segunda-feira, março 31, 2008

There Will Be Blood (2007), P.T. Anderson

Deixem-me exprimir o meu sentimento mais profundo por este filme com três pequenas letras:


W-T-F?

E sim, eu sei que toda a gente adorou, que o PT Anderson é o novo Welles com um petrolífero Citizen Kane, e Daniel Day-lewis é o Actor com Maiúscula.

Destas afirmações lamento só concordar com a última.

Este vai ser daqueles filmes que tenho de ver daqui a uns anos, outra vez, para ver se percebo se o problema é meu, ou da maioria das pessoas que puseram o filme num altar.

Primeiro, deixem-me confessar uma coisa – há coisas do filme que não vi, porque o aborrecimento que tomara conta de mim fez-me adormecer na segunda parte durante largos minutos, só acordando quando o Day-Lewis matava alguém ou bufava (ou seja, frequentemente).

Dito isto, as linhas seguintes são isentas de qualquer, bem, isenção crítica, dando apenas largas à minha subjectividade, e tão fortemente venenosas quanto conseguir, para contrapor às críticas adocicadas de quase toda a gente. E sim, incomoda-me partilhar alguns aspectos da minha opinião com alguns críticos portugueses, mas pronto, vamos lá descascar a coisa.


Primeira dentada de veneno: o PT Anderson passou a rodagem toda na casa de banho, com alguma crise de estômago? Parece. Porque tendo na mente Punch-Drunk Love, Magnólia e Boogie Nights (que vi há pouco tempo, para ver se tinha alguma alergia especifica ao senhor, mas não), onde é que ele está em There Will Be Blood (que carinhosamente trato por There Will Be Blharch), ahein? Onde está, onde está?

Segunda medusa flamejante? Julgo que a ausência de PT Anderson se deve ao bufar constante de Daniel Day-Lewis. Eu também tinha medo de estar ao pé de alguém tão assustador, com medo de apanhar raiva. O que acontece, na minha opinião, é que o actor enche de tal modo o ecrã que não deixa espaço para absolutamente mais nada. Nicles. Também acho que é por isso que tanta gente gostou do filme – pela excelente interpretação de Day-Lewis, apenas levemente riscada por um Paul Dano bastante prometedor – mas pensem comigo: além destes dois, o que há de bom no filme? Pois. O Eterno Nada.

História? Ai e tal, a ambição desenfreada, o petróleo, etc etc. Booooriiing.

Banda sonora? Ui, pizzicattos saltitantes, medo.

Fotografia, figurinos, plasticidade da imagem? Aspecto tão oleoso quanto o próprio petróleo. O que não é necessariamente mau.

Grandes frases: I drink your milkshake. ????????????????????????????? And the winner for the stupidest line goes to… Além que – ok, talvez tenha perdido essa parte enquanto sonhava com filmes melhores – o que é que isso tem a ver com seja o que for?

Apesar de tudo, lembro-me de um grande momento: a cena de conversão de Daniel Plainview, onde o bufar do protagonista até que cai bem. Parece mais um exorcismo, mas pronto. Na América dizem que a religião é assim, quem sou eu para desmentir?

Repito que isto é a minha opinião extremamente parcial, e que possivelmente há qualquer coisa no meu inconsciente ou vidas passadas que me faz odiar o filme,

Lembro-me agora: Plainview é um bom adjectivo para o filme. Mua-ah-ah.
PP. Mas não fui a única a topar com o vazio por detrás de Day-Lewis:
Mas pensem assim - um filme que desperta tanta raiva (dos detractores e dos fiéis), tem alguma coisa de facto. E adormecer uma tipa insone que normalmente só adormece depois das 4 da manhã, depois de 5 cafés ao longo do dia... é dose.


sexta-feira, março 28, 2008

Juno (2007), Jason Reitman


O indie (não confundir com o ancião Indy) nomeado do ano. Porque fica bem fingir que o cinema independente também pode ganhar homenzinhos dourados. Pois sim claro.

Há duas coisas grandiosas neste filme – a primeira, o guião de Diablo Cody; a segunda, a almighty Ellen Page, a actriz mais refrescante (e menos artificial) dos últimos tempos.

Juno é uma adolescente que, num momento de tédio, resolve experimentar o maravilhoso mundo do sexo com o melhor amigo, e, ups, fica grávida. Inicialmente decidida a enviar o pequeno contratempo para o Limbo (na altura em que o filme saiu ainda existia, acho eu), Juno tem uma revelação súbita na clínica de abortos (bastante creepy, por acaso, com uma adolescente horripilante no guichet de atendimento) e resolve ter o bebé. É aqui que os movimentos pró-vida fazem hip, hip, hurra – porque Juno é tão hip e não aborta – mas convinha lembrar a esses senhores que se a miúda tem feito o que é provável que tivesse feito, fosse ela uma miúda real (não conheço ninguém de 16 anos com tanta atitude e auto-confiança), não havia filme. Duh.

Ellen Page é, provavelmente, a única actriz que faz sentido para uma personagem como Juno. Quer dizer, conseguem imaginar mais alguém naquele papel? Eu não. E, graças aos deuses, a profundidade não se esgota na personagem principal. Michael Cera, que interpreta o melhor amigo de Juno/pai biológico da criança é tão totó que só dá vontade de lhe atirar o alguidar de pipocas (não, não me enganei, alguidar mesmo) à cara. Acorda para a vida miúdo! É assim tão difícil de perceber que ela também gosta de ti, seu idiota! Argh, projectos de homem ingénuos… (sim, porque o grande momento romântico deste senhor é quando o vemos cheirar as cuecas de Juno, sozinho na cama). Além do miúdo corredor (aqueles rapazes que se passeiam pelo filme como leitmotiv são bem engraçados), temos a madrasta (Allison Janney), o pai de Juno (JK Simmons), e o casal perfeito (ou nem tanto) Jason Bateman e Jennifer Garner, que tem o relógio biológico a gritar horas.

E sim, Jason Reitman deixa o filme fluir com os one-liners incisivos de Cody e com o carisma de Page, e por isso tem um bom filme, sem dramatismos, tearjackers, etc etc. Não é um teen flick. Graças aos deuses.

A banda sonora, com temas dos Kinks, Mott the Hoople, Belle & Sebastian e até Velvet Underground, é uma excelente antologia para ouvir, seja antes de ver o filme, depois ou em vez de (ná, vão ver o filme, seus idiotas). As faixas de Kimya Dawson servem que nem uma luva a este filme, com a sua voz infantil e tibutear adolescente (se bem que Juno não parece ter papas na língua).

Melhores momentos? Começam logo na deliciosa animação dos créditos iniciais, passando para o momento em que Juno anuncia aos pais o seu desvaire, as cenas em casa dos pais adoptivos, e – por momentos receei que a coisa descaísse de nível nos momentos com Bateman e Page, sei lá, vi ali um cheirinho de romance inter gerações mas felizmente foi só um cheirinho, mesmo – o grand finale entre Juno e o seu amigo. Tcharam.

Um feel good movie sem vergonha de o ser, com o bónus de bons actores, excelente argumento e, bem, ser indie, e o indie, como toda a gente sabe, is the new black.

segunda-feira, março 24, 2008

Lust, Caution (2007), Ang Lee


Depois de Brokeback Mountain, que entusiasmou toda a gente menos eu (tenho algum problema, quase de certeza), Lee vem filmar pela primeira vez o banal amor heterossexual.


E antes mesmo de falar do objecto em si, deixem-me divagar um bocado sobre a maneira como Lee entende o sexo, mais conhecido pelo pseudónimo de amor. Para Lee – convém avisar que este é o segundo filme dele que vejo, por isso posso estar a meter-me em águas profundas sem salva-vidas, e entender uma tendência recente como marca de autor, mas pronto, vamos lá saltar pela borda – o sexo/amor é sempre uma relação de dominação, de dono e dominado, algo aparentemente calmo à superfície mas que borbulha qual lava incandescente nos momentos mais inesperados. Já no filme anterior, não havia dúvidas de quem era o ‘homem’ da tenda (curiosamente o mais feminino na sua sensibilidade, se compreendem o que quero dizer). Agora, após estas cenas nada românticas de sexo – pornografia hardcore, sem a parte pornográfica propriamente dita – a temática da dominação parece-me evidente: primeiro, o senhor Yee (Tony Leung Chiu Wai), depois a espia Wong Chia Chi (a estreante Wei Tang) que o conquista pelo amor (ou seja lá o que for) e passa de dominada a dominadora. Bem, senhor Lee, a sua visão do amor consegue ser ainda mais negra que a minha, credo…


Não posso deixar de notar a qualidade composicional de Lee, principalmente nas muito faladas cenas de majhong, onde o vazio existencial das personagens grita silenciosamente. Os diálogos, aliás, o uso da conversação como trilha sonora (quero dizer, barulho de fundo) é igualmente notável. O tratamento de cor é delicioso – como aliás em quase todos os filmes de realizadores orientais.

A história começa in media res (quase no fim, para ser específica), e na primeira meia hora torna-se complicado perceber o que raio se está a passar – se forem como eu, com uma péssima memória para caras, ainda vai ser pior. Mas enfim voltamos ao inicio, e a partir daí tudo se segue como mandam as regras aborrecidas da continuidade temporal. É de realçar o excelente trabalho de representação da actriz principal, que consegue ser credível quer como rapariga inocente do grupo de teatro quer como Mata Hari implacável, que comete o único erro de se apaixonar (ohhhhhhhhh) pela sua suposta vítima, um implacável general chinês. Sim, porque até o pequeno Hitler de olhos em bico merece um pouco de amori. A nossa empatia pela personagem masculina até é fácil, já que, tirando o sexo à bruta com a protagonista – dentadinhas e chicotadas de paixão, se me faço entender – não o vemos a maltratar ninguém. Isto até ao fim, que me impeço de estragar, ainda mais porque considero que é o grande momento do filme (e não estou a ser irónica). E sim, a última imagem é mais uma vez um signo de ausência, este um pouco mais doloroso ainda porque… ah, não posso contar. Por isso, até que nos identificamos com a pobre rapariga, já que todas gostamos de homens poderosos de uniforme (ou não).

