe bichinhos na cabeça. E nós até percebemos porquê. Não consigo imaginar outro realizador a fazer este filme. Nem consigo imaginar outro protagonista além de Depp. E demos graças que o menino sabe mesmo, mesmo cantar. Um milímetro abaixo do seu estilo de representação (de construção externa, li não sei onde, de fora para dentro), mas mesmo assim, ficámos com vontade de ouvir mais. Neste irmão mau de Eduardo manápulas cortantes, as facas/navalhas são externas, o esgar é tudo menos inocente, o olhar é opaco, a pele cinzenta. Yeh.

Para mim, o tema do filme é a vingança. Dizer que é sobre a obsessão não me parece correcto. Porque a obsessão é com a vingança sobre o juiz (e alastra sobre toda a população de Londres), em Todd, mas Pirelli também se quer vingar de Todd, e Mrs. Lovett vinga-se de Laura, e o miúdo vinga-se de Todd. Etc etc etc.

Não é um musical vulgar. Primeiro, a história. Depois, a fotografia – associamos sempre o musical a uma maior paleta de cores, e aqui isso só nos é dado na sequência de sonho de Mrs. Lovett, By the Sea (algo que sai deliciosamente de tudo o que tínhamos visto até aí) – os devaneios de Todd são sempre cinzentões com splashes de vermelho ocasionais. E o trabalho de câmara, meus caros, genial. (sim, estou a repetir propositadamente o adjectivo). No fundo, é filmado como um filme ‘normal’, em que as personagens por acaso não param de cantar. O plano inicial burtonesco? Temos direito a dois: aos créditos iniciais, em animação, e a um accellerando nas ruas de Londres, do cais até Fleet Street, quando Todd volta à sua antiga casa.

Sobre a fotografia – a cargo do senhor – fantástico. É como um filme a preto e branco (meio esverdeado, às vezes, qual foto antiga colorida à mão – com sangue vermelhaço que parece saído de um slasher do nessa altura novato Peter Jackson, que embora minimizando o efeito gore da coisa (porque não é isso que interessa), resulta très jolie, bonito, estilizado, simbólico (tomem esta, Cahiers).

A ausência aqui é Danny Elfman. Mas a partir do momento em que ouvimos a belíssima banda sonora de Stephen Sodheim perdoamos tudo. Porque não é Elfman, é certo, mas resulta muito bem. Estão lá órgãos, é o que interessa. Influências da música londrina da época, diz o senhor Stephen. Sim, parece-nos muito bem. No meu caso, a música só começou a entranhar-se depois do filme – no fim de saber ao que é que corresponde o quê. Mas eu sou uma insensível, por isso não conto. Só com desenhos e imagens é que consigo perceber o que é suposto sentir aonde. ;)

Helena Bohnam Carter. Sim, ela dormiu com o realizador para conseguir o papel. Mas nós importamo-nos? Ná. Além de já ter dado provas anteriores dos seus dotes musicais (em A Noiva Cadáver, por exemplo), quem mais podia fazer da andrajosa Mrs. Lovett? E quem mais deixaria Burton andar aos beijos (um, pequeníssimo) com o melhor amigo? O tamanho dos seus seios oscila de plano para plano? Sim, estão enormes (não acredito que estou a escrever sobre isto), mas quando sabemos que no contraplano está Depp, quem é que presta atenção a eles?

Da primeira vez que vi, tenho de confessar que achei o final abrupto. Porque no fundo eu (e o resto do público, com um ‘oh’ colectivo) era capaz de ver mais umas 5, 6 horas daquilo. Da segunda vez, o final pareceu-me mais natural, o único possível (continuar seria possivelmente estragar), e como já sabia tudo o que ia acontecer, pude deliciar-se com a mestria técnica de Burton, que pode não ser gritante, mas não deixa de ser genial, claro, porque o senhor é um génio (estarei a repetir-me?).

Grandes momentos: o dueto ‘My Friends’, onde Todd se declara às suas navalhas enquanto Mrs. Lovett se declara a ele, o concurso com Pirelli (go go Sacha Baron Cohen), a epifania de Todd, o trio ‘Johanna’ com a aparentemente insignificante vagabunda a cantar city on fire!, e, não podemos esquecer o momento mais out da coisa, o By The Sea, com um acabrunhado Todd a aparentemente ceder aos avanços amorosos de Mrs. Lovett.

Momentos maus? Onde? Não me apercebi…





quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Atonement (2007), Joe Wright



Há muito, muito tempo que um trailler não me despertava tanta vontade de ver um filme. Compreenda-se: a música de Dario Marianelli deixa qualquer ser com um pingo de sensibilidade artística completamente hipnotizado. O uso da máquina de escrever como instrumento musical… Isto numa música deliciosamente tonal, mas que roça o wagneriano em alguns momentos… Mais, a fotografia belíssima que o trailler deixa entrever, as cores, a patine discreta da imagem (sim, Joe Wright nasceu para fazer adaptações Jane Austen e afins, e desde quando é que isso é uma coisa má? Ele reinventou o filme de época, temos de dizê-lo sem vergonhas).

Ora, apesar de tudo o trailler diz muito pouco do filme. What? Sim, muito pouco mesmo. Mais: engana-nos. Ilude-nos. Intriga-nos, supostamente responde-nos, mas afinal dá-nos a volta que nem uns tolinhos.

História? Briony, miúda de 12 anos, surpreende umas interacções românticas entre a irmã Cecília e Robbie, o filho quase médico da governanta – e sua paixão platónica, acrescente-se. Por despeito, por vingança, ou por má interpretação, mete Robbie num belíssimo sarilho, que irá separar Cee do seu amor durante muito, muito tempo, destruindo qualquer possibilidade de felicidade para os três. Porque a cabra ingénua que é Briony resolve estragar também a sua vida em consideração para com a irmã. E depois a guerra. E depois o reencontro, a hora da verdade. E depois… o livro.

Atonement é muito mais que uma história de amor. É uma meditação profunda sobre o que significa o arrependimento e – como é que os idiotas dos críticos portugueses permanecem cegos para algo tão gritante – uma reflexão artística sobre os limites morais da ficção. E se podemos achar que, inicialmente, a opção em dar-nos a ver o ponto de vista de Briony primeiro, depois o que realmente se passou, é um pouco, como dizer, ‘piroso’, quando chegamos ao fim percebemos que devíamos ter mais cuidado com os pontos de vista que nos atiram para os olhos.

Há quem acuse o filme de estar bem filmado demais, o que me dá uma vontade imensa de rir. Que raio de critério é esse? Wtf? E comparar aquele que estou certa se tornará um marco na história do cinema, nem que tenha de ser eu a escrevê-la (já era tempo de uma mulher se propor a isso, para vingar injustiças com géneros ditos menores por uma cambada de estudiosos falocântricos e patriarcais) a um ‘telefilme’ – João Lopes, mas que raio de coisa. Um telefilme é uma coisa assim tão asqueirosa (e digo que não concordo mesmo nada com a comparação, apenas saída de um preconceito enorme para as adaptações de ‘romances’ com protagonistas mulheres, sobretudo)? Bem filmado demais? Exibicionismo técnico? Jorge Sauron Mourinha aposta nesta linha. Hum… ter-se-á enganado na sala e ido ver o Elizabeth II? Isso sim é exibicionismo técnico – mesmo que queiramos só estamos a ver a câmara a mexer, mexer, mexer, olhem que bem que mexo a câmara. Agora a técnica de Atonement – primeiro, nem é assim tão gritante, se exceptuarmos o plano-sequência na praia de Dunkirk. Depois, toda a técnica é justificável pelas exigências narrativas. Eu sei que em Portugal há um certo analfabetismo voluntário das técnicas narrativas hollywoodescas tidas como ‘o Demo, Senhor dos Infernos da Ilusão Cinematográfica e do Entretenimento’, mas noutros países, a câmara funciona como se fosse, digamos, uma caneta, que adjectiva e faz metáforas com a imagem. Oh, entramos no filme, que está belíssimamente construído, banda sonora soberba, imagem linda, linda, linda, e não bocejamos uma única vez, nem olhamos para o relógio. Credo, deve ser terrivelmente mainstream e apelativo às massas incultas! Vamos exorcizá-lo com uma bolinha preta e chamá-lo de piroso! Vade Retro cinema que ganha globos de ouro!

Uf!

(lady sara c, defensora dos filmes em que apenas o tempo provará que até tenho razão algumas vezes)

De novo ao filme. Mais uma vez, obrigada a falar da banda sonora. A interligação do som diegético com a música de Marianelli parece-me um dos mais perfeitos até hoje realizados. Quanto ao tal plano-sequência de tal forma genial que ninguém consegue atacá-lo directamente, preferindo dizer que nem parece do filme, foi inserido a martelo – deuses, são uns 5 minutos de Steadycam a levar-nos por entre um cenário desolador, queriam que continuassem os tons amarelos, e as coisinhas bonitas? Seria ridículo. (mais uma vez no plano-sequência se vê o poder da banda sonora, quando nos aproximamos dos soldados a cantar em direcção ao mar)

Actores: palmas para as três intérpretes de Briony, uma personagem poderosíssima, sobretudo na sua versão infantil (Redgrave destoa um bocado das três, mas perdoamos-lhe porque 1º é uma excelente actriz, e não desilude 2º, dá-nos a Briony verdadeira. Keira Knightley estranhamente sensual no seu vestido verde, ar snob e sotaque, bastante bem (o que é perigoso, porque podem pensar que ela só sabe fazer este tipo de personagens feministas q.b.); James McCavoy, hum, mudança extrema entre o despreocupado Robbie e o soldado demente (assustador neste momento); verdadeiramente detestável e por isso promissora rapariguinha que interpreta Lola, a prima do Norte.

Por fim, falemos do realizador. Quem viu o filme anterior, Orgulho e Preconceito, sentiu que estava ali qualquer coisa, mas que ainda raspava muito à superfície, muito comedido, pouco ousado (é que nem um beijito durante o filme todo), e tirando Knightley, todos pareciam figuritas de cartão. Agora… agora estamos perante uma Gesamtkunstwerke. Será Wright uma reencarnação de Wagner? Será que alguém vai ter vontade de invadir a Polónia no fim de ouvir Marianelli?

De vontades, só de esperar ansiosamente o próximo filme do senhor. E afirmar aos quatro ventos que estamos perante um clássico. E lembrar aos senhores críticos que E Tudo o Vento Levou tem muito mais de telefilme que este, duh, e nada o impede de ser bom na mesma. Frankly, my dears… f*uck them.

Cassandra's Dream (2007), Woody Allen

O fim da trilogia londrina. Uma cidade chuvosa que acolheu Woody Allen como seu filho, e, a julgar por Match Point (um dos momentos altos da carreira, digam lá o que disserem), o regresso a uma fase inspiradíssima, com uma nova musa: Scarlett Johannson.

Ora, ao contrário de muitos, eu sei que o senhor Woody é só humano, e como tal não espero que ele me surpreenda todos os anos com masterpieces porque, caso não se lembrem, nem o Ingrid (Bergman) fazia isso. Nem ninguém.

Defendo o direito dos pobres realizadores a sentirem-se menos inspirados. E sim, Cassandra’s Dream é um filme menos inspirado, mas não deixa de ser: 1. do Woody Allen, o que é muito melhor que ser um mau filme, digamos, do Spielberg; 2. comestível. Porque isto de considerar que é um filme abominável só porque antes há a luz brilhante de Match Point… percebe-se que as expectativas talvez estivessem altas demais, mas prejudicar o filme per se por isso… não me parece justo.

Falemos do filme, então. Dois irmãos – interpretados por Colin Farrell e Ewan McGregor – querem ser ricos. A oportunidade para isso surge de uma forma… hum… pouco moral. E eles buga (intervêm aqui também coisas como o valor do sangue, tudo pela família, nada contra a família, etc). Depois – um deles arrepende-se. E tcharam.

No fundo, no fundo, este é o outro lado de Match Point (será por isso que tanta gente ficou desiludida?). Ou seja, o crime e a ambição, neste filme, não compensam. Ohhhh. Moralidade barata, portanto. Tenho de confessar que é tudo muito tragédia grega, muito castigo dos deuses etc, e que por isso tem um travozito a banalidade.

Música? Philip Glass!!!!! Sim, sim, sim. Tercinas para cima e para baixo, a inexorável força do destino, yeah. (devo dizer que não sabia disto antes de ver o nome nos típicos créditos iniciais, e dei gritinhos de alegria que puseram todo o público a olhar para mim desconfiado).

Colin Farrell surpreendentemente óptimo actor, dos olhos inquietos às unhas sujas (interpreta a personagem de um mecânico), e é para mim (que, como digo sempre, não sou ninguém nestas coisas) a mais valia do filme. Já Ewan McGregor podia estar tão melhor que não sei se lhe perdoo. (é uma personagem que não perdia nada por mostrar mais complexidade, e isso antes da cena final no ‘Cassandra’s Dream’, o barquito dos irmãos).

Mais… a técnica não está nada de especial. Quer dizer, não há aqueles deliciosos planos-sequência à la Allen, o que me fez suspirar. Ai… Só campo e contra-campo, e não, isso não é o estilo Woody habitual. Vejam bem os filmes anteriores dele. Bem, bem. Vêem os belíssimos planos-sequência? Cadê deles neste filme? Pois.

Será que a ausência de Johansson justifica esta desinspiração? Sou levada a crer que sim. De qualquer modo, Woody já trocou a cidade do smog pela do Gaudí, e só espero é que se lembre de dar uns saltinhos grandes aqui ao país vizinho. Filmar, quiçá. Se bem que com a sorte que eu tenho, vou estar do outro lado da Mancha quando isso acontecer. Argh.

Não acho que isto seja o início do fim. Repito: todos temos o direito a ter dias menos inspirados, incluindo essa sumidade que é o Sr. Allen. Ele anda a repetir temas? Ouvi dizer que isso se chama marcas de autor. Por muito estúpido que seja, se calhar é isso mesmo. Nem sempre nos caem bem, pelos vistos. E falando nisso, onde estão os one-liners citáveis?

Bom momento: após um acontecimento trágico, as duas cunhadas fazem compras descontraidamente, falando de futilidades – um dos raros momentos allenescos, realmente, de ironia trágica.


Volta Woody Allen, estás perdoado.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Alvin and the Chipmunks (2007), Tim Hill


Nada como começar o ano a ver animação. Dobrada em português. Com esquilos falantes. E não, não é um pesadelo.

A animação não é, tenho disso a certeza, um género menor. Os idiotas que dobram os filmes em português deviam era ser queimados em grandes fogueiras. Sim, tenho a convicção que o filme seria menos irritante (quiçá até engraçadito) se não parecesse um episódio manhoso do Dawson’s Creek. Argh….

História? Ok. Três esquilos cantores são levados para a grande cidade numa árvore de Natal. Encontram um compositor frustrado e.. voilá. Revolucionam a carreira dele, ajudam-no a recuperar a namorada e a assumir responsabilidades – os esquilos funcionam aqui, a nível psicanalítico, como filhos do tipo.

Mas como em todos os filmes para crianças, há um mauzão que destrói a felicidade familiar e leva os esquilos em digressão, injectando-lhes grandes doses de cafeína para que eles se aguentem em palco. Também os veste com roupas de rappers mafiosos, com bailarinos atrás e coiso e tal. MTV zoolófila. Ai a indústra da música, o demo o demo, viciadões em café. (aqui não é preciso traduzir, pois não?)

Tudo acaba bem, em mega concerto coiso e tal. Muito natalício. A música dos esquilinhos existe há uns bons 20 anos. Tenho-a em vinyl, para terem uma ideia.

Bem….

A junção de animação com a imagem resulta bastante bem (apesar de ser três Dê), e os esquilos são fofinhos e adoráveis e temos muita pena que eles estejam a ser explorados porque são crianças e coiso e tal e tadinhos e estão quase a ser salvos e, surpreendente, foram salvos mesmo no último minuto e tudo ficou bem.

Eu tenho uma certa idade, meus caros. Vi uns quantos filmes. Filmes de Bem e Mal já não resultam lá muito bem com a minha mente complexa e sofisticada. Se bocejei durante o filme? Não. Mas os estereótipos irritam-me um bocado. E não estou a falar do eufemístico mundo do rock. Estou a falar da treta do adulto criança que não sabe assumir responsabilidades. Quer dizer… Quantos filmes já fizeram com essa premissa? Não chega? Não serão já demais?

Estão a lavar o cérebro às criancinhas. Não sei se elas deixarão assim tão facilmente. Espero bem que não.

Quanto ao aspecto artístico do filme… Demasiado visto. Premissa interessante, os esquilos cantores. Não há problematização de serem esquilos falantes, quanto mais o cantarem. Mas vejamos o lado positivo: vozes de hélio a cantarem músicas de Natal é engraçado. Girinho mesmo.

Momentos que até prometiam? Nem me lembro. Deviam arranjar um novo sistema de classificação para os movies. Assim como há maiores de 18, sugiro que criem a classificação ‘menores de 18’. Por favor. Pelo bem público. E meu também.
(uma crítica desinspirada, eu sei. Tanto ou menos que o filme em si.)

Hot Fuzz (2007), Edgar Wright


Eles estão de volta….

Há três coisas fantásticas na Grã-Bretanha (pelo menos). A primeira é o príncipe William. A segunda é o sotaque. A terceira é a comédia.

Porque ninguém é tão refinado em termos de humor do que os ingleses. Uma coisa é certa – ou se ama ou se odeia. E não há dúvidas que eu tenho grande orgulho em me inserir na primeira opção…

Depois de Shaun of the Dead (uma paródia poderosíssima aos filmes de zombies, aclamada pelo próprio Romero, e que teve a estranha tradução em português de MoZombie Party: Uma Noite de Morte), Simon Pegg e o seu amigo cheinho (os novos Bucha e Estica, mas com estilo –e sotaque) vêm dar um novo ar da sua graça, desta vez aos malfadados filmes de acção, mais concretamente ao buddy movie.

As marcas de autor estão lá (sim, leram bem, marcas de autor): os cornetos, o estilo, o pub. Desta vez o problema é ( nome da personagem), um polícia de Londres que cumpre o seu dever bem demais e é por isso destacado para uma vilazeca da província, daquelas em que nunca acontece nada de interessante. Ou assim seria de supor. Mais que os jovens que grafitam, prejudicando a nomeação da vila à melhor vila da Grã-Bretanha, o super-polícia (ajudado por um reticente amigo, (nome da pers. aqui), irão desvendar uma conspiração poderosíssima e ter de batalhar para restabelecer a paz. Qual Máfia qual carapuça – nunca um mini-mercado escondeu tantos esqueletos nas prateleiras.

A música é completamente kitch, aliás, por dar a volta, camp (desculpem os termos pretensiosos mas tenho de usá-los para não os esquecer. Além de vos dar a oportunidade de usar o google para alguma coisa mais além de procurar pornografia). E com uma montagem xpto (lê-se xis-pê-tê-ó, e em termos leigos significa que os meninos sabem usar o Avid a sério), que cita inúmeras cenas dos filmes do género (filmes que estão presentes, aliás, de forma escarrapachada, nos filmes que os dois amigos alugam para ver, e que lhes servirão de inspiração para o grand finalle), desde… eu até explicava, mas isso estragaria a piada, acho eu.