Grandes momentos: os jogos de majhong (que lá é jogado tipo póquer, não em frente a um computador a pingar baba), o momento quase final, em que a protagonista fica presa no meio do transito e subitamente não sabemos que raio vai acontecer, ou aconteceu; o treino sexual com o amigalhaço anti-regime (não aquele que gosta dela, outro, só para verem a demência dos revolucionários), e uma imagem plástica que dá vontade de trincar. Tem o seu quê de filme noir oriental (ou então é por eu andar com os noirs pelos cabelos); a femme fatale, a traição, as pistolas, os cigarros, os pastéis de nata (sim, eu vi pastéis de nata, não estava a sonhar!), etc etc etc.

Maus momentos? Bem, é um bom filme, mas não arrebata. E eu preciso de ser arrebatada, arrebanhada, sentir a lagrimazinha ao canto do olho. Sim, é um filme frio. Mas não deixa de ser interessante de se ver.

quarta-feira, março 19, 2008

The Assassination of Jesse James By The Coward Robert Ford (2007), Andrew Dominik




Um filme tão longo como o seu título. Ouch. Três horas de um pós-western compassado, um ensaio sobre o que Harold Bloom chamou, num famoso livro, a “ansiedade da influência”.

Comecemos pela superfície. É de longe um dos mais belos filmes do ano, com uma fotografia que tenta imitar as fotografias da época, em sépia tantas vezes desfocado nos cantos, como que se a referência à fotografia, uma esperança de (falsa) imortalidade, mais contribuísse para a construção simbólica da trama reflexiva do filme. Porque a nomeação “ensaio” nas linhas anteriores não foi acidental. Um movie é entretenimento. Aqui, estamos perante uma opus.

Mas continuando no reino das aparências, a referência imediata ao peculiar estilo de realização do estreante Andrew Dominik é, sem sombra de dúvidas, o mercurial Terence Malick, não nos seus aspectos dogmáticos (a filmagem em luz natural, o improviso), mas no que é, a meu ver, mais importante – a poesis cinematográfica, mais do que a construção épica, o (re)fazer de uma mitologia. Porque os planos são longos, arrastados, fazendo visceral a percepção do tempo, mas nunca logrando tentar os limites de resistência do espectador (uma qualidade rara, diga-se, em filmes do género) – a beleza sublima-se, nunca tocando a exaustão visual.

A música tem uma notoriedade de apontamento, pontuando levemente a imagem, nunca a violando – um trabalho notável e sensível por Nick Cave, que aparece trovando a história de que o título nos fala, num bar onde o cobarde Robert Ford medita amargamente sobre os reveses da fama. Ford esse interpretado por um underacting Casey Affleck, que se revela o admirador assassino necessário para um flamejante suicidário Brad Pitt, no papel de Jesse O Homem, mais que Jesse a Lenda. A escolha dos actores, aventuro-me a sugerir, passa por muito mais que as competências provadas de cada um – é quase que um prolongamento do ego. Casey viveu muitos anos à sombra do irmão Ben; Pitt convive com a Fama desde os dias em que o seu cabelo lhe ultrapassava os ombros.

O engano fulcral do filme, a sua armadilha e, creio eu, o porquê da extensão e definitividade narrativa do título cinge-se simplesmente a algo que passou despercebido a muitos: a personagem principal pode ser Jesse James, mas é a personagem de Ford que guia a narrativa, convertendo-se no principal motor dos acontecimentos. Assim, o centro temático do filme não é o assassinato e morte de James – algo que todos sabemos que vai acontecer e resolvido sem esplendor, dando a impressão mais de um suicídio voluntário do que um homicídio – mas as motivações e dúvidas de Ford, que julga conseguir, à semelhança de algumas tribos que comem o cérebro dos inimigos, adquirir a força do seu ídolo destruindo-o. Como que no antigo teatro grego, o que interessa não é o acontecimento em si – Édipo que mata o pai e dorme com a mãe – mas que reflexão se pode daí retirar.

Por isso continua o filme depois do desaparecimento de J. James – mesmo morto, assombra Ford. A repetição constante do crime no teatro, para agradar às pessoas – metáfora do palco mediático dos nossos dias? – imprime uma dúvida perniciosa em Ford, que se apercebe que, longe de eliminar o ídolo, elevou-o a deus. E quem mata os deuses não se torna igual a eles, muito pelo contrário. Ninguém tira fotos ao corpo morto de Ford, ninguém se importa que ele tenha morrido de todo – ninguém sabe quem ele é, ninguém colecciona as suas histórias e as guarda religiosamente debaixo da cama, ninguém.

Ford julgava que tinha de matar Jesse, o seu ídolo, para poder ser alguém, para sair da sombra, para o ultrapassar em audácia. O cobarde Robert Ford não falhou o tiro, mas falhou o acto.



(para um filme sério, uma (pseudo)-crítica séria. para desenjoar um bocadinho, também).

quarta-feira, março 12, 2008

Asterix aux jeux Olimpiques (2008), Frédéric Forestier e Thomas Langmann


Eu sei que já escrevi, uma vez pelo menos, que achava idiota (idiota talvez seja uma palavra fraca demais para o meu sentimento) que se criticassem filmes com base em coisas anteriores do realizador – julgo que foi com o último Allen que me saiu qualquer coisa do género. Ora bolas, lá vou eu contradizer-me. Ou não exactamente.

A verdade é que no meu top pessoal de comédias, vem Asterix & Obélix Missão Cleópatra. Pronto, crucifiquem-me. Um guilty pleasure, e depois? É que o filme é tão genial do início ao fim…e é daqueles em que passamos meses e meses a citar piadinhas do filme… Onde está o mémé? Onde está o mémé? (além daquele momento clichetóide da música romântica quando Asteríx(co) vê Beijofibis, com o vento nos cabelos e coiso e tal. Gosto tanto da cena que basta o vento bater-me nos cabelos para ficar loucamente apaixonada – por mim própria, sempre).

Mas não é desse filme que estamos a falar aqui. É do seu sucessor, Asterix nos Jogos Olímpicos. Ora, a primeira vez que vi o teaser, achei piada. À segunda e terceira vez, começou a irritar. Mas mesmo assim desloquei-me ao centro comercial do inferno para ver o filme (noblesse e Cabra oblige).

Hum…

O aborrecido é que um filme com tantas potencialidades só tenha razado o razoável quase bom nos dez minutos finais (e mesmo assim perdendo com a repetição excessiva da mesma piadinha) e na corrida de quadrigas – Germany always the best. Mas… argh. Uma comédia presume… mas isto sou eu a dar palpites… que se provoquem risos na audiência? Sorrisos pelo menos? Ou o filme é mesmo demasiado francês (não acredito – a comédia francesa pode não ser tão excitante e aventurosamente deslavada como a britânica, mas é interessante q.b. – vide Grrrrrrr!), ou ficou demasiado fiel ao livro (espero bem que não, quer dizer, um livro tão insosso?), ou então o Missão Cleópatra foi um feliz acidente e este último filme resolveu voltar ao nível fraquito do primeiro – talvez conseguindo ainda o superar em desinteresse?

Depois… cadê os grandes momentos musicais? Cadê o ir além das personagens? Ah ah, um romano a ser sovado, ah ah, Obélix e Asterix a zangarem-se, ah ah.

?

E aquele Brutus (interpretado por Benoit Poelvoorde), ou é muito bom actor e consegue irritar-nos como personagem, ou é mau actor e irrita-nos com a sua irritante representação. César sim, César é muito, muito bom- menos não se esperava de Alain Delon. O pequeno tique dos lábios define na perfeição toda uma personalidade complexa. Ah, actores do Método, como gostamos de vocês…

Acho que tudo se resume a eu dizer que o momento alto do filme é quando aparece no ecrã uma das personagens do Missão Cleópatra. Quer dizer, quando os próprios realizadores reconhecem a sua impotência e resolvem servir-se da genialidade do anterior(volta, Alain Chabat, temos saudades) para arrancar risos ao público, está tudo dito, não?

segunda-feira, março 03, 2008

Sweeney Todd (2007), Tim Burton

Genial.

(end of critic)









Pretende-se alguma seriedade na página bloguística que é a nossa, mas como querem uma opinião semi-isenta sobre um filme com o meu realizador (vivo) e actor (vivíssimo) preferidos? Que querem que eu diga mais? Acrescente-se: o meu realizador preferido num slasher musical – que mais podia eu querer? Melhor melhor só a ideia de ver a Sofia Coppola a fazer um filme sobre a Dama Negra dos Sonetos.

Bem, comecemos por falar do Tim Burton. O sr. Burton é um génio. Ponto final. Ele é dos poucos realizadores actuais que tem um universo próprio, muito marcado, e assinaturas constantes que não se tornam repetitivas ou enjoativas (pelo menos para os fanáticos como eu). Continuando, ele é um génio. Ponto final. Se havia pessoa capaz de transformar uma história sobre um barbeiro sanguinário num filme grandioso era ele. Musical? No problem.

Importa aqui aniquilar todos os que dizem que este é um Burton menor. É incrível como dizem isto sempre que o senhor Burton lança um filme. Na minha parca inteligência, isso chama-se evolução. E o senhor Burton tem evoluído muito desde o Eduardo Mãos de Tesoura. Experimentado, jogado com o seu universo pessoal, expandindo-o, fazendo coisas que não estamos à espera. Por exemplo, musicais.

O senhor Burton, segundo consta, não gosta lá muito de musicais. Mas o ter visto este meteu-lhe bichinhos na cabeça. E nós até percebemos porquê. Não consigo imaginar outro realizador a fazer este filme. Nem consigo imaginar outro protagonista além de Depp. E demos graças que o menino sabe mesmo, mesmo cantar. Um milímetro abaixo do seu estilo de representação (de construção externa, li não sei onde, de fora para dentro), mas mesmo assim, ficámos com vontade de ouvir mais. Neste irmão mau de Eduardo manápulas cortantes, as facas/navalhas são externas, o esgar é tudo menos inocente, o olhar é opaco, a pele cinzenta. Yeh.

Para mim, o tema do filme é a vingança. Dizer que é sobre a obsessão não me parece correcto. Porque a obsessão é com a vingança sobre o juiz (e alastra sobre toda a população de Londres), em Todd, mas Pirelli também se quer vingar de Todd, e Mrs. Lovett vinga-se de Laura, e o miúdo vinga-se de Todd. Etc etc etc.

Não é um musical vulgar. Primeiro, a história. Depois, a fotografia – associamos sempre o musical a uma maior paleta de cores, e aqui isso só nos é dado na sequência de sonho de Mrs. Lovett, By the Sea (algo que sai deliciosamente de tudo o que tínhamos visto até aí) – os devaneios de Todd são sempre cinzentões com splashes de vermelho ocasionais. E o trabalho de câmara, meus caros, genial. (sim, estou a repetir propositadamente o adjectivo). No fundo, é filmado como um filme ‘normal’, em que as personagens por acaso não param de cantar. O plano inicial burtonesco? Temos direito a dois: aos créditos iniciais, em animação, e a um accellerando nas ruas de Londres, do cais até Fleet Street, quando Todd volta à sua antiga casa.

Sobre a fotografia – a cargo do senhor – fantástico. É como um filme a preto e branco (meio esverdeado, às vezes, qual foto antiga colorida à mão – com sangue vermelhaço que parece saído de um slasher do nessa altura novato Peter Jackson, que embora minimizando o efeito gore da coisa (porque não é isso que interessa), resulta très jolie, bonito, estilizado, simbólico (tomem esta, Cahiers).

A ausência aqui é Danny Elfman. Mas a partir do momento em que ouvimos a belíssima banda sonora de Stephen Sodheim perdoamos tudo. Porque não é Elfman, é certo, mas resulta muito bem. Estão lá órgãos, é o que interessa. Influências da música londrina da época, diz o senhor Stephen. Sim, parece-nos muito bem. No meu caso, a música só começou a entranhar-se depois do filme – no fim de saber ao que é que corresponde o quê. Mas eu sou uma insensível, por isso não conto. Só com desenhos e imagens é que consigo perceber o que é suposto sentir aonde. ;)

Helena Bohnam Carter. Sim, ela dormiu com o realizador para conseguir o papel. Mas nós importamo-nos? Ná. Além de já ter dado provas anteriores dos seus dotes musicais (em A Noiva Cadáver, por exemplo), quem mais podia fazer da andrajosa Mrs. Lovett? E quem mais deixaria Burton andar aos beijos (um, pequeníssimo) com o melhor amigo? O tamanho dos seus seios oscila de plano para plano? Sim, estão enormes (não acredito que estou a escrever sobre isto), mas quando sabemos que no contraplano está Depp, quem é que presta atenção a eles?

Da primeira vez que vi, tenho de confessar que achei o final abrupto. Porque no fundo eu (e o resto do público, com um ‘oh’ colectivo) era capaz de ver mais umas 5, 6 horas daquilo. Da segunda vez, o final pareceu-me mais natural, o único possível (continuar seria possivelmente estragar), e como já sabia tudo o que ia acontecer, pude deliciar-se com a mestria técnica de Burton, que pode não ser gritante, mas não deixa de ser genial, claro, porque o senhor é um génio (estarei a repetir-me?).

Grandes momentos: o dueto ‘My Friends’, onde Todd se declara às suas navalhas enquanto Mrs. Lovett se declara a ele, o concurso com Pirelli (go go Sacha Baron Cohen), a epifania de Todd, o trio ‘Johanna’ com a aparentemente insignificante vagabunda a cantar city on fire!, e, não podemos esquecer o momento mais out da coisa, o By The Sea, com um acabrunhado Todd a aparentemente ceder aos avanços amorosos de Mrs. Lovett.

Momentos maus? Onde? Não me apercebi…





quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Atonement (2007), Joe Wright



Há muito, muito tempo que um trailler não me despertava tanta vontade de ver um filme. Compreenda-se: a música de Dario Marianelli deixa qualquer ser com um pingo de sensibilidade artística completamente hipnotizado. O uso da máquina de escrever como instrumento musical… Isto numa música deliciosamente tonal, mas que roça o wagneriano em alguns momentos… Mais, a fotografia belíssima que o trailler deixa entrever, as cores, a patine discreta da imagem (sim, Joe Wright nasceu para fazer adaptações Jane Austen e afins, e desde quando é que isso é uma coisa má? Ele reinventou o filme de época, temos de dizê-lo sem vergonhas).

Ora, apesar de tudo o trailler diz muito pouco do filme. What? Sim, muito pouco mesmo. Mais: engana-nos. Ilude-nos. Intriga-nos, supostamente responde-nos, mas afinal dá-nos a volta que nem uns tolinhos.

História? Briony, miúda de 12 anos, surpreende umas interacções românticas entre a irmã Cecília e Robbie, o filho quase médico da governanta – e sua paixão platónica, acrescente-se. Por despeito, por vingança, ou por má interpretação, mete Robbie num belíssimo sarilho, que irá separar Cee do seu amor durante muito, muito tempo, destruindo qualquer possibilidade de felicidade para os três. Porque a cabra ingénua que é Briony resolve estragar também a sua vida em consideração para com a irmã. E depois a guerra. E depois o reencontro, a hora da verdade. E depois… o livro.

Atonement é muito mais que uma história de amor. É uma meditação profunda sobre o que significa o arrependimento e – como é que os idiotas dos críticos portugueses permanecem cegos para algo tão gritante – uma reflexão artística sobre os limites morais da ficção. E se podemos achar que, inicialmente, a opção em dar-nos a ver o ponto de vista de Briony primeiro, depois o que realmente se passou, é um pouco, como dizer, ‘piroso’, quando chegamos ao fim percebemos que devíamos ter mais cuidado com os pontos de vista que nos atiram para os olhos.

Há quem acuse o filme de estar bem filmado demais, o que me dá uma vontade imensa de rir. Que raio de critério é esse? Wtf? E comparar aquele que estou certa se tornará um marco na história do cinema, nem que tenha de ser eu a escrevê-la (já era tempo de uma mulher se propor a isso, para vingar injustiças com géneros ditos menores por uma cambada de estudiosos falocântricos e patriarcais) a um ‘telefilme’ – João Lopes, mas que raio de coisa. Um telefilme é uma coisa assim tão asqueirosa (e digo que não concordo mesmo nada com a comparação, apenas saída de um preconceito enorme para as adaptações de ‘romances’ com protagonistas mulheres, sobretudo)? Bem filmado demais? Exibicionismo técnico? Jorge Sauron Mourinha aposta nesta linha. Hum… ter-se-á enganado na sala e ido ver o Elizabeth II? Isso sim é exibicionismo técnico – mesmo que queiramos só estamos a ver a câmara a mexer, mexer, mexer, olhem que bem que mexo a câmara. Agora a técnica de Atonement – primeiro, nem é assim tão gritante, se exceptuarmos o plano-sequência na praia de Dunkirk. Depois, toda a técnica é justificável pelas exigências narrativas. Eu sei que em Portugal há um certo analfabetismo voluntário das técnicas narrativas hollywoodescas tidas como ‘o Demo, Senhor dos Infernos da Ilusão Cinematográfica e do Entretenimento’, mas noutros países, a câmara funciona como se fosse, digamos, uma caneta, que adjectiva e faz metáforas com a imagem. Oh, entramos no filme, que está belíssimamente construído, banda sonora soberba, imagem linda, linda, linda, e não bocejamos uma única vez, nem olhamos para o relógio. Credo, deve ser terrivelmente mainstream e apelativo às massas incultas! Vamos exorcizá-lo com uma bolinha preta e chamá-lo de piroso! Vade Retro cinema que ganha globos de ouro!

Uf!

(lady sara c, defensora dos filmes em que apenas o tempo provará que até tenho razão algumas vezes)

De novo ao filme. Mais uma vez, obrigada a falar da banda sonora. A interligação do som diegético com a música de Marianelli parece-me um dos mais perfeitos até hoje realizados. Quanto ao tal plano-sequência de tal forma genial que ninguém consegue atacá-lo directamente, preferindo dizer que nem parece do filme, foi inserido a martelo – deuses, são uns 5 minutos de Steadycam a levar-nos por entre um cenário desolador, queriam que continuassem os tons amarelos, e as coisinhas bonitas? Seria ridículo. (mais uma vez no plano-sequência se vê o poder da banda sonora, quando nos aproximamos dos soldados a cantar em direcção ao mar)

Actores: palmas para as três intérpretes de Briony, uma personagem poderosíssima, sobretudo na sua versão infantil (Redgrave destoa um bocado das três, mas perdoamos-lhe porque 1º é uma excelente actriz, e não desilude 2º, dá-nos a Briony verdadeira. Keira Knightley estranhamente sensual no seu vestido verde, ar snob e sotaque, bastante bem (o que é perigoso, porque podem pensar que ela só sabe fazer este tipo de personagens feministas q.b.); James McCavoy, hum, mudança extrema entre o despreocupado Robbie e o soldado demente (assustador neste momento); verdadeiramente detestável e por isso promissora rapariguinha que interpreta Lola, a prima do Norte.

Por fim, falemos do realizador. Quem viu o filme anterior, Orgulho e Preconceito, sentiu que estava ali qualquer coisa, mas que ainda raspava muito à superfície, muito comedido, pouco ousado (é que nem um beijito durante o filme todo), e tirando Knightley, todos pareciam figuritas de cartão. Agora… agora estamos perante uma Gesamtkunstwerke. Será Wright uma reencarnação de Wagner? Será que alguém vai ter vontade de invadir a Polónia no fim de ouvir Marianelli?

De vontades, só de esperar ansiosamente o próximo filme do senhor. E afirmar aos quatro ventos que estamos perante um clássico. E lembrar aos senhores críticos que E Tudo o Vento Levou tem muito mais de telefilme que este, duh, e nada o impede de ser bom na mesma. Frankly, my dears… f*uck them.

Cassandra's Dream (2007), Woody Allen

O fim da trilogia londrina. Uma cidade chuvosa que acolheu Woody Allen como seu filho, e, a julgar por Match Point (um dos momentos altos da carreira, digam lá o que disserem), o regresso a uma fase inspiradíssima, com uma nova musa: Scarlett Johannson.

Ora, ao contrário de muitos, eu sei que o senhor Woody é só humano, e como tal não espero que ele me surpreenda todos os anos com masterpieces porque, caso não se lembrem, nem o Ingrid (Bergman) fazia isso. Nem ninguém.

Defendo o direito dos pobres realizadores a sentirem-se menos inspirados. E sim, Cassandra’s Dream é um filme menos inspirado, mas não deixa de ser: 1. do Woody Allen, o que é muito melhor que ser um mau filme, digamos, do Spielberg; 2. comestível. Porque isto de considerar que é um filme abominável só porque antes há a luz brilhante de Match Point… percebe-se que as expectativas talvez estivessem altas demais, mas prejudicar o filme per se por isso… não me parece justo.