Que dizer de Simon Pegg, além de eu apostar as minhas sapatilhas preferidas (e muito, muito maltratadas) que mais uns anitos e se tornará uma referência, digamos, ao nível de Rowan Atkinson, Eddy Lizard e, heresia heresia, Monty Python? Aqueles olhos albinos, cabelo louro à escovinha, corpo bem tratado, sotaquezinho britânico… se não fosse a existência do Clive Owen, não me escapava.

O seu amigo, compincha - Nick Frost – faz genialmente um boneco de pessoa sem ambições (novamente, mas faz tão bem que não me vou queixar pela repetição… por enquanto), mas é obviamente um sidekick, que não estou a ver a resultar sem estar ao lado de um Pegg. Estou enganada? Espero que sim.

Grandes momentos do filme – Explosões. Nós de cinema adoramos explosões. Principalmente aquelas completamente gratuitas, de grande estrondo a explorar toda o sistema de colunas Dolby Surround, filmadas em multi-câmara, e que ficam tão, tão lindas em laranja e amarelo, como se fossem nuvenzinhas fumarosas e morninhas. Hummmmmm…. Depois, o que acontece ao mauzão da fita é também de uma perversidade fofinha. (eu estou numa fase de diminutivos, porque estou bem disposta. Não, não é o relógio biológico a dar horas. De maneira nenhuma).

Momentos menos bons? Não me lembro de nenhum assim flagrante. Não sei porquê, não teve tanto impacto em mim como Shaun of the Dead, mas presumo (porque sou presumida) que isso se deva à minha incredulidade e ignorância quando vi o primeiro. Agora já sabia para o que ia. E não fiquei desiludida. Sim, apesar de não ter o Clive Owen aos tiros, não me pondo assim as hormonas aos saltos, é uma comédia bem feita, britanicazinha, e que abre o apetite para receber o que venha a seguir daqueles lados Peggianos. Ouvi dizer que agora vai ser um projecto sério. Medo, muito medo? Nem por isso. Curiosidade.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

The Golden Compass (2007), Chris Weitz

Dos produtores que vos trouxeram O Senhor dos Anéis… eis um filme com… uma Bússola!

(há campanhas publicitárias que me ultrapassam, realmente)

Eis mais um filmezinho na linha do Nárnia (medo, muito medo), e Harry Potter e assim. Adaptação da trilogia de Philip Pullman, mas ainda não sabem se vão fazer os outros dois filmes. Os meus amigos do IMDB nada dizem sobre isso. Hum…

Ora, e se eu vos disser que o filme não é mau de todo? Sim, um filme sobre mundos paralelos com animais falantes e realizado pelo sr. Chriz Weitz (que devem conhecer por ter feito… o primeiro American Pie) até que é das melhores coisitas de fantasia que tem aparecido nos últimos tempos?

Comecemos pela história, tirada do senhor Pullman. Há uma miúda que é uma espécie de ‘escolhida’, e sabe ler o aleteómetro (aka bússola dourada armada em Professor Kimbaça), e que dá pelo nome de Lyra. Essa Lyra tem um tio todo lindo e barbudo interpretado por Craig, Daniel Craig, que afinal não é tio nenhum, e que estuda a poeira entre os universos paralelos. O Magistério (enorme piscadela de olho à Igreja Católica, que não caiu nada bem nos sectores mais conservadores americanos) nega a existência de tal coisa – heresia, heresia – e trabalha em segredo com uma femme fatale Mrs. Coulter (Nicole Kidman, talhadíssima para o papel) para acabar com o lado divertido daquele mundo. Isto porque todos têm um ‘demónio’ pessoal, um animalzinho que reflecte de alguma maneira a personalidade da pessoa. Os das crianças mudam constantemente (o de Lyra é uma alegria, de gato para esquilo e etc), e para matar alguém é preciso matar esse demónio.

Todo este conceito tem potencial, não acham? E o filme está muito bem filmado (Weitz não se espalhou uma única vez apesar do Money, Money que esteve por trás disto tudo). Os animais falantes estão bem feitos, CGI do caraças (o que é refrescante, ver que afinal sabem usar a tecnologia em condições), e Dakota Blue Richards é uma revelação estrondosa, e que esperamos ver mais vezes por aí.

Momentos a guardar: os dirigíveis, Pantalaimon (o demónio de Lyra) a mudar de forma, as cenas na ‘reserva’ de crianças (laboratório maléfico), a luta de ursos polares, e sim, toda a construção de um universo que costuma falhar em coisas deste género.

Menos bom: o final. Pelos vistos guardaram o fim do livro para começar o segundo filme, o que nos dá uma coisa à papo seco, tipo novela to be continued. O que, se não fizerem o segundo filme,… Argh.





sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Enchanted (2007), Kevin Lima

Era uma vez… o último filme da Disney. E porque é que eu, uma snob de todo o tamanho, fui ver o último filme da Disney? Para lavar o cérebro, mes amis, e para ver se conseguia reacreditar na bondade inata do mundo etc e tal.

Kevin Lima... o senhor responsável por isto. Que também nos tinha dado o Tarzan (curiosamente, também fui ver esse ao cinema. Não me lembro de nada). Com Julie Andrews a fazer a narração, Amy Adams, Susan Sarandon (a má, evidentemente) e o bonzão da Anatomia de Grey, qual é o nome (será que interessa?), Patrick Dempsey.

(reparem como consegui escrever dois parágrafos inteiros e vocês ainda não sabem qual é a minha opinião. Muahh ah ah ah)

Todos sabem que já ninguém acredita nas histórias da Disney. Incluindo a Disney. Por isso um filme que parte disso mesmo – as histórias de princesas são ridículas e não acontecem na vida real – só pela ideia, já merece o aplauso. Acrescente-se que o filme começa de uma maneira tréé´, tréé ironique: em animação à lá Branca de Neve (sim, a boa animação que existia antes de existirem computadores e Pixar… sou do tempo em que…), com a Princesinha a sonhar com o Príncipe que aparece, armado em bom como só os príncipes (ou assim gostaríamos que fosse) conseguem ser, aparece a má – que é a mãe do príncipe (será que me escapou a inversão do complexo de Édipo? Não), e um ajudante labrego, um espelho, maçãs, e um poço sem fundo para onde a Rainha atira a Princesinha para um mundo horrendo – Nova Iorque. A real.

Por razões óbvias abstenho-me de contar mais. (i.e., qualquer anormal sabe como a história vai acabar – como acabam os contos de fadas, duh). Achei particularmente interessantes duas coisas: o uso de animação/imagem real, de uma perfeição incrível, e as constantes auto-citações da Disney – desde a óbvia Branca de Neve até Pequena Sereia, Cinderela, etc. Muito pós-moderno, sim senhora. Também genial aquele esquilo falante, que deixa de ser falante porque no mundo real os esquilos não falam. Portanto, mais uma razão para não pensar em ‘Alvim e os Esquilos’, porque NÃO ACONTECEU. (estou a ser má e a dispersar. Desculpem)

Amy Adams claramente nasceu para fazer de princesinha ingénua e virgenzinha (será que também ela vai pintar o cabelo de louro e pôr umas amigas novas? Medo). Patrick Dempsey parece estar sempre a fazer a mesma personagem, com uma variaçãozinha ou outra (sotaque brasileiro: Príncipe Encantado é assim mesmo, né, gatinho por fora e oco por dentro). James Marsdem faz tão bem o seu papel que só dá vontade de lhe espetar uma sova com tanto patriarcalismo junto, Susan Sarandon, bolas, está acima das minhas palavras, o esquilo Pip (cuja não-voz é feita pelo próprio realizador) – quero casar com ele.

Grandes momentos musicais, todos atacados por pássaros e pombos e coisas assim – um dos melhores momentos é quando a casa de Robert é arrumada por bichos muito, muito nojentos e citadinos, destruindo o mito que os animais são todos fofinhos. O momento no parque é muito, muito giro, e… o final muito, muito previsível.

Nem sei que dizer mais. Vê-se bem, uma boa aposta para distrair, lavar o cérebro, whatever. Se voltei a acreditar na bondade do mundo? Náááá….

terça-feira, janeiro 29, 2008

Knocked Up (2007), Judd Apatow

Coisa que este filme teve, sem dúvida, foi um dos traillers mais originais (e divertidos) do ano, que se limitava a mostrar uma das cenas mais fortes do filme, a do restaurante, quando Allison (interpretada por Katherine Heigl) revela a Bem (Seth Rogen) que… hum… está um pãozinho no forno. A cena é tão genial que os senhores da Total Film não hesitam em colocá-la na secção ‘Classic Scenes’.

Hum.

Lamento informar, mas se demorei algum tempo a correr a ver este filme (aliás, fui vê-lo um bom mês e meio depois de estrear, porque não havia nada mais interessante por estes lados – para verem o deserto cultural que isto é), foi porque tinha medo do que acabou infelizmente por se revelar – não achei assim graaaande comédia. Pelo menos uma que mereça tanta atenção. E a Kel, minha fiel companheira, o meu termómetro pessoal para ver se sou eu que me estou a armar em crítica intelectual ou se estou a ter uma reacção sincera às coisas, também não achou grande piada.

Depois apercebi-me que, embora ninguém tivesse detestado a coisa, havia aqueles que simplesmente tinham adorado e aqueles que não acharam nada de especial. E por fim – sim, isto já parece mais um estudo sociológico do que uma crítica, mas tenham calma – compreendi que todos aqueles que tinham adorado eram Homens.

Daí a minha teoria fantástica: Knocked Up, em português Um Azar do Caraças, é um ‘chick flick para gajos’. Tenho dito. Porquê?