Falemos do filme, então. Dois irmãos – interpretados por Colin Farrell e Ewan McGregor – querem ser ricos. A oportunidade para isso surge de uma forma… hum… pouco moral. E eles buga (intervêm aqui também coisas como o valor do sangue, tudo pela família, nada contra a família, etc). Depois – um deles arrepende-se. E tcharam.

No fundo, no fundo, este é o outro lado de Match Point (será por isso que tanta gente ficou desiludida?). Ou seja, o crime e a ambição, neste filme, não compensam. Ohhhh. Moralidade barata, portanto. Tenho de confessar que é tudo muito tragédia grega, muito castigo dos deuses etc, e que por isso tem um travozito a banalidade.

Música? Philip Glass!!!!! Sim, sim, sim. Tercinas para cima e para baixo, a inexorável força do destino, yeah. (devo dizer que não sabia disto antes de ver o nome nos típicos créditos iniciais, e dei gritinhos de alegria que puseram todo o público a olhar para mim desconfiado).

Colin Farrell surpreendentemente óptimo actor, dos olhos inquietos às unhas sujas (interpreta a personagem de um mecânico), e é para mim (que, como digo sempre, não sou ninguém nestas coisas) a mais valia do filme. Já Ewan McGregor podia estar tão melhor que não sei se lhe perdoo. (é uma personagem que não perdia nada por mostrar mais complexidade, e isso antes da cena final no ‘Cassandra’s Dream’, o barquito dos irmãos).

Mais… a técnica não está nada de especial. Quer dizer, não há aqueles deliciosos planos-sequência à la Allen, o que me fez suspirar. Ai… Só campo e contra-campo, e não, isso não é o estilo Woody habitual. Vejam bem os filmes anteriores dele. Bem, bem. Vêem os belíssimos planos-sequência? Cadê deles neste filme? Pois.

Será que a ausência de Johansson justifica esta desinspiração? Sou levada a crer que sim. De qualquer modo, Woody já trocou a cidade do smog pela do Gaudí, e só espero é que se lembre de dar uns saltinhos grandes aqui ao país vizinho. Filmar, quiçá. Se bem que com a sorte que eu tenho, vou estar do outro lado da Mancha quando isso acontecer. Argh.

Não acho que isto seja o início do fim. Repito: todos temos o direito a ter dias menos inspirados, incluindo essa sumidade que é o Sr. Allen. Ele anda a repetir temas? Ouvi dizer que isso se chama marcas de autor. Por muito estúpido que seja, se calhar é isso mesmo. Nem sempre nos caem bem, pelos vistos. E falando nisso, onde estão os one-liners citáveis?

Bom momento: após um acontecimento trágico, as duas cunhadas fazem compras descontraidamente, falando de futilidades – um dos raros momentos allenescos, realmente, de ironia trágica.


Volta Woody Allen, estás perdoado.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Alvin and the Chipmunks (2007), Tim Hill


Nada como começar o ano a ver animação. Dobrada em português. Com esquilos falantes. E não, não é um pesadelo.

A animação não é, tenho disso a certeza, um género menor. Os idiotas que dobram os filmes em português deviam era ser queimados em grandes fogueiras. Sim, tenho a convicção que o filme seria menos irritante (quiçá até engraçadito) se não parecesse um episódio manhoso do Dawson’s Creek. Argh….

História? Ok. Três esquilos cantores são levados para a grande cidade numa árvore de Natal. Encontram um compositor frustrado e.. voilá. Revolucionam a carreira dele, ajudam-no a recuperar a namorada e a assumir responsabilidades – os esquilos funcionam aqui, a nível psicanalítico, como filhos do tipo.

Mas como em todos os filmes para crianças, há um mauzão que destrói a felicidade familiar e leva os esquilos em digressão, injectando-lhes grandes doses de cafeína para que eles se aguentem em palco. Também os veste com roupas de rappers mafiosos, com bailarinos atrás e coiso e tal. MTV zoolófila. Ai a indústra da música, o demo o demo, viciadões em café. (aqui não é preciso traduzir, pois não?)

Tudo acaba bem, em mega concerto coiso e tal. Muito natalício. A música dos esquilinhos existe há uns bons 20 anos. Tenho-a em vinyl, para terem uma ideia.

Bem….

A junção de animação com a imagem resulta bastante bem (apesar de ser três Dê), e os esquilos são fofinhos e adoráveis e temos muita pena que eles estejam a ser explorados porque são crianças e coiso e tal e tadinhos e estão quase a ser salvos e, surpreendente, foram salvos mesmo no último minuto e tudo ficou bem.

Eu tenho uma certa idade, meus caros. Vi uns quantos filmes. Filmes de Bem e Mal já não resultam lá muito bem com a minha mente complexa e sofisticada. Se bocejei durante o filme? Não. Mas os estereótipos irritam-me um bocado. E não estou a falar do eufemístico mundo do rock. Estou a falar da treta do adulto criança que não sabe assumir responsabilidades. Quer dizer… Quantos filmes já fizeram com essa premissa? Não chega? Não serão já demais?

Estão a lavar o cérebro às criancinhas. Não sei se elas deixarão assim tão facilmente. Espero bem que não.

Quanto ao aspecto artístico do filme… Demasiado visto. Premissa interessante, os esquilos cantores. Não há problematização de serem esquilos falantes, quanto mais o cantarem. Mas vejamos o lado positivo: vozes de hélio a cantarem músicas de Natal é engraçado. Girinho mesmo.

Momentos que até prometiam? Nem me lembro. Deviam arranjar um novo sistema de classificação para os movies. Assim como há maiores de 18, sugiro que criem a classificação ‘menores de 18’. Por favor. Pelo bem público. E meu também.
(uma crítica desinspirada, eu sei. Tanto ou menos que o filme em si.)

Hot Fuzz (2007), Edgar Wright


Eles estão de volta….

Há três coisas fantásticas na Grã-Bretanha (pelo menos). A primeira é o príncipe William. A segunda é o sotaque. A terceira é a comédia.

Porque ninguém é tão refinado em termos de humor do que os ingleses. Uma coisa é certa – ou se ama ou se odeia. E não há dúvidas que eu tenho grande orgulho em me inserir na primeira opção…

Depois de Shaun of the Dead (uma paródia poderosíssima aos filmes de zombies, aclamada pelo próprio Romero, e que teve a estranha tradução em português de MoZombie Party: Uma Noite de Morte), Simon Pegg e o seu amigo cheinho (os novos Bucha e Estica, mas com estilo –e sotaque) vêm dar um novo ar da sua graça, desta vez aos malfadados filmes de acção, mais concretamente ao buddy movie.

As marcas de autor estão lá (sim, leram bem, marcas de autor): os cornetos, o estilo, o pub. Desta vez o problema é ( nome da personagem), um polícia de Londres que cumpre o seu dever bem demais e é por isso destacado para uma vilazeca da província, daquelas em que nunca acontece nada de interessante. Ou assim seria de supor. Mais que os jovens que grafitam, prejudicando a nomeação da vila à melhor vila da Grã-Bretanha, o super-polícia (ajudado por um reticente amigo, (nome da pers. aqui), irão desvendar uma conspiração poderosíssima e ter de batalhar para restabelecer a paz. Qual Máfia qual carapuça – nunca um mini-mercado escondeu tantos esqueletos nas prateleiras.

A música é completamente kitch, aliás, por dar a volta, camp (desculpem os termos pretensiosos mas tenho de usá-los para não os esquecer. Além de vos dar a oportunidade de usar o google para alguma coisa mais além de procurar pornografia). E com uma montagem xpto (lê-se xis-pê-tê-ó, e em termos leigos significa que os meninos sabem usar o Avid a sério), que cita inúmeras cenas dos filmes do género (filmes que estão presentes, aliás, de forma escarrapachada, nos filmes que os dois amigos alugam para ver, e que lhes servirão de inspiração para o grand finalle), desde… eu até explicava, mas isso estragaria a piada, acho eu.

Que dizer de Simon Pegg, além de eu apostar as minhas sapatilhas preferidas (e muito, muito maltratadas) que mais uns anitos e se tornará uma referência, digamos, ao nível de Rowan Atkinson, Eddy Lizard e, heresia heresia, Monty Python? Aqueles olhos albinos, cabelo louro à escovinha, corpo bem tratado, sotaquezinho britânico… se não fosse a existência do Clive Owen, não me escapava.

O seu amigo, compincha - Nick Frost – faz genialmente um boneco de pessoa sem ambições (novamente, mas faz tão bem que não me vou queixar pela repetição… por enquanto), mas é obviamente um sidekick, que não estou a ver a resultar sem estar ao lado de um Pegg. Estou enganada? Espero que sim.

Grandes momentos do filme – Explosões. Nós de cinema adoramos explosões. Principalmente aquelas completamente gratuitas, de grande estrondo a explorar toda o sistema de colunas Dolby Surround, filmadas em multi-câmara, e que ficam tão, tão lindas em laranja e amarelo, como se fossem nuvenzinhas fumarosas e morninhas. Hummmmmm…. Depois, o que acontece ao mauzão da fita é também de uma perversidade fofinha. (eu estou numa fase de diminutivos, porque estou bem disposta. Não, não é o relógio biológico a dar horas. De maneira nenhuma).

Momentos menos bons? Não me lembro de nenhum assim flagrante. Não sei porquê, não teve tanto impacto em mim como Shaun of the Dead, mas presumo (porque sou presumida) que isso se deva à minha incredulidade e ignorância quando vi o primeiro. Agora já sabia para o que ia. E não fiquei desiludida. Sim, apesar de não ter o Clive Owen aos tiros, não me pondo assim as hormonas aos saltos, é uma comédia bem feita, britanicazinha, e que abre o apetite para receber o que venha a seguir daqueles lados Peggianos. Ouvi dizer que agora vai ser um projecto sério. Medo, muito medo? Nem por isso. Curiosidade.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

The Golden Compass (2007), Chris Weitz

Dos produtores que vos trouxeram O Senhor dos Anéis… eis um filme com… uma Bússola!

(há campanhas publicitárias que me ultrapassam, realmente)

Eis mais um filmezinho na linha do Nárnia (medo, muito medo), e Harry Potter e assim. Adaptação da trilogia de Philip Pullman, mas ainda não sabem se vão fazer os outros dois filmes. Os meus amigos do IMDB nada dizem sobre isso. Hum…

Ora, e se eu vos disser que o filme não é mau de todo? Sim, um filme sobre mundos paralelos com animais falantes e realizado pelo sr. Chriz Weitz (que devem conhecer por ter feito… o primeiro American Pie) até que é das melhores coisitas de fantasia que tem aparecido nos últimos tempos?