Qualquer gaja familiarizada com as fórmulas dos filmes de gajas, comédias românticas e afins, sente que está perante os mesmos moldes mas com uma enoooorme diferença – aqui a princesa adormecida é um gajo pouco atraente, sem indícios de futuro promissor, alérgico a compromissos, que prefere passar o tempo a trabalhar num site sobre momentos skin flick no cinema. Ela, pelo contrário, é bonita, bem sucedida, inteligente. Ora, tal como nós gajas gostamos de pensar que o Richard Gere nos virá resgatar do nosso aborrecido quotidiano vestido de uniforme branco, pelos vistos a população masculina precisa de ser tranquilizada quanto à nossa suposta preferência (que nem é assim tão virtual como isso) por metro- e übessexuais. Tal como qualquer chick flick, o filme está recheado de clichezinhos que, para nós, mulheres supostamente emancipadas do século XXI, não vão lá muito bem com a nossa cara. Não, não somos umas taradas dos compromissos maritais. Não, não somos ultra-possessivas obrigando os respectivos companheiros a mentirem para jogarem ‘basebol virtual’ com os amigos. Aliás, veja-se como todo o filme está construído de forma a desculpar aquilo que muitas tipas – eu não, desisti dos homens e resolvi dedicar-me a algo muito mais simples: a programação de computadores – designam por criancice eterna masculina. Sim, porque nós somos tããão adultas, e queremos bebés, e somos responsáveis, e etc etc…

Mas não estou a falar do filme, eu sei. Vê-se bem, não é odioso, de maneira nenhuma. Tem momentos francamente engraçados, mas nunca dá para rir a bandeiras despregada, como, por exemplo, em Doidos por Mary. Porquê? Não sei. Será a temática? Talvez. Acrescente-se um dos momentos mais despropositados de sempre: no momento da ‘parição’, após os desmaios masculinos ao olharem para o ‘milagre da vida’ (mais um cliché em acção), é-nos mostrado o evento em si, em toda a sua depilação. Pequeno aviso, meu caro Apatow: não é só nos filmes eróticos que mostrar demais estraga o clima. Aliás, deixem-me explicar melhor para não me tomarem por puritana: não era preciso mostrar, porque assim criávamos melhor na nossa cabeça as imagens dos piores pesadelos. Não, não estamos a estudar obstetrícia, obrigado pelo slideshow na mesma.

No fundo, no fundo – tenho pena, mas já vi o filme há algum tempo, não me lembro de muitos pormenores, sorry – tudo me soou como um mega-episódio dos Friends. Isso não é necessariamente mau, mas daí até chamarem a isto a melhor comédia desde há muito…

Calminha, sim?

terça-feira, janeiro 15, 2008

Shoot 'em Up (2007), Michael Davies

Imaginem o Bugs Bunny e o Caçador, naqueles desenhos animados que preenchiam as nossas manhãs de fim-de-semana, quando éramos novos e inocentes. Agora imaginem que o Bugs Bunny tinha um jeitão com as armas. Cruzem-no com um Steven Seagal, Exterminador Implacável, James Bond, Jet Li, etc etc. Tudo isto dentro do charme do Clive Owen, o único homem que consegue salvar o Mundo de chinelos de enfiar no dedo e o único para o qual eu cozinharia e passaria roupa de sorriso nos lábios. Mesmo assim, mes amis, ainda estão a léguas do que este filme é. Milhas e milhas away…

E não, este não é um filme de gajos, embora tenha a Mónica Bellucci a fazer de prostituta leiteira (literalmente) e muitos, muitos tiros. É coisa que fique na história do cinema, que uma pessoa vá estudar daqui a alguns anos com respeito e veneração? Ná… Mas que interessa isso, num ano tão miserável como este, em que todos os filmes que talvez merecessem o meu respeito ou não vieram para Coimbra ou só cá ficaram uma semana? (eu sei, a net, mas algo em mim odeia filmes sacados).

Todo o filme que consegue manter o mesmo ritmo implacável do início ao fim, fazendo-me rebolar a rir com as incríveis sequências de acção, desde o primeiro plano de um Clive Owen a mastigar calmamente uma cenoura, sentado num banco, à espera do autocarro, até ao final de um Clive Owen todo esmurrado – deuses – também à espera do autocarro. Mr. Smith – o nome da personagem – apresenta-se como um homem implacável, com um passado que nunca nos é apresentado, e um futuro para o qual não somos convidados. Paródia aos filmes de acção dos anos 80? Parece-me demasiado redutor chamar-lhe isso.

E como não só de criticas deita-abaixo os senhores instituídos, deixem-me aqui louvar Jorge Sauron Mourinha pelas belíssimas palavras sobre o filme:

É um filme xunga que meteu o turbo à potência atómica, um desenho-animado absurdo de imagem real, um objecto deliberada e orgulhosamente idiota que tem como único fim pôr Clive Owen a matar o máximo de oponentes do modo mais implausível possível no mínimo espaço de tempo sem perder a pinta.(…) E, melhor ainda, toda a gente que trabalhou nele sabe-o e passa o tempo a piscar o olho ao espectador (a começar por Clive Owen e um Paul Giamatti impossivelmente cabotino). Como não gostar de um filme tão desavergonhado - e tão desavergonhadamente idiota - assim?

É por estas e por outras que eu acredito que os críticos de cinema do Público, no fundo no fundo, nem são más pessoas (ou críticos). Sem dúvida, a grande personagem do filme é Clive Owen (como me sabe bem teclar o nome dele… ahahahahha), com o seu ar enfarruscado e suado, trincando cenouras, os seus one-liners poderosíssimos (desde o óbvio What’s up, Doc?, que nos faz pensar – uau, isto do cinema pós-moderno, citacional e de palimpsesto foi a melhor coisa que aconteceu depois do Steve Jobs voltar para a Apple!) até I’m a British nanny, and I’m dangerous, passando por Fuck you, ya fucking fuckers. Mas Paul Giamatti… como dizer isto… ‘cabotino’ é sem dúvida o melhor adjectivo. Não só tem um toque de telemóvel genial (A Cavalgada das Valquírias de Wagner), que o interrompe sempre a meio de alguma matança (“Yes, honey? I can’t talk right now, I’m in the middle of something”), até a sua perversidade cinéfila (“Does anyone know what a Jimmy Cagney love scene is? It's when Cagney lets the good guy live.”), até à incrível, e esta sim, merece figurar na História do Cinema, frase: “Tit for tat, Mr. Hero. Tit for tat.”
Monica Bellucci? Sempre linda, mais velhinha é certo, com os seus enormes seios a baloiçarem pelo ecrã.

E o realizador, quem é? Michael Davies, uma quick search no IMDB e fico a saber que o único filme que vi dele foi o 100 Girls. Lembram-se? A história daquele tipo que tem uma noite de sexo escaldante no elevador da residência universitária e não sabe com quem? Pois. Eu lembro-me bem do amigo dele, daquele que pendurava pesos nas… pendurezas… para ver se esticava algumas coisa. Uma comédia adolescente um bocado estranha.

Banda sonora… estou a ouvi-la enquanto escrevo isto. Muito rock, muita acção, tudo o que se pedia, de facto. Palmas para o senhor Paul Haslinger, ex-membro dos Tangerine Dream, agora a solo.

Melhores cenas? Ui, difícil é escolher… Digamos que a cena de sexo está entre as melhores que alguma vez vi (e não digo isto só porque lá está o Clive Owen), assim como quando Mr. Smith espanca a mãe de uma criança, todas os momentos cenourísticos, a cena em que julgamos que, finalmente, o mauzão da fita conseguiu matar o bebé, e o momento final frente à lareira. Pronto, de resto vejam. Adoro especialmente o facto de não perderem tempo a explicar o pretexto para a história – aquilo das armas, etc etc – porque o que interessa, sem dúvida, é ver o Clive Owen aos tiros. O resto … fuck it.



quinta-feira, janeiro 03, 2008

Fay Grim (2007), Hal Hartley


A mera menção ‘independente americano’ me faz correr, por norma, para as salas de cinema. Nunca tinha visto nada do senhor Hartley que, segundo a Ipsílon, teve o seu apogeu com três filmes no início dos anos 90 e depois embarcou numa viagem sem regresso para o mundo da Decadência Cinematográfica (críticos maldosos – eu recuso-me a acreditar antes de ver – dizem que o pai Coppola também por lá anda). ~

Fay Grim seria assim o aguardado regresso de Hartley ao caminho do bem. Repito, nunca tinha visto nada do senhor. E não vi nada depois de Fay Grim. A vontade que tinha desapareceu como por encanto. Como não tenho base de comparação, não acho justo fazer aqui um ataque ao filme ou ao realizador. Costuma-se dizer que os filmes que odiamos quando vemos a primeira vez correm sérios riscos de se tornarem os nossos preferidos anos mais tarde. Eu odiar não odiei, mas passei pelas brasas, que é uma coisa que nunca antes me tinha acontecido no cinema. Estava cansada, sim, mas não tãããão cansada assim. Os meus dois companheiros de sala ficaram até ao fim dos créditos, i.e., intelectuais. Não percebi se gostaram ou não. Saí rapidamente e fui tomar café.

Não gosto de críticas impressionistas, mas não sei como falar deste filme. Não sei mesmo. Irritou-me profundamente. Coisa que me irrite mais só Godard, mesmo. (sim, heresia, vou arder no Inferno, temos pena – estou Truffautizada, não gosto do Jean-Luc nem coberto de chocolate). As letras gigantes, os créditos a arrastarem-se durante a meia-hora inicial, as piadinhas intelectuais… deuses, se o francês tivesse morrido eu jurava que tinha reencarnado. Boa, boa, era a actriz – no sentido de qualidade de representação, explicite-se. E o guarda-roupa. A história? Um policialzeco muito estranho, talvez escrito por um pseudo-Dan Brown. Continuação de Henry Fool, soube depois. Planos… fácil. Os ímpares inclinados para a esquerda, os pares para a direita. Não, não estou a gozar. Sempre assim, até ao fim. Sim, irrita bastante. Final? Do que me lembro, do mais previsível possível.