Comecemos pela história, tirada do senhor Pullman. Há uma miúda que é uma espécie de ‘escolhida’, e sabe ler o aleteómetro (aka bússola dourada armada em Professor Kimbaça), e que dá pelo nome de Lyra. Essa Lyra tem um tio todo lindo e barbudo interpretado por Craig, Daniel Craig, que afinal não é tio nenhum, e que estuda a poeira entre os universos paralelos. O Magistério (enorme piscadela de olho à Igreja Católica, que não caiu nada bem nos sectores mais conservadores americanos) nega a existência de tal coisa – heresia, heresia – e trabalha em segredo com uma femme fatale Mrs. Coulter (Nicole Kidman, talhadíssima para o papel) para acabar com o lado divertido daquele mundo. Isto porque todos têm um ‘demónio’ pessoal, um animalzinho que reflecte de alguma maneira a personalidade da pessoa. Os das crianças mudam constantemente (o de Lyra é uma alegria, de gato para esquilo e etc), e para matar alguém é preciso matar esse demónio.

Todo este conceito tem potencial, não acham? E o filme está muito bem filmado (Weitz não se espalhou uma única vez apesar do Money, Money que esteve por trás disto tudo). Os animais falantes estão bem feitos, CGI do caraças (o que é refrescante, ver que afinal sabem usar a tecnologia em condições), e Dakota Blue Richards é uma revelação estrondosa, e que esperamos ver mais vezes por aí.

Momentos a guardar: os dirigíveis, Pantalaimon (o demónio de Lyra) a mudar de forma, as cenas na ‘reserva’ de crianças (laboratório maléfico), a luta de ursos polares, e sim, toda a construção de um universo que costuma falhar em coisas deste género.

Menos bom: o final. Pelos vistos guardaram o fim do livro para começar o segundo filme, o que nos dá uma coisa à papo seco, tipo novela to be continued. O que, se não fizerem o segundo filme,… Argh.





sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Enchanted (2007), Kevin Lima

Era uma vez… o último filme da Disney. E porque é que eu, uma snob de todo o tamanho, fui ver o último filme da Disney? Para lavar o cérebro, mes amis, e para ver se conseguia reacreditar na bondade inata do mundo etc e tal.

Kevin Lima... o senhor responsável por isto. Que também nos tinha dado o Tarzan (curiosamente, também fui ver esse ao cinema. Não me lembro de nada). Com Julie Andrews a fazer a narração, Amy Adams, Susan Sarandon (a má, evidentemente) e o bonzão da Anatomia de Grey, qual é o nome (será que interessa?), Patrick Dempsey.

(reparem como consegui escrever dois parágrafos inteiros e vocês ainda não sabem qual é a minha opinião. Muahh ah ah ah)

Todos sabem que já ninguém acredita nas histórias da Disney. Incluindo a Disney. Por isso um filme que parte disso mesmo – as histórias de princesas são ridículas e não acontecem na vida real – só pela ideia, já merece o aplauso. Acrescente-se que o filme começa de uma maneira tréé´, tréé ironique: em animação à lá Branca de Neve (sim, a boa animação que existia antes de existirem computadores e Pixar… sou do tempo em que…), com a Princesinha a sonhar com o Príncipe que aparece, armado em bom como só os príncipes (ou assim gostaríamos que fosse) conseguem ser, aparece a má – que é a mãe do príncipe (será que me escapou a inversão do complexo de Édipo? Não), e um ajudante labrego, um espelho, maçãs, e um poço sem fundo para onde a Rainha atira a Princesinha para um mundo horrendo – Nova Iorque. A real.

Por razões óbvias abstenho-me de contar mais. (i.e., qualquer anormal sabe como a história vai acabar – como acabam os contos de fadas, duh). Achei particularmente interessantes duas coisas: o uso de animação/imagem real, de uma perfeição incrível, e as constantes auto-citações da Disney – desde a óbvia Branca de Neve até Pequena Sereia, Cinderela, etc. Muito pós-moderno, sim senhora. Também genial aquele esquilo falante, que deixa de ser falante porque no mundo real os esquilos não falam. Portanto, mais uma razão para não pensar em ‘Alvim e os Esquilos’, porque NÃO ACONTECEU. (estou a ser má e a dispersar. Desculpem)

Amy Adams claramente nasceu para fazer de princesinha ingénua e virgenzinha (será que também ela vai pintar o cabelo de louro e pôr umas amigas novas? Medo). Patrick Dempsey parece estar sempre a fazer a mesma personagem, com uma variaçãozinha ou outra (sotaque brasileiro: Príncipe Encantado é assim mesmo, né, gatinho por fora e oco por dentro). James Marsdem faz tão bem o seu papel que só dá vontade de lhe espetar uma sova com tanto patriarcalismo junto, Susan Sarandon, bolas, está acima das minhas palavras, o esquilo Pip (cuja não-voz é feita pelo próprio realizador) – quero casar com ele.

Grandes momentos musicais, todos atacados por pássaros e pombos e coisas assim – um dos melhores momentos é quando a casa de Robert é arrumada por bichos muito, muito nojentos e citadinos, destruindo o mito que os animais são todos fofinhos. O momento no parque é muito, muito giro, e… o final muito, muito previsível.

Nem sei que dizer mais. Vê-se bem, uma boa aposta para distrair, lavar o cérebro, whatever. Se voltei a acreditar na bondade do mundo? Náááá….

terça-feira, janeiro 29, 2008

Knocked Up (2007), Judd Apatow

Coisa que este filme teve, sem dúvida, foi um dos traillers mais originais (e divertidos) do ano, que se limitava a mostrar uma das cenas mais fortes do filme, a do restaurante, quando Allison (interpretada por Katherine Heigl) revela a Bem (Seth Rogen) que… hum… está um pãozinho no forno. A cena é tão genial que os senhores da Total Film não hesitam em colocá-la na secção ‘Classic Scenes’.

Hum.

Lamento informar, mas se demorei algum tempo a correr a ver este filme (aliás, fui vê-lo um bom mês e meio depois de estrear, porque não havia nada mais interessante por estes lados – para verem o deserto cultural que isto é), foi porque tinha medo do que acabou infelizmente por se revelar – não achei assim graaaande comédia. Pelo menos uma que mereça tanta atenção. E a Kel, minha fiel companheira, o meu termómetro pessoal para ver se sou eu que me estou a armar em crítica intelectual ou se estou a ter uma reacção sincera às coisas, também não achou grande piada.

Depois apercebi-me que, embora ninguém tivesse detestado a coisa, havia aqueles que simplesmente tinham adorado e aqueles que não acharam nada de especial. E por fim – sim, isto já parece mais um estudo sociológico do que uma crítica, mas tenham calma – compreendi que todos aqueles que tinham adorado eram Homens.

Daí a minha teoria fantástica: Knocked Up, em português Um Azar do Caraças, é um ‘chick flick para gajos’. Tenho dito. Porquê?

Qualquer gaja familiarizada com as fórmulas dos filmes de gajas, comédias românticas e afins, sente que está perante os mesmos moldes mas com uma enoooorme diferença – aqui a princesa adormecida é um gajo pouco atraente, sem indícios de futuro promissor, alérgico a compromissos, que prefere passar o tempo a trabalhar num site sobre momentos skin flick no cinema. Ela, pelo contrário, é bonita, bem sucedida, inteligente. Ora, tal como nós gajas gostamos de pensar que o Richard Gere nos virá resgatar do nosso aborrecido quotidiano vestido de uniforme branco, pelos vistos a população masculina precisa de ser tranquilizada quanto à nossa suposta preferência (que nem é assim tão virtual como isso) por metro- e übessexuais. Tal como qualquer chick flick, o filme está recheado de clichezinhos que, para nós, mulheres supostamente emancipadas do século XXI, não vão lá muito bem com a nossa cara. Não, não somos umas taradas dos compromissos maritais. Não, não somos ultra-possessivas obrigando os respectivos companheiros a mentirem para jogarem ‘basebol virtual’ com os amigos. Aliás, veja-se como todo o filme está construído de forma a desculpar aquilo que muitas tipas – eu não, desisti dos homens e resolvi dedicar-me a algo muito mais simples: a programação de computadores – designam por criancice eterna masculina. Sim, porque nós somos tããão adultas, e queremos bebés, e somos responsáveis, e etc etc…

Mas não estou a falar do filme, eu sei. Vê-se bem, não é odioso, de maneira nenhuma. Tem momentos francamente engraçados, mas nunca dá para rir a bandeiras despregada, como, por exemplo, em Doidos por Mary. Porquê? Não sei. Será a temática? Talvez. Acrescente-se um dos momentos mais despropositados de sempre: no momento da ‘parição’, após os desmaios masculinos ao olharem para o ‘milagre da vida’ (mais um cliché em acção), é-nos mostrado o evento em si, em toda a sua depilação. Pequeno aviso, meu caro Apatow: não é só nos filmes eróticos que mostrar demais estraga o clima. Aliás, deixem-me explicar melhor para não me tomarem por puritana: não era preciso mostrar, porque assim criávamos melhor na nossa cabeça as imagens dos piores pesadelos. Não, não estamos a estudar obstetrícia, obrigado pelo slideshow na mesma.

No fundo, no fundo – tenho pena, mas já vi o filme há algum tempo, não me lembro de muitos pormenores, sorry – tudo me soou como um mega-episódio dos Friends. Isso não é necessariamente mau, mas daí até chamarem a isto a melhor comédia desde há muito…

Calminha, sim?

terça-feira, janeiro 15, 2008

Shoot 'em Up (2007), Michael Davies

Imaginem o Bugs Bunny e o Caçador, naqueles desenhos animados que preenchiam as nossas manhãs de fim-de-semana, quando éramos novos e inocentes. Agora imaginem que o Bugs Bunny tinha um jeitão com as armas. Cruzem-no com um Steven Seagal, Exterminador Implacável, James Bond, Jet Li, etc etc. Tudo isto dentro do charme do Clive Owen, o único homem que consegue salvar o Mundo de chinelos de enfiar no dedo e o único para o qual eu cozinharia e passaria roupa de sorriso nos lábios. Mesmo assim, mes amis, ainda estão a léguas do que este filme é. Milhas e milhas away…

E não, este não é um filme de gajos, embora tenha a Mónica Bellucci a fazer de prostituta leiteira (literalmente) e muitos, muitos tiros. É coisa que fique na história do cinema, que uma pessoa vá estudar daqui a alguns anos com respeito e veneração? Ná… Mas que interessa isso, num ano tão miserável como este, em que todos os filmes que talvez merecessem o meu respeito ou não vieram para Coimbra ou só cá ficaram uma semana? (eu sei, a net, mas algo em mim odeia filmes sacados).

Todo o filme que consegue manter o mesmo ritmo implacável do início ao fim, fazendo-me rebolar a rir com as incríveis sequências de acção, desde o primeiro plano de um Clive Owen a mastigar calmamente uma cenoura, sentado num banco, à espera do autocarro, até ao final de um Clive Owen todo esmurrado – deuses – também à espera do autocarro. Mr. Smith – o nome da personagem – apresenta-se como um homem implacável, com um passado que nunca nos é apresentado, e um futuro para o qual não somos convidados. Paródia aos filmes de acção dos anos 80? Parece-me demasiado redutor chamar-lhe isso.

E como não só de criticas deita-abaixo os senhores instituídos, deixem-me aqui louvar Jorge Sauron Mourinha pelas belíssimas palavras sobre o filme:

É um filme xunga que meteu o turbo à potência atómica, um desenho-animado absurdo de imagem real, um objecto deliberada e orgulhosamente idiota que tem como único fim pôr Clive Owen a matar o máximo de oponentes do modo mais implausível possível no mínimo espaço de tempo sem perder a pinta.(…) E, melhor ainda, toda a gente que trabalhou nele sabe-o e passa o tempo a piscar o olho ao espectador (a começar por Clive Owen e um Paul Giamatti impossivelmente cabotino). Como não gostar de um filme tão desavergonhado - e tão desavergonhadamente idiota - assim?

É por estas e por outras que eu acredito que os críticos de cinema do Público, no fundo no fundo, nem são más pessoas (ou críticos). Sem dúvida, a grande personagem do filme é Clive Owen (como me sabe bem teclar o nome dele… ahahahahha), com o seu ar enfarruscado e suado, trincando cenouras, os seus one-liners poderosíssimos (desde o óbvio What’s up, Doc?, que nos faz pensar – uau, isto do cinema pós-moderno, citacional e de palimpsesto foi a melhor coisa que aconteceu depois do Steve Jobs voltar para a Apple!) até I’m a British nanny, and I’m dangerous, passando por Fuck you, ya fucking fuckers. Mas Paul Giamatti… como dizer isto… ‘cabotino’ é sem dúvida o melhor adjectivo. Não só tem um toque de telemóvel genial (A Cavalgada das Valquírias de Wagner), que o interrompe sempre a meio de alguma matança (“Yes, honey? I can’t talk right now, I’m in the middle of something”), até a sua perversidade cinéfila (“Does anyone know what a Jimmy Cagney love scene is? It's when Cagney lets the good guy live.”), até à incrível, e esta sim, merece figurar na História do Cinema, frase: “Tit for tat, Mr. Hero. Tit for tat.”
Monica Bellucci? Sempre linda, mais velhinha é certo, com os seus enormes seios a baloiçarem pelo ecrã.

E o realizador, quem é? Michael Davies, uma quick search no IMDB e fico a saber que o único filme que vi dele foi o 100 Girls. Lembram-se? A história daquele tipo que tem uma noite de sexo escaldante no elevador da residência universitária e não sabe com quem? Pois. Eu lembro-me bem do amigo dele, daquele que pendurava pesos nas… pendurezas… para ver se esticava algumas coisa. Uma comédia adolescente um bocado estranha.

Banda sonora… estou a ouvi-la enquanto escrevo isto. Muito rock, muita acção, tudo o que se pedia, de facto. Palmas para o senhor Paul Haslinger, ex-membro dos Tangerine Dream, agora a solo.

Melhores cenas? Ui, difícil é escolher… Digamos que a cena de sexo está entre as melhores que alguma vez vi (e não digo isto só porque lá está o Clive Owen), assim como quando Mr. Smith espanca a mãe de uma criança, todas os momentos cenourísticos, a cena em que julgamos que, finalmente, o mauzão da fita conseguiu matar o bebé, e o momento final frente à lareira. Pronto, de resto vejam. Adoro especialmente o facto de não perderem tempo a explicar o pretexto para a história – aquilo das armas, etc etc – porque o que interessa, sem dúvida, é ver o Clive Owen aos tiros. O resto … fuck it.



quinta-feira, janeiro 03, 2008

Fay Grim (2007), Hal Hartley


A mera menção ‘independente americano’ me faz correr, por norma, para as salas de cinema. Nunca tinha visto nada do senhor Hartley que, segundo a Ipsílon, teve o seu apogeu com três filmes no início dos anos 90 e depois embarcou numa viagem sem regresso para o mundo da Decadência Cinematográfica (críticos maldosos – eu recuso-me a acreditar antes de ver – dizem que o pai Coppola também por lá anda). ~

Fay Grim seria assim o aguardado regresso de Hartley ao caminho do bem. Repito, nunca tinha visto nada do senhor. E não vi nada depois de Fay Grim. A vontade que tinha desapareceu como por encanto. Como não tenho base de comparação, não acho justo fazer aqui um ataque ao filme ou ao realizador. Costuma-se dizer que os filmes que odiamos quando vemos a primeira vez correm sérios riscos de se tornarem os nossos preferidos anos mais tarde. Eu odiar não odiei, mas passei pelas brasas, que é uma coisa que nunca antes me tinha acontecido no cinema. Estava cansada, sim, mas não tãããão cansada assim. Os meus dois companheiros de sala ficaram até ao fim dos créditos, i.e., intelectuais. Não percebi se gostaram ou não. Saí rapidamente e fui tomar café.

Não gosto de críticas impressionistas, mas não sei como falar deste filme. Não sei mesmo. Irritou-me profundamente. Coisa que me irrite mais só Godard, mesmo. (sim, heresia, vou arder no Inferno, temos pena – estou Truffautizada, não gosto do Jean-Luc nem coberto de chocolate). As letras gigantes, os créditos a arrastarem-se durante a meia-hora inicial, as piadinhas intelectuais… deuses, se o francês tivesse morrido eu jurava que tinha reencarnado. Boa, boa, era a actriz – no sentido de qualidade de representação, explicite-se. E o guarda-roupa. A história? Um policialzeco muito estranho, talvez escrito por um pseudo-Dan Brown. Continuação de Henry Fool, soube depois. Planos… fácil. Os ímpares inclinados para a esquerda, os pares para a direita. Não, não estou a gozar. Sempre assim, até ao fim. Sim, irrita bastante. Final? Do que me lembro, do mais previsível possível.

Mas contenho-me. Será que estou a insultar o Varèse do cinema? Será quer é demasiado profundo e à frente para eu entender? Ou é pura e simplesmente oco e ninguém tem coragem de dizer que o rei vai nu? Não sei (penso maldosamente que se o realizador fosse português nem eu tinha dúvidas existenciais nem os críticos – penso eu, mas não ponho as mãos no fogo/figo – seriam tão expansivos).

Há filmes que tenho de ignorar e ver noutra fase da minha vida. Este deve ser um deles. Até daqui a alguns anos, então.

Beowulf (2007), Robert Zemeckis


Quando eu era uma criança inocente, o que nem foi assim há tantos anos como isso, tinha uma VHS em casa que estava sempre a meter no vídeo. Chamava-se Quem Tramou Roger Rabbit? e é, pelo menos, o responsável por eu ter uma fixação nada saudável com vestidos vermelhos brilhantes.


Soube anos depois que o responsável por esse momento de film noir meets cartoons chamar-se Robert Zemeckis e ser pessoa conhecida por fazer filmes bastante bons (O Náufrago - a fazer fé em opiniões alheias - é disso um bom exemplo). Ora, em 2004, se não estou em erro, o dito senhor Zemeckis resolveu empregar uma técnica nova chamada motion capture (entre familiares, carinhosamente tratada por mo-cap) e fez Polar Express. Não, não vi. Só o trailer bastou para não ter vontade nenhuma de gastar o meu rico dinheiro naquilo. Parecia um filme de zombies.


A minha grande dúvida existencial, aumentada uns biliões de vezes depois de ver Beowulf, prende-se com as vantagens de tal sistema. Percebo que a animação permita coisas maravilhosas (entre as quais, não precisar de levantar cedo para dirigir actores), mas ter os actores em carne e osso, pôr-lhes sensores no corpo e depois passá-los a uma animação ‘de sólidos’ tão primitiva que faz com que o Noddy pareça uma coisa sofisticadíssima… Por quê? Por quê? Depois de Finding Nemo, Shrek, e Ratatuille… por que raio as personagens de Beowulf parecem estranhamente semelhantes – aliás, dizendo verdade, ainda menos detalhadas – que os meus puppets dos Sims2? Coincidência? Não vi a referência à EA Games em lado nenhum…


(Soube há pouco tempo que Tim Burton – o Excelso Autor que Não Cumpre Prazos de Pós-Produção Porque É Perfeccionista – vai expandir a sua curta Frankenweenie a longa e pensa usar mo-cap se não nesse, num próximo projecto. Medo, muito medo… ele que nunca me conseguiu desiludir… argh)


Como se não bastasse, tive o prazer de pagar 1.50 por uns óculos 3D, para viver a experiência. A minha opinião sobre o 3D? Bem, as calças boca de sino voltaram, os Rolling Stones dão concertos… porque não o 3D? Apesar de preferir o ressurgimento dos drive-ins e cineclubes a sério, não tenho nada contra os óculos estúpidos. Mas atenção – o filme tem de justificar o uso da técnica. Ora, se faz sentido o Jaws 3D, Infected Spiders From Outer Space 3D e até The Wonderful World of Flying Things in Your Directions 3D, há situações em que não se justifica – de maneira nenhuma. Acrescente-se que aquilo que vi no Beowulf, para mim, não é 3D nenhum – a não ser que consideremos aqueles desenhos para ver com os óculos bicolores na traseira das caixas de Chocapic the real thing. Porque não é uma espada apontada à 3ª fila – coitada de mim que estava bem atrás, assim como todo o espectador europeu que se preze – que me faz dizer Uau na era da Playstation 3 e dos vibradores a luz solar. Nope. Não impressiona.