Mas contenho-me. Será que estou a insultar o Varèse do cinema? Será quer é demasiado profundo e à frente para eu entender? Ou é pura e simplesmente oco e ninguém tem coragem de dizer que o rei vai nu? Não sei (penso maldosamente que se o realizador fosse português nem eu tinha dúvidas existenciais nem os críticos – penso eu, mas não ponho as mãos no fogo/figo – seriam tão expansivos).

Há filmes que tenho de ignorar e ver noutra fase da minha vida. Este deve ser um deles. Até daqui a alguns anos, então.

Beowulf (2007), Robert Zemeckis


Quando eu era uma criança inocente, o que nem foi assim há tantos anos como isso, tinha uma VHS em casa que estava sempre a meter no vídeo. Chamava-se Quem Tramou Roger Rabbit? e é, pelo menos, o responsável por eu ter uma fixação nada saudável com vestidos vermelhos brilhantes.


Soube anos depois que o responsável por esse momento de film noir meets cartoons chamar-se Robert Zemeckis e ser pessoa conhecida por fazer filmes bastante bons (O Náufrago - a fazer fé em opiniões alheias - é disso um bom exemplo). Ora, em 2004, se não estou em erro, o dito senhor Zemeckis resolveu empregar uma técnica nova chamada motion capture (entre familiares, carinhosamente tratada por mo-cap) e fez Polar Express. Não, não vi. Só o trailer bastou para não ter vontade nenhuma de gastar o meu rico dinheiro naquilo. Parecia um filme de zombies.


A minha grande dúvida existencial, aumentada uns biliões de vezes depois de ver Beowulf, prende-se com as vantagens de tal sistema. Percebo que a animação permita coisas maravilhosas (entre as quais, não precisar de levantar cedo para dirigir actores), mas ter os actores em carne e osso, pôr-lhes sensores no corpo e depois passá-los a uma animação ‘de sólidos’ tão primitiva que faz com que o Noddy pareça uma coisa sofisticadíssima… Por quê? Por quê? Depois de Finding Nemo, Shrek, e Ratatuille… por que raio as personagens de Beowulf parecem estranhamente semelhantes – aliás, dizendo verdade, ainda menos detalhadas – que os meus puppets dos Sims2? Coincidência? Não vi a referência à EA Games em lado nenhum…


(Soube há pouco tempo que Tim Burton – o Excelso Autor que Não Cumpre Prazos de Pós-Produção Porque É Perfeccionista – vai expandir a sua curta Frankenweenie a longa e pensa usar mo-cap se não nesse, num próximo projecto. Medo, muito medo… ele que nunca me conseguiu desiludir… argh)


Como se não bastasse, tive o prazer de pagar 1.50 por uns óculos 3D, para viver a experiência. A minha opinião sobre o 3D? Bem, as calças boca de sino voltaram, os Rolling Stones dão concertos… porque não o 3D? Apesar de preferir o ressurgimento dos drive-ins e cineclubes a sério, não tenho nada contra os óculos estúpidos. Mas atenção – o filme tem de justificar o uso da técnica. Ora, se faz sentido o Jaws 3D, Infected Spiders From Outer Space 3D e até The Wonderful World of Flying Things in Your Directions 3D, há situações em que não se justifica – de maneira nenhuma. Acrescente-se que aquilo que vi no Beowulf, para mim, não é 3D nenhum – a não ser que consideremos aqueles desenhos para ver com os óculos bicolores na traseira das caixas de Chocapic the real thing. Porque não é uma espada apontada à 3ª fila – coitada de mim que estava bem atrás, assim como todo o espectador europeu que se preze – que me faz dizer Uau na era da Playstation 3 e dos vibradores a luz solar. Nope. Não impressiona.


At last and awfully least, a história em si. Adaptação do conto inglês do século VII, ou VIII, ou IX. Antigo. Nunca li, sorry. Mas estive a cuscar aqui e ali, e não se trata de uma adaptação ipsis verbis. De facto, há uma boa dose daquilo que entre nós, estudantes de cinema pseudo-intelectuais, chamamos de ‘liberdade poética a armar à telenovela da TVI protagonizada por Steven Seagal’. Não querendo estragar o filme aos felizes que vão esperar pelo próximo Natal para o ver no conforto do lar, digamos que aquela história de fazer monstros à Jolie é treta hollywoodesca. Também não há qualquer referência a monstras nuas terrivelmente humanas, bonitas, é certo, e trabalho de câmara suficiente para ilustrar só com essas cenas qualquer compêndio de tomadas de vista de câmara. Só faltou mesmo o in uterus, e até se podia estudar anatomia feminina com aquilo. Reforço ‘feminina’ porque, apesar do filme ser para maiores de 16, e animação, nem uma insinuação de prepúcio ou falta dele nos é dada a ver. Não, não sou uma tarada por piwinhas em filmes, mas quando vemos o senhor Bewulf nu em grande parte do filme, sempre com uma taça/braço/trave/nevoeiro à frente, começamos a achar que a pudendice do senhor Zemeckis em relação ao corpo masculino em todo o seu esplendor (sim, porque estamos a falar do Fantasma da Ópera/Leónidas/Gerald Butler – para quando um musical com ele em tronco nu, ahein?) revela quiçá ou esqueletos no armário ou medo de sair de lá.(esta foi tão profunda que nem eu a atingi em toda a sua imensidão).


Música? Nem me lembro.


Bons momentos? O trailer dos peixes pré-históricos da National Geographic que passou antes do filme. Sim, leram bem. Eu sei que a crítica internacional, sobretudo a americana, vibrou com a coisa. Temos pena.


Depois de 300, depois de Sin City, meu caro Zemeckis… eu – e falo por mais gente do que seria suposto – não como de sorriso alargado qualquer porcaria embrulhada em marketing de vanguarda tecnológica que me ponham à frente. Devias fazer o mesmo.

Land of The Blind (2006), Robert Edwards


Land of the Blind, em português ‘Terra de Cegos’, dirigido por um ainda verdinho Robert Edwards, estreado nos States o ano passado e que só este ano tivemos o prazer de o ver nas nossas salas, no caso de Coimbra numa única semana – já que não se mantém para a próxima – arrasado pela crítica americana, penso que posso dizer desprezado ou ignorado pela portuguesa – não tenho indicações da opinião de Mário Voldemort Torres nem de Jorge Sauron Mourinha; eis que nos encontramos perante um objecto tão estranho e, ao mesmo tempo, tão fascinante, tanto que me apetece dizer, apesar de ainda estarmos em Novembro e Hot Fuzz e Sweeney Todd parecerem prometedores, que foi, pelo menos para mim que não sou ninguém, o filme do ano – estando consciente do irónico que é chamar filme do ano a um filme de 2006.

Quem, por alguma estranha razão, viu o trailer, ficou com a ideia que este seria uma espécie de, para o espectador normal, um Filhos do Homem que muda o ênfase do ambiente para a política, ou, para o espectador ideal e cinematicamente culto, um revisitar de filmes do género 1984, Brazil (Terry Gilliam) ou mesmo Fahrenheit 451 do nosso amigo François Truffaut.

(a propósito, houve um crítico americano – os críticos americanos têm destas coisas, são de uma maldade inteligente e charmosa incrível - que resumiu o filme na expressão Brazil as directed by Ed Wood)

Ou seja, uma distopiazinha à la carte, de esperar umas boquinhas ao senhor Bush Júnior, à guerra no Iraque, uma comparaçãozeca dos Estados Unidos com a Alemanha nazi para escandalizar as pessoas, quiçá uns helicópteros em câmara lenta, Ralph Fiennes a tentar redimir os últimos devaneios da carreira e tentativas de assassinato do Harry Potter… seria o óbvio. Realização convencional, talvez numa mistura de Cronenberg com Spielberg nos seus dias mais felizes, nada muito espampanante, limpinho…

O je ne sais quoi do filme – e se há filme que tem um je ne sais quoi, é este (e esta piadinha só é compreendida por aqueles que tiveram o prazer de o ver) – é que não podia ser mais imprevisível. E vou-me conter para não lançar spoilers sobre spoilers para não estragar surpresas, que são muitas. O início do filme é com uns elefantes. Depois temos footage a armar ao antigo para nos pôr dentro da situação política de um país sem nome, governado pelo segundo membro de uma terrível linhagem, Maximiliano II, que além de ditador é também um convicto realizador de cinema, autor de obras do gabarito como With a Vengeance 4 – em português qualquer coisa do género ‘Implacável Furioso’. Ah, ah, ah, eis a crítica oportuna ao mediatismo de certos políticos, nomeadamente actores que viram senadores e candidatos a presidente que viram documentaristas. Depois, os rituais ridículos, uma Primeira Dama, não de Ferro, mas em bondage, o preso político amado pelo povo, a ajuda de alguém que até que não se sentia muito afectado pelo sistema, mas buga lá mudar o mundo – estou a falar da personagem de Ralph Fiennes - o assassinato, a revolução… e a instauração de uma nova ditadura, ainda pior que a primeira. Bem apanhado, sim senhora, Donald Sutherland numa invocação bárbara e barbística de Karl Marx, um romance ligeiro entre Fiennes e uma bela rapariga. Só que o anterior herói do povo recusa-se a aceitar a nova sociedade em que não há leite nem pão e as mulheres usam burcas, e é enviado para um campo de concentração estranhamente semelhante com um retiro budista. Ui.

Até aqui, tirando os flashes de Fiennes a escrever a história num quarto branco e imagens de elefantes na savana, a correrem, a serem eletrocutados, etc, isto parece um filme normal. A partir do momento em que Fiennes entra no quarto 12… É de deixar o maxilar descair até o nível dos joelhos. Até ao final, abrupto. E saímos da sala a pensar no que foi tudo aquilo, e vamos para casa a pensar naquilo… o que é aquilo?