At last and awfully least, a história em si. Adaptação do conto inglês do século VII, ou VIII, ou IX. Antigo. Nunca li, sorry. Mas estive a cuscar aqui e ali, e não se trata de uma adaptação ipsis verbis. De facto, há uma boa dose daquilo que entre nós, estudantes de cinema pseudo-intelectuais, chamamos de ‘liberdade poética a armar à telenovela da TVI protagonizada por Steven Seagal’. Não querendo estragar o filme aos felizes que vão esperar pelo próximo Natal para o ver no conforto do lar, digamos que aquela história de fazer monstros à Jolie é treta hollywoodesca. Também não há qualquer referência a monstras nuas terrivelmente humanas, bonitas, é certo, e trabalho de câmara suficiente para ilustrar só com essas cenas qualquer compêndio de tomadas de vista de câmara. Só faltou mesmo o in uterus, e até se podia estudar anatomia feminina com aquilo. Reforço ‘feminina’ porque, apesar do filme ser para maiores de 16, e animação, nem uma insinuação de prepúcio ou falta dele nos é dada a ver. Não, não sou uma tarada por piwinhas em filmes, mas quando vemos o senhor Bewulf nu em grande parte do filme, sempre com uma taça/braço/trave/nevoeiro à frente, começamos a achar que a pudendice do senhor Zemeckis em relação ao corpo masculino em todo o seu esplendor (sim, porque estamos a falar do Fantasma da Ópera/Leónidas/Gerald Butler – para quando um musical com ele em tronco nu, ahein?) revela quiçá ou esqueletos no armário ou medo de sair de lá.(esta foi tão profunda que nem eu a atingi em toda a sua imensidão).


Música? Nem me lembro.


Bons momentos? O trailer dos peixes pré-históricos da National Geographic que passou antes do filme. Sim, leram bem. Eu sei que a crítica internacional, sobretudo a americana, vibrou com a coisa. Temos pena.


Depois de 300, depois de Sin City, meu caro Zemeckis… eu – e falo por mais gente do que seria suposto – não como de sorriso alargado qualquer porcaria embrulhada em marketing de vanguarda tecnológica que me ponham à frente. Devias fazer o mesmo.

Land of The Blind (2006), Robert Edwards


Land of the Blind, em português ‘Terra de Cegos’, dirigido por um ainda verdinho Robert Edwards, estreado nos States o ano passado e que só este ano tivemos o prazer de o ver nas nossas salas, no caso de Coimbra numa única semana – já que não se mantém para a próxima – arrasado pela crítica americana, penso que posso dizer desprezado ou ignorado pela portuguesa – não tenho indicações da opinião de Mário Voldemort Torres nem de Jorge Sauron Mourinha; eis que nos encontramos perante um objecto tão estranho e, ao mesmo tempo, tão fascinante, tanto que me apetece dizer, apesar de ainda estarmos em Novembro e Hot Fuzz e Sweeney Todd parecerem prometedores, que foi, pelo menos para mim que não sou ninguém, o filme do ano – estando consciente do irónico que é chamar filme do ano a um filme de 2006.

Quem, por alguma estranha razão, viu o trailer, ficou com a ideia que este seria uma espécie de, para o espectador normal, um Filhos do Homem que muda o ênfase do ambiente para a política, ou, para o espectador ideal e cinematicamente culto, um revisitar de filmes do género 1984, Brazil (Terry Gilliam) ou mesmo Fahrenheit 451 do nosso amigo François Truffaut.

(a propósito, houve um crítico americano – os críticos americanos têm destas coisas, são de uma maldade inteligente e charmosa incrível - que resumiu o filme na expressão Brazil as directed by Ed Wood)

Ou seja, uma distopiazinha à la carte, de esperar umas boquinhas ao senhor Bush Júnior, à guerra no Iraque, uma comparaçãozeca dos Estados Unidos com a Alemanha nazi para escandalizar as pessoas, quiçá uns helicópteros em câmara lenta, Ralph Fiennes a tentar redimir os últimos devaneios da carreira e tentativas de assassinato do Harry Potter… seria o óbvio. Realização convencional, talvez numa mistura de Cronenberg com Spielberg nos seus dias mais felizes, nada muito espampanante, limpinho…

O je ne sais quoi do filme – e se há filme que tem um je ne sais quoi, é este (e esta piadinha só é compreendida por aqueles que tiveram o prazer de o ver) – é que não podia ser mais imprevisível. E vou-me conter para não lançar spoilers sobre spoilers para não estragar surpresas, que são muitas. O início do filme é com uns elefantes. Depois temos footage a armar ao antigo para nos pôr dentro da situação política de um país sem nome, governado pelo segundo membro de uma terrível linhagem, Maximiliano II, que além de ditador é também um convicto realizador de cinema, autor de obras do gabarito como With a Vengeance 4 – em português qualquer coisa do género ‘Implacável Furioso’. Ah, ah, ah, eis a crítica oportuna ao mediatismo de certos políticos, nomeadamente actores que viram senadores e candidatos a presidente que viram documentaristas. Depois, os rituais ridículos, uma Primeira Dama, não de Ferro, mas em bondage, o preso político amado pelo povo, a ajuda de alguém que até que não se sentia muito afectado pelo sistema, mas buga lá mudar o mundo – estou a falar da personagem de Ralph Fiennes - o assassinato, a revolução… e a instauração de uma nova ditadura, ainda pior que a primeira. Bem apanhado, sim senhora, Donald Sutherland numa invocação bárbara e barbística de Karl Marx, um romance ligeiro entre Fiennes e uma bela rapariga. Só que o anterior herói do povo recusa-se a aceitar a nova sociedade em que não há leite nem pão e as mulheres usam burcas, e é enviado para um campo de concentração estranhamente semelhante com um retiro budista. Ui.

Até aqui, tirando os flashes de Fiennes a escrever a história num quarto branco e imagens de elefantes na savana, a correrem, a serem eletrocutados, etc, isto parece um filme normal. A partir do momento em que Fiennes entra no quarto 12… É de deixar o maxilar descair até o nível dos joelhos. Até ao final, abrupto. E saímos da sala a pensar no que foi tudo aquilo, e vamos para casa a pensar naquilo… o que é aquilo?

Apesar da imagem estar cheia de grão, e se notar que Edwards não perdia nada com algumas aulinhas de técnica de realização (fala a rota para o remendado de veludo), mas… há histórias que conseguem fazer-nos esquecer desse tipo de coisas.

A banda sonora portentíssima, uma montagem um bocadinho mtv demais, mas perdoável pela sensação bad trip que nos deixa, Ralph Fiennes abafado por Sutherland, acho eu…

Grandes momentos? Todos. Estou a lembrar-me da cena do editor dos filmes de Maximiliano II, e a pensar se os estúdios não gostariam de ver o método aplicado a alguns trabalhadores mais resistentes (topem a referência intelectual à screenwriters’ strike) … é delicioso por todos os pormenorzinhos que tem, é impossível abarcá-los todos só de uma vez, embora agora tenhamos de esperar que saia em DVD – esperemos que saia em DVD -, ou mais rápido, sacá-lo, ou até, o esforço supremo, fazer o download na Internet mediante o pagamento de uma pequena taxa, com a esperança que nessa altura uma percentagem vá parar ao bolso do argumentista (olhem outra vez a referência…) – que é o próprio realizador, Robert Edwards.

Vamos ver o que aí vem, se ele não desanima com as críticas malvadas e demoníacas da crítica americana, é arriscado fazer um filme ofensivo para gregos e troianos. Eu vou estar à espera. Até estou a pensar em me oferecer como assistente de realização, servir-lhe uns cafés… aposto que, quando ele for famoso, vão todos morrer de inveja. Ah ah ah. Mua-ah-ah. Sim, corram para vê-lo. Não sei como, mas esforcem-se. E depois emprestem, ok? Jocas distopicamente gordas de burca e cabelo rapado.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Elizabeth: The Golden Age (2007), Shekhar Kapur

Ainda tive a tentação de fazer copy paste do veneno que destilei sobre este filme na edição d’A Cabra, mas depois pensei: bolas, pareço um crítico do Público, tenho de aprender a conter-me, senão ainda corro o risco de ser tomada por séria.

A maior desilusão do ano, para mim – o que é diferente de ser o pior filme do ano (tenho de começar a fazer esses tops anuais, para ver até que ponto consigo pensar com quilos e quilos de torta de Natal no estômago.). Pelo menos até agora. Falava-se de uma sequela a Elizabeth desde 2003, se não estou em erro. O projecto atrasou-se porque Blanchett mostrou-se reticente em voltar ao papel. Vendo o filme, percebo porquê. É terrível de se escrever, mas alguém tem de o fazer – que sequela desnecessária! Quase tão idiota como as do Matrix.

Lá estou eu outra vez a verter veneno. Deixem-me então poupar tempo precioso (está quase a começar a Letra L, dêem um desconto) e fazer o tal copy-paste:

Quase 10 anos após o sucesso de Elizabeth, Kapur volta a debruçar-se sobre uma das figuras mais fascinantes da história inglesa.
Se o primeiro filme fora descrito como um poderosíssimo ensaio sobre a dimensão claustrofóbica do poder absoluto, Elizabeth: A Idade do Ouro peca por não conseguir alcançar a complexidade de sentidos do seu predecessor. Sem medo de romancear factos, Kapur coloca uma Elizabeth (Cate Blanchett) envelhecida a debater-se entre os deveres reais – a traição de Mary Stuart, o iminente ataque espanhol - e o charme do pirata Walter Raleigh (Clive Owen). Durante o filme, não conseguimos deixar de pensar que toda a história não passa de um pretexto para ver Blanchett novamente em figurinos de época e para fazer paralelos visuais com ícones religiosos da Idade Média, insistindo ad nauseam na imagem da Rainha/Virgem Maria, rodeada de uma aura de santidade que simplesmente não funciona quando, sem qualquer tipo de ponte, é posta ao lado dos ciúmes terrivelmente humanos de Elizabeth a mulher.
Visualmente arrebatador – Kapur é sem dúvida um virtuoso da técnica -, é na fotografia e mise-en-scène que o filme mostra a sua força. Infelizmente, nem sempre o conteúdo acompanha a forma. Mesmo o momento alto do filme, a batalha naval (apresentada numa pertinente montagem paralela), não cumpre as expectativas épicas geradas: é curta e não sabe construir qualquer tipo de tensão. Mesmo Blanchett, no regresso ao papel que a confirmou como grande actriz, fica sufocada pela imensidão e luminosidade dos espaços em que se movimenta. Não mais a reflexão sobre o peso do poder: o que há neste filme é o melodrama barato em roupa de época ao jeito de Errol Flynn, um tratamento simplista do envelhecer da rainha, a queda em estereótipos demasiado fáceis – os fanáticos espanhóis saídos de um quadro de El Greco, uma Mary Stuart (Samantha Morton) ambiciosa e beata –, as frases grandiosas que ficam bem no trailer, e resta a pergunta: era mesmo necessário? 3/5

Que ruindade, não acham? Felizmente, por razões de espaço, não pude dizer tudo o que me ia na alma. Mas, uh lá lá, eis-me perante a folha branca interminável da Internet. O que é que falta dizer?