Apesar da imagem estar cheia de grão, e se notar que Edwards não perdia nada com algumas aulinhas de técnica de realização (fala a rota para o remendado de veludo), mas… há histórias que conseguem fazer-nos esquecer desse tipo de coisas.

A banda sonora portentíssima, uma montagem um bocadinho mtv demais, mas perdoável pela sensação bad trip que nos deixa, Ralph Fiennes abafado por Sutherland, acho eu…

Grandes momentos? Todos. Estou a lembrar-me da cena do editor dos filmes de Maximiliano II, e a pensar se os estúdios não gostariam de ver o método aplicado a alguns trabalhadores mais resistentes (topem a referência intelectual à screenwriters’ strike) … é delicioso por todos os pormenorzinhos que tem, é impossível abarcá-los todos só de uma vez, embora agora tenhamos de esperar que saia em DVD – esperemos que saia em DVD -, ou mais rápido, sacá-lo, ou até, o esforço supremo, fazer o download na Internet mediante o pagamento de uma pequena taxa, com a esperança que nessa altura uma percentagem vá parar ao bolso do argumentista (olhem outra vez a referência…) – que é o próprio realizador, Robert Edwards.

Vamos ver o que aí vem, se ele não desanima com as críticas malvadas e demoníacas da crítica americana, é arriscado fazer um filme ofensivo para gregos e troianos. Eu vou estar à espera. Até estou a pensar em me oferecer como assistente de realização, servir-lhe uns cafés… aposto que, quando ele for famoso, vão todos morrer de inveja. Ah ah ah. Mua-ah-ah. Sim, corram para vê-lo. Não sei como, mas esforcem-se. E depois emprestem, ok? Jocas distopicamente gordas de burca e cabelo rapado.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Elizabeth: The Golden Age (2007), Shekhar Kapur

Ainda tive a tentação de fazer copy paste do veneno que destilei sobre este filme na edição d’A Cabra, mas depois pensei: bolas, pareço um crítico do Público, tenho de aprender a conter-me, senão ainda corro o risco de ser tomada por séria.

A maior desilusão do ano, para mim – o que é diferente de ser o pior filme do ano (tenho de começar a fazer esses tops anuais, para ver até que ponto consigo pensar com quilos e quilos de torta de Natal no estômago.). Pelo menos até agora. Falava-se de uma sequela a Elizabeth desde 2003, se não estou em erro. O projecto atrasou-se porque Blanchett mostrou-se reticente em voltar ao papel. Vendo o filme, percebo porquê. É terrível de se escrever, mas alguém tem de o fazer – que sequela desnecessária! Quase tão idiota como as do Matrix.

Lá estou eu outra vez a verter veneno. Deixem-me então poupar tempo precioso (está quase a começar a Letra L, dêem um desconto) e fazer o tal copy-paste:

Quase 10 anos após o sucesso de Elizabeth, Kapur volta a debruçar-se sobre uma das figuras mais fascinantes da história inglesa.
Se o primeiro filme fora descrito como um poderosíssimo ensaio sobre a dimensão claustrofóbica do poder absoluto, Elizabeth: A Idade do Ouro peca por não conseguir alcançar a complexidade de sentidos do seu predecessor. Sem medo de romancear factos, Kapur coloca uma Elizabeth (Cate Blanchett) envelhecida a debater-se entre os deveres reais – a traição de Mary Stuart, o iminente ataque espanhol - e o charme do pirata Walter Raleigh (Clive Owen). Durante o filme, não conseguimos deixar de pensar que toda a história não passa de um pretexto para ver Blanchett novamente em figurinos de época e para fazer paralelos visuais com ícones religiosos da Idade Média, insistindo ad nauseam na imagem da Rainha/Virgem Maria, rodeada de uma aura de santidade que simplesmente não funciona quando, sem qualquer tipo de ponte, é posta ao lado dos ciúmes terrivelmente humanos de Elizabeth a mulher.
Visualmente arrebatador – Kapur é sem dúvida um virtuoso da técnica -, é na fotografia e mise-en-scène que o filme mostra a sua força. Infelizmente, nem sempre o conteúdo acompanha a forma. Mesmo o momento alto do filme, a batalha naval (apresentada numa pertinente montagem paralela), não cumpre as expectativas épicas geradas: é curta e não sabe construir qualquer tipo de tensão. Mesmo Blanchett, no regresso ao papel que a confirmou como grande actriz, fica sufocada pela imensidão e luminosidade dos espaços em que se movimenta. Não mais a reflexão sobre o peso do poder: o que há neste filme é o melodrama barato em roupa de época ao jeito de Errol Flynn, um tratamento simplista do envelhecer da rainha, a queda em estereótipos demasiado fáceis – os fanáticos espanhóis saídos de um quadro de El Greco, uma Mary Stuart (Samantha Morton) ambiciosa e beata –, as frases grandiosas que ficam bem no trailer, e resta a pergunta: era mesmo necessário? 3/5

Que ruindade, não acham? Felizmente, por razões de espaço, não pude dizer tudo o que me ia na alma. Mas, uh lá lá, eis-me perante a folha branca interminável da Internet. O que é que falta dizer?

Não sei se quero falar das incongruências históricas do filme. Porque eu, por acaso, até que leio sobre a época Tudor desde os meus tenros 12 aninhos – e livros de historiadores e ensaios sobre desde os 14. As chamadas liberdades ficcionais são perfeitamente admissíveis, porque é de um filme que se trata, ora bolas, uma possível obra de arte. Ninguém manda e-mails ao Dali a dizer que os relógios são coisas bastante sólidas e não têm por hábito derreter (deve ser a má qualidade dos produtos espanhóis, digo eu…) Deixem-me só dizer que a primeira falha vem logo no título : a chamada Idade do Ouro isabelina começa depois da derrota da Armada Invencível, não antes. E chega de erudição não cinematográfica gratuita.

A banda sonora. O que é aquilo, deuses? (vejo na cábula imdbiana que o responsável pela coisa é um tal de Craig Armstrong). Um bocado desfasada, a armar ao épico moderno. Acalmem-se os meus quatro amis que vão ler isto: eu adoro épicos a armar ao pingarelho modernaço – veja-se a minha crítica de Marie Antoinette, que continuo a defender mesmo quando as bombas me caírem em cima. Mas esta música… se calhar o problema não é bem da música (e aí vai a private joke para aqueles que contactam comigo no mundo empírico: Temos de dar um desconto porque é de música… ) mas sim da junção da música à imagem. A sério, não consigo explicar melhor: os capa e espada à lá Merry England dos anos 40, só que com dollies, filtros e efeitos digitais.

Depois, eu continuo na minha: o Clive Owen tem os dentes demasiado brancos para fazer um pirata credível. Relembro os dentes de Geoffrey Rush não no Elizabeth original (porque o de ’98 era o original, este é a fotocópia com falta de tonner[1])[2] mas em A Paixão de Shakespeare. Aquilo sim, era uma dentadura isabelina. E já que falamos desse filme tão levezinho e no entanto recheado de pormenores deliciosos (basta dizer que um dos argumentistas foi Tom Stoppard, e se não sabem quem é este, google it!), acrescento que aí sim, uma rainha velha. Se o ataque espanhol foi em 1586, e o filme com Lady Judy Dench se passa em 1593, não acham que Blancehtt está demasiado bem conservada para uma mulher de 40 e tais anos, numa era em que – como lembrava a minha prof de História – não havia pasta de dentes ou aspirinas?

Pena tenho de não se terem decidido em explorar de forma decente os namoricos proibidos da Rainha, ou então fazerem um retrato decente do clima de conspiração. Aquela ideia da filha de Filipe II com a boneca de Elizabeth está genial – mas resultaria muito melhor como punch line para o espectador ao mesmo tempo que para o pai: perde a força porque é uma realidade que nos é apresentada poucos minutos depois do filme começar. A batalha naval não perderia nada em ser uns minutos mais longa – quiçá construir qualquer tensão/resolução – já que é (se calhar devia mandar o livro de guinismo ao sr. Kapur pelo correio – o Clímax. Ou, noutras palavras, porque estou numa de me soltar, o grande O do filme.

Não cai nenhum santinho se forem ver o filme – a não ser que vos impinjam uns óculos 3D de 1.50, ou tenham de pagar o bilhete normal sem nenhum tipo de desconto – aí têm o direito de se sentirem roubados. Mas se tiverem uma qualquer promoção TMN para aproveitar, ou desconto de Capitão Jovem, ou coisa assim, e principalmente se não tiverem visto o primeiro, não tendo assim qualquer ideia do bom que o sr. Kapur pode ser com um orçamento tão mais reduzido, até que é bom entretenimento. Mas também o é a masturbação e sai mais barata.[3]



[1] mais uma vez, uma dissimulada private joke, mas desta vez apenas duas pessoas vão perceber – ou seja, 50% dos leitores deste blog. É claro que este filme, apesar de eu o apelidar de fotocópia com falta de tonner, não tem um décimo do encanto do referendo a que a expressão se referia originalmente.
[2] Já repararam que desde que eu me apercebi que podia meter notas de rodapé nos posts não quero outra coisa?
[3] Pronto, estou claramente numa fase punk. Fuck the system.

A Outra Margem (2007), Luís Filipe Rocha

Fui ver este filme pelo triste facto que tinha de fazer a grelha para a Cabra e não estava numa onda de aturar Os Seis Sinais da Luz – era feriado, já tinha um Herzog na barriga, resolvi ir dar uma oportunidade ao cinema nacional. Medo? Muito, acrescentado pelo facto de ter lido a sinopse. Travestis? Homossexuais? Síndrome de Down? Meeeeedoooo….

Sim, muito aclamado lá fora (sei lá onde? Que garantias é que me dão que lá fora não são todos doidos?), prémios para Filipe Duarte (hum… o rapaz costuma safar-se bem), talvez até ficasse bem impressionada. Acresce-se o facto de que estes filmes portugueses saem em edições DVD de vinte exemplares, todos enviados para a Fnac do Chiado em Lisboa. (pois, porque eu queria partilhar a minha opinião sobre O Mistério da Estrada de Sintra com os meus amigos e cadê? Para piorar é o género de coisas que ninguém se preocupa em pôr nos circuitos ilegais internéticos…). Por fim, a Lusomundo – que todos sabem, pelo menos eu esforço-me para que saibam, tem uma óptima política de exibição em Coimbra -, uma semana após a estreia, resolveu pôr o filme numa única sessão diária, às 21.40. Numa cidade que tem uma sala ocupada pelos Robinsons – versão portuguesa há muito tempo (claro que para o Dr. Bacalhau são meros segundos), e duas salas para o Corrupção… bem, não é preciso escrever mais nada.

Mas fui, contra todas as expectativas. Gosto que se façam de difíceis comigo. (por acaso não, mas era uma piada fácil e não resisti). E contra todas as expectativas… gostei. Muito.

Primeiro – tem uma direcção de fotografia tão boa que dá vontade de chorar. E, ao contrário do que uma pessoa se tinha habituado na cinematografia nacional, tem direcção de actores. E a história… por estranho que pareça, conseguiu manter-se durante umas duas horas sem cair uma única vez no cliché. Oba oba. O que se pode pedir mais? A banda sonora, da autoria de (), serve às mil maravilhas. A cena inicial, em que vemos Filipe Duarte (essa nova esperança do cinema português, que já fez de tudo com todos, e que espero um dia ter o prazer de trabalhar com ele – graxa graxa graxa) travestido a cantar em playback uma música manhosa qualquer, desarma qualquer um. Bem, talvez não os homofóbicos.

Tudo o que vem depois – o conformar-se com a morte do namorado, o ir viver com a irmã e o sobrinho, a ex-noiva abandonada no altar – é contado de uma maneira muito simples, mas sem nunca cair em paradigmas televisivos ou telenovelescos. Já sabemos que Filipe Duarte será redimido pelo sobrinho ‘diferente’, mas surpreendermo-nos ao perceber que também o sobrinho ficará a ganhar com o contacto com o tio ‘esquisito’. A marginalidade de ser diferente, de estar na outra margem, também pode ser o melhor que nos aconteceu. E o que nos define enquanto pessoas.

Dá-me esperança que se falam filmes assim, simples e profundos, neste inferno cinematográfico à beira-mar plantado. Boa, Luís Filipe Rocha.

terça-feira, novembro 13, 2007

Rescue Dawn (2006), Werner Herzog


‘Espírito Indomável’, em português; como me explicou o Nando, uma tradução literal – rescue, espírito, dawn, indomável.

(vou tentar não começar a crítica com Ora)

Quem olha para a sinopse do filme (gentilmente oferecida pelo IMDB) e/ou para o trailer, está longe de imaginar que o realizador, alemão, Werner Herzog, é um ilustre membro do movimento ‘Neue Kino’, uma espécie de Nouvelle Vague para os boches. Outros ilustres membros do movimento foram R. M. Fassbinder (está a decorrer um ciclo sobre ele na Cinemateca Lisboeta – coitados daqueles que vivem na província, e não sabiam quem era o senhor quando houve um ciclo cá… snif snif) e o Wim Wenders, mais conhecido por ter feito a versão intelectualóide da Cidade dos Anjos, uns bons anos antes e intitulada Himmel über Berlin, ou em inglês, Wings of Desire. Para concluir a minha demonstração gratuita de intelectualidade e cultura geral apuradíssima acrescento que houve na altura uma coisa chamada Oberhausen Manifesto, a razão do cinema alemão se ter levantado das cinzas nos anos 70. Eu até dizia o que consta desse manifesto, mas comprei acções da Wikipedia e preciso de as ver render.

Tudo isto para dizer que este pode parecer mais um filme americano sobre a guerra no Vietname (até parece que estou a ouvir: MAIS UM???), mas não é. Ohhh. Mas parece.

Numa de confissões, e porque espero que quando atingir a celebridade os meus assistentes façam desaparecer no buraco negro internético estas baboseiras que debito regularmente, o único filme do Herzog que vi antes deste foi uma coisa… talvez deva escrever Coisa… chamada Hertz aus Glaz – sim, eu gosto de exibir o meu quase esquecido alemão – ou seja, Corações de Gelo. Não foi coisa que eu apreciasse por aí além, diga-se de passagem. Demasiado intelectual até para mim. Não há intelectualidade que resista à fraca qualidade VHS junto com um vídeo dos anos 70 e uma televisão dos 80. Mais tarde soube que este filme foi considerado por autoridades mais competentes como um dos mais ao lado do senhor Herzog, e senti-me feliz. Vou ter de dar outra oportunidade ao senhor, noutro dia de nevoeiro. Isto tudo para dizer que ao ver este filme esforcei-me por tentar ver o europeu intelectualóide por detrás das explosões.

Existem vários momentos em que Herzog cai nas suas marcas de autor (isto no sentido positivo da coisa) – lembro-me de dois: quando Dieter está a ser levado para o campo de prisioneiros de Laos e ouvimos a voice over: Os vivos têm os seus sonâmbulos e os mortos também (ou qualquer coisa do género), e depois, no fim, quando Dieter chega são e salvo ao seu barco, diz as palavras místicas: Esvaziem o que está cheio, encham o que está vazio… cocem onde tiverem comichão. Uma auto-ironia ao estilo Confucius says tão presente na obra de Herzog (pelo menos dizem que sim, que ele gosta de grandes frases aparentemente desprovidas de sentido)? É possível.

Um grande hip, hip, hurra para a banda sonora, a cargo do compositor Klaus Badelt e para o grande Actor Christian Bale, o Klaus Kinski de serviço, magríssimo, de um entusiasmo exasperante nos momentos mais improváveis, um plane freak com gostos culinários bastante peculiares. Não sei é o que a Sociedade Protectora dos Animais pode dizer sobre esses mesmos gostos…

A vegetação luxuriante da selva, a humidade que se sente mesmo quando a época das monções ainda não começou, o desempenho de Steve Zahn seguem de perto Bale e a Música. No fundo, no fundo, as únicas coisas que não me deixam sentir arrebatada pelo filme (se calhar o problema é meu, arrebato-me com as coisas erradas, tipo donuts com chocolate e relâmpagos) foram as concessões que Herzog fez ao american way of making movies – o ritmo da imagem (isso para mim até é positivo, já que pode servir de isco a gerações mais reticentes ao cinema de autor). Depois… hum, sei lá, a história tem um arzinho americano, mas não me posso esquecer que é baseada em factos reais, e se na realidade acabou bem, não iam deixar morrer o Dingler no fim só para me fazer a vontade.

Venham mais (deve ser dos poucos realizadores-velhos-mestres vivos que eu não tenho pena do facto). Com galinhas, que falharam a chamada para este.
(Pronto, Nando, acho que já corrigi tudo. Os pontos de interrogação estavam lá para alguma coisa...)

sexta-feira, novembro 02, 2007

Grindhouse - Planet Terror (2007), Robert Rodriguez


Para começar, deixem-me exprimir a minha enorme consternação por os senhores das grandes cooperativas que detém a distribuição dos filmes americanos no velho continente acharem que nós somos estúpidos demais para perceber o conceito da Grindhouse e, por ter resultado mal no país que viu nascer no seu jovem seio o fenómeno, resolveram partir a coisa ao meio e vendê-la aos fascículos para estes lados. Depois, dêem espaço para eu exprimir a minha enorme raiva por aquela coisa chamada Lusomundo que monopoliza a exibição nas salas portuguesas e que achou que o filme de Tarantino apenas interessava às pessoas das grandes metrópoles (incluindo estas grandes metrópoles Aveiro e excluindo Coimbra, que eu sempre desconfiei ser uma cidade de quarta categoria num país do Terceiro Mundo). Finalmente, vamos à minha pseudo-crítica.

Ora (que maneira tão pouco intelectual de começar uma crítica), o filme é mau. E é esse o objectivo. Por isso o filme é bom. Não na onda do ‘so bad it’s good’, mas na onda do puro mau, na celebração orgiástica (não onanista, como eu receava) do Mau em todo o seu esplendor. Não que eu seja um jovem rapaz americano nos seus 30 anos que passou a adolescência fechado em salas de série Z para que ninguém visse o acne alienígena que lhe cobria a cara. Não que eu tenha uma necessidade lésbica ardente de ver as longuíssimas pernas da McGowan. E houve milhões de piscadelas de olho que me passaram mais que ao lado. Mas gostei do filme (se bem que, entendido, isso não diga nada acerca do valor artístico do mesmo. Opiniões pessoais são para os cafés, não para análises e críticas cuidadas… F*CK OFF, voz intelectualóide dentro da minha cabeça!). Para mim é sobretudo um exercício de forma, e foi à espera disso que fui, e não fiquei desiludida. As falhas de película (houve mesmo pessoas a reclamar?? – se acham aquilo má qualidade deviam tentar ver as VHS da sala de cinema no meu vídeo dos anos 70…) não são assim tantas, os planos e movimentos de câmara estão bem feitos demais para série Z – e eu à espera de zooms e desfocagens à vídeo de férias... e nem uma perche intrometida em lado nenhum…), as explosões parecem reais, a ‘missing reel’ acontece no momento mais previsível (mas nem por isso deixa de nos fazer soltar uma risadinha perversa), e os actores… eh pá, tanta cara conhecida. Planet Terror é o que a série B, C e daí até à ZZZ (e aviso que não sou especialista, mas deve ser uma coisa muito divertida de ser) poderiam ter sido se tivessem dinheiro para isso. A nível técnico, bem entendido.

A nível de exploração de temas, narrativa e blá blá blá, aí é que está a homenagem à série B. Porque filme com mais clichés – propositados, leia-se - só mesmo o Team America. Aquele genérico inicial exageradíssimo e com o seu quê de mórbido – porque a maior parte dos espectadores já sabe o que vai acontecer a uma daquelas pernas lascivas, e intuímos que não vai ser bonito – desarma qualquer pessoa. Grita tanta sensualidade que esta desaparece no meio das risadinhas.

Grandes momentos? Ui, tantos. Nem me parece de bom tom estragar a surpresa a quem ainda não viu. Mas não resisto. Com licença. SPOILERS WARNING Um dos meus favoritos é quando Bruce Willis, afectado pela radiação, diz, com uma voz série, ‘I killed Bin Laden’. Depois o momento em que El Wray entra no hospital para salvar a miúda. Os zombies todos, lindos. (sugiro um novo filme de zombies português, em que o líder dos maus seria interpretado por Manoel de Oliveira e teria como nome de código Dr. Bacalhau. Vá, roubem-me a ideia, não me importo se tiver o prazer de ver tal coisa concretizada no grande ecrã). Também toda aquela cena em que Dakota Block que não consegue mexer as mãos. E chega END SPOILERS WARNING. Obrigado.

Vale a pena ver? Sim. Mas em condições diferentes: com a sessão dupla original, legendas em brasileiro, qualidade de imagem tipo ponto de cruz e um som do fundo do poço. Os americanos podem ter o Grindhouse… mas nós temos o dvd dos ciganos. Ah pois é![1]


[1] isto não é, de maneira nenhuma, uma defesa desses dvds vindos do inferno. Todo o filme merece ser visto nas melhores condições possíveis. É claro que o preço dos bilhetes de cinema e a política de exibição de uma certa empresa referida anteriormente não ajudam muito às nobres intenções…

segunda-feira, outubro 22, 2007

Rememering Kieslowski

Superbad, (2007), Greg Mottola


Se há coisa que tenha afastado mais gente de ver este filme – num país que delira com todos os seis (????) American Pies, desconfio que tenha sido a tradução brilhantemente ao lado do título – ‘Superbaldas’. Que é isto, meus deuses? Eles vêem os filmes antes de atirarem um título para as coitadas das bobinas (tadinhas)?

Eu própria, que desconfio estar-me a tornar numa snob de nariz empinado de primeira em relação a tudo o que tresande a comercialóide e/ou tenha o DiCaprio[1] a fazer de mauzão, tinha bastantes reticências em gastar o meu precioso capital financeiro a ver algo com um título tão brejeiro. Mas após alguns comentários entusiásticos de algumas pessoas, e também porque havia uma promoção a ser gasta e nada mais despertava o interesse, lá entrei.

A história é banal, muito americana: dois melhores amigos, quase a terminar o liceu e seguir para universidades diferentes, decidem arranjar álcool para uma festa onde estariam as duas raparigas da sua eleição, metendo-se nos mais incríveis sarilhos para conseguir levar a cabo tão arriscada missão. (os adjectivos ridículos são propositados) Como filme de lavar o cérebro, ou comédia juvenil, ou seja lá o que lhe queiram chamar, resulta muito bem. Os diálogos estão brilhantes, deliciosamente asneirentos e porcos – a personagem interpretada por … é sem dúvida uma das mais bem conseguidas, se bem que o nosso palhaço de eleição seja, por razões que me parecem óbvias demais para ser referidas, o famoso McLovin. (no intervalo ouvi uns comentários negativos de algumas raparigas das filas de trás, achando o filme com demasiadas referências ‘sujas’ ao acto sexual nas suas diversas variantes e extremamente misógino – é claro que elas não empregaram estas expressões de alto cariz universitário. Para mim, que vejo machismo em simples piropos, acho que elas não atingiram lá muito bem a fase conceptual do filme).

A banda sonora, que tem algo de viagem no tempo, dá uma cor de contraste interessante ao filme. Grandes momentos? Todas as cenas com os polícias chanfrados, os desvarios mentais de …, os créditos finais ornamentados com imagens de ‘portentosos falos’… Menos bom: algumas piadas fáceis, e um final que, visto um pouco à distância, passa uma sensação de angústia sobre o significado da amizade e do amor, e de qual estamos dispostos a abdicar mais facilmente.
[1] ex-paixão platónica assolapada da autora deste texto, que viu todos os trabalhos do menino de ouro de Hollywood e sex-symbol mesmo rodeado de cubos de gelo por todo o lado. Terá sido esse pequeno deslize hormonal que conduziu a autora ao interesse pelo cinema como arte, fazendo-a ver making ofs sobre making ofs e obrigando-a a abdicar da ideia de uma profissão segura e digna.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Os 10 da minha vida

(iniciativa do blog de Lauro António, http://10daminhavida.blogspot.com/)


Ora isto de top 10 é bastante complicado - ainda mais para alguém que desconhece por completo a noção de 'escolha'. Toda e qualquer lista de preferências que eu apresente é apenas.. hum... relativa ao meu estado de espírito neste momento em particular. Dito isto, aqui vamos:

1. Azul, Kieslowski

2. A.I. Artificial Intelligence, Spielberg


3. Big Fish, Tim Burton



4. O Pianista, Polanski


5. Jules et Jim, François Truffaut



6. Heaven, Tom Tykwer


7. O Homem Elefante, Lynch


8. Sunset Boulevard, Billy Wilder


9. Marie Antoinette, Sofia Coppola


10. Happiness, Todd Solondz





quinta-feira, outubro 04, 2007

Stardust (2007), Matthew Vaughn


Na lenta saída daquilo que aprendi recentemente designar-se por silly season (acrescente-se o desprezo que a Lusomundo vota às suas salas em Coimbra – cadê o Tarantino, cadê?), finalmente arranjei um filme para ir ver ao cinema. Stardust, de Matthew Vaughn (um realizador fresquinho) pareceu-me, entre todos aqueles cartazes que estão no Dolce a apanhar pó, alguns desde o início de Julho, um mal menor, quiçá até um bom início de temporada.

Ora bem, mais uma adaptação pós-Harry Potter, buga aproveitar a onda, já que os putos estão numa de aproveitar a onda, cenas de magia, confronto entre mundos, etc, etc. Vá, digam lá se estou enganada. Isto não significa que os filmes desta ‘moda’ sejam todos horrendos e desprezíveis, óbvio. Daqui a uns anos virá algum sociólogo estudar esta vaga de género, de certeza. (até aposto que apontará ao facto de, numa época em que dependemos de máquinas para tudo – bem, quase tudo – a magia surge ao ser humano como uma recentralização do poder no indivíduo, voltando a uma era pré-industrial mas com todos os confortos da modernidade, blá blá blá).

Ora, dizem-me os meus amigos da Wikipedia que o filme é uma adaptação do livro de 1998 com o mesmo título, da autoria de Neil Gaiman, que se deu com pessoas do calibre de Alan Moore e Dave Mckean e escreveu sobre aquele belíssimo livro que é o Hitchickers Guide to the Galaxy. Nunca li o Stardust, não me parece que tenha tempo nos próximos tempos para me lançar a tal coisa (a pilha de livros sobre cinema, jazz, neurologia, filosofia e música contemporânea já me proporciona uma sombra agradável por alguns meses. Por isso, sobre a qualidade do filme enquanto adaptação, nada posso dizer. Segundo um dos meus professores, como se tais questões fossem relevantes (ele nunca deve ter visto tanto filme a assassinar Shakespeare como eu vi numa recente fase da minha vida).

Primeiro: que belíssimo leque de estrelas num só filme!!! Ian McKellen a narrar, Michelle Pfeiffer, Robert DeNiro, Ricky Gervais, Peter O’Toole, Claire Danes… E um quase desconhecido, Charlie Cox (vi-o no Casanova e Mercador de Veneza – bem me parecia que a cara não era totalmente estranha) no papel principal. E bastante bem, diga-se. Aliás, o forte do filme são mesmo as personagens: Tristan, a bruxa Lamia, o Capitão Shakespeare (de longe a minha favorita – quando for grande também quero ser caçadora de relâmpagos; vejam em http://www.saricesartisticas.blogspot.com/).... e está bem filmado e tudo. Belíssimos planos, cores très jolies… A música não é nada de especial (que eu me lembre – também se há coisa que percebo menos do que música só cinema) – mas o que fica na cabeça de toda a gente quando sai do filme, cheio de efeitos especiais e momentos de genialidade, é ‘mas que raio é que falta para isto ser um grande filme? Porque falta alguma coisa!’

Eu adoraria saber que raio falta (isso poupar-me-ia flops pessoais futuros), mas só posso atirar barro à parede a ver se pega. Talvez porque a história é demasiado previsível (não sei se sou eu que sou especial – duvido – mas sabia sempre o que é que o herói ia usar para se livrar dos sarilhos), ou porque nunca acreditamos que a Estrela vai ficar sem coração, ou talvez, e isto é complicado, falta o amori. Isto é, se calhar o rapaz Vaughn não tenha feito o amor com a câmara (não num sentido literal, obviamente, que nojo). É tudo muito ‘vejam’, e para resultar devia ser ‘sofram!sintam!’; não consigo explicar melhor que isto, sorry.

Entre os grandes momentos de genialidade incluo: o pequeno hobby do Capitão Shakespeare, aquele gesto másculo e obsceno dos marinheiros, o ‘coro’ dos fantasmas dos irmãos, Ricky Gervais a fazer de Ricky Gervais (e como disse o Nando, é como o Woody Allen – resulta), a chacina dos irmãos, Claire Danes numa das mais intensas declarações de amor do ano dirigida a um rato (podiam criar uma nova categoria na Academia para contemplar estas coisas), o voodoo final, e a piadinha maldosa final do piscar de olhos entre o Capitão e o noivo de Victoria…

Momentos que poderiam ter sido feitos por mim ou por um dos meus colegas (no mau sentido) – que música de créditos finais é aquela, hã???