Não sei se quero falar das incongruências históricas do filme. Porque eu, por acaso, até que leio sobre a época Tudor desde os meus tenros 12 aninhos – e livros de historiadores e ensaios sobre desde os 14. As chamadas liberdades ficcionais são perfeitamente admissíveis, porque é de um filme que se trata, ora bolas, uma possível obra de arte. Ninguém manda e-mails ao Dali a dizer que os relógios são coisas bastante sólidas e não têm por hábito derreter (deve ser a má qualidade dos produtos espanhóis, digo eu…) Deixem-me só dizer que a primeira falha vem logo no título : a chamada Idade do Ouro isabelina começa depois da derrota da Armada Invencível, não antes. E chega de erudição não cinematográfica gratuita.

A banda sonora. O que é aquilo, deuses? (vejo na cábula imdbiana que o responsável pela coisa é um tal de Craig Armstrong). Um bocado desfasada, a armar ao épico moderno. Acalmem-se os meus quatro amis que vão ler isto: eu adoro épicos a armar ao pingarelho modernaço – veja-se a minha crítica de Marie Antoinette, que continuo a defender mesmo quando as bombas me caírem em cima. Mas esta música… se calhar o problema não é bem da música (e aí vai a private joke para aqueles que contactam comigo no mundo empírico: Temos de dar um desconto porque é de música… ) mas sim da junção da música à imagem. A sério, não consigo explicar melhor: os capa e espada à lá Merry England dos anos 40, só que com dollies, filtros e efeitos digitais.

Depois, eu continuo na minha: o Clive Owen tem os dentes demasiado brancos para fazer um pirata credível. Relembro os dentes de Geoffrey Rush não no Elizabeth original (porque o de ’98 era o original, este é a fotocópia com falta de tonner[1])[2] mas em A Paixão de Shakespeare. Aquilo sim, era uma dentadura isabelina. E já que falamos desse filme tão levezinho e no entanto recheado de pormenores deliciosos (basta dizer que um dos argumentistas foi Tom Stoppard, e se não sabem quem é este, google it!), acrescento que aí sim, uma rainha velha. Se o ataque espanhol foi em 1586, e o filme com Lady Judy Dench se passa em 1593, não acham que Blancehtt está demasiado bem conservada para uma mulher de 40 e tais anos, numa era em que – como lembrava a minha prof de História – não havia pasta de dentes ou aspirinas?

Pena tenho de não se terem decidido em explorar de forma decente os namoricos proibidos da Rainha, ou então fazerem um retrato decente do clima de conspiração. Aquela ideia da filha de Filipe II com a boneca de Elizabeth está genial – mas resultaria muito melhor como punch line para o espectador ao mesmo tempo que para o pai: perde a força porque é uma realidade que nos é apresentada poucos minutos depois do filme começar. A batalha naval não perderia nada em ser uns minutos mais longa – quiçá construir qualquer tensão/resolução – já que é (se calhar devia mandar o livro de guinismo ao sr. Kapur pelo correio – o Clímax. Ou, noutras palavras, porque estou numa de me soltar, o grande O do filme.

Não cai nenhum santinho se forem ver o filme – a não ser que vos impinjam uns óculos 3D de 1.50, ou tenham de pagar o bilhete normal sem nenhum tipo de desconto – aí têm o direito de se sentirem roubados. Mas se tiverem uma qualquer promoção TMN para aproveitar, ou desconto de Capitão Jovem, ou coisa assim, e principalmente se não tiverem visto o primeiro, não tendo assim qualquer ideia do bom que o sr. Kapur pode ser com um orçamento tão mais reduzido, até que é bom entretenimento. Mas também o é a masturbação e sai mais barata.[3]



[1] mais uma vez, uma dissimulada private joke, mas desta vez apenas duas pessoas vão perceber – ou seja, 50% dos leitores deste blog. É claro que este filme, apesar de eu o apelidar de fotocópia com falta de tonner, não tem um décimo do encanto do referendo a que a expressão se referia originalmente.
[2] Já repararam que desde que eu me apercebi que podia meter notas de rodapé nos posts não quero outra coisa?
[3] Pronto, estou claramente numa fase punk. Fuck the system.

A Outra Margem (2007), Luís Filipe Rocha

Fui ver este filme pelo triste facto que tinha de fazer a grelha para a Cabra e não estava numa onda de aturar Os Seis Sinais da Luz – era feriado, já tinha um Herzog na barriga, resolvi ir dar uma oportunidade ao cinema nacional. Medo? Muito, acrescentado pelo facto de ter lido a sinopse. Travestis? Homossexuais? Síndrome de Down? Meeeeedoooo….

Sim, muito aclamado lá fora (sei lá onde? Que garantias é que me dão que lá fora não são todos doidos?), prémios para Filipe Duarte (hum… o rapaz costuma safar-se bem), talvez até ficasse bem impressionada. Acresce-se o facto de que estes filmes portugueses saem em edições DVD de vinte exemplares, todos enviados para a Fnac do Chiado em Lisboa. (pois, porque eu queria partilhar a minha opinião sobre O Mistério da Estrada de Sintra com os meus amigos e cadê? Para piorar é o género de coisas que ninguém se preocupa em pôr nos circuitos ilegais internéticos…). Por fim, a Lusomundo – que todos sabem, pelo menos eu esforço-me para que saibam, tem uma óptima política de exibição em Coimbra -, uma semana após a estreia, resolveu pôr o filme numa única sessão diária, às 21.40. Numa cidade que tem uma sala ocupada pelos Robinsons – versão portuguesa há muito tempo (claro que para o Dr. Bacalhau são meros segundos), e duas salas para o Corrupção… bem, não é preciso escrever mais nada.

Mas fui, contra todas as expectativas. Gosto que se façam de difíceis comigo. (por acaso não, mas era uma piada fácil e não resisti). E contra todas as expectativas… gostei. Muito.

Primeiro – tem uma direcção de fotografia tão boa que dá vontade de chorar. E, ao contrário do que uma pessoa se tinha habituado na cinematografia nacional, tem direcção de actores. E a história… por estranho que pareça, conseguiu manter-se durante umas duas horas sem cair uma única vez no cliché. Oba oba. O que se pode pedir mais? A banda sonora, da autoria de (), serve às mil maravilhas. A cena inicial, em que vemos Filipe Duarte (essa nova esperança do cinema português, que já fez de tudo com todos, e que espero um dia ter o prazer de trabalhar com ele – graxa graxa graxa) travestido a cantar em playback uma música manhosa qualquer, desarma qualquer um. Bem, talvez não os homofóbicos.

Tudo o que vem depois – o conformar-se com a morte do namorado, o ir viver com a irmã e o sobrinho, a ex-noiva abandonada no altar – é contado de uma maneira muito simples, mas sem nunca cair em paradigmas televisivos ou telenovelescos. Já sabemos que Filipe Duarte será redimido pelo sobrinho ‘diferente’, mas surpreendermo-nos ao perceber que também o sobrinho ficará a ganhar com o contacto com o tio ‘esquisito’. A marginalidade de ser diferente, de estar na outra margem, também pode ser o melhor que nos aconteceu. E o que nos define enquanto pessoas.

Dá-me esperança que se falam filmes assim, simples e profundos, neste inferno cinematográfico à beira-mar plantado. Boa, Luís Filipe Rocha.

terça-feira, novembro 13, 2007

Rescue Dawn (2006), Werner Herzog


‘Espírito Indomável’, em português; como me explicou o Nando, uma tradução literal – rescue, espírito, dawn, indomável.

(vou tentar não começar a crítica com Ora)

Quem olha para a sinopse do filme (gentilmente oferecida pelo IMDB) e/ou para o trailer, está longe de imaginar que o realizador, alemão, Werner Herzog, é um ilustre membro do movimento ‘Neue Kino’, uma espécie de Nouvelle Vague para os boches. Outros ilustres membros do movimento foram R. M. Fassbinder (está a decorrer um ciclo sobre ele na Cinemateca Lisboeta – coitados daqueles que vivem na província, e não sabiam quem era o senhor quando houve um ciclo cá… snif snif) e o Wim Wenders, mais conhecido por ter feito a versão intelectualóide da Cidade dos Anjos, uns bons anos antes e intitulada Himmel über Berlin, ou em inglês, Wings of Desire. Para concluir a minha demonstração gratuita de intelectualidade e cultura geral apuradíssima acrescento que houve na altura uma coisa chamada Oberhausen Manifesto, a razão do cinema alemão se ter levantado das cinzas nos anos 70. Eu até dizia o que consta desse manifesto, mas comprei acções da Wikipedia e preciso de as ver render.

Tudo isto para dizer que este pode parecer mais um filme americano sobre a guerra no Vietname (até parece que estou a ouvir: MAIS UM???), mas não é. Ohhh. Mas parece.

Numa de confissões, e porque espero que quando atingir a celebridade os meus assistentes façam desaparecer no buraco negro internético estas baboseiras que debito regularmente, o único filme do Herzog que vi antes deste foi uma coisa… talvez deva escrever Coisa… chamada Hertz aus Glaz – sim, eu gosto de exibir o meu quase esquecido alemão – ou seja, Corações de Gelo. Não foi coisa que eu apreciasse por aí além, diga-se de passagem. Demasiado intelectual até para mim. Não há intelectualidade que resista à fraca qualidade VHS junto com um vídeo dos anos 70 e uma televisão dos 80. Mais tarde soube que este filme foi considerado por autoridades mais competentes como um dos mais ao lado do senhor Herzog, e senti-me feliz. Vou ter de dar outra oportunidade ao senhor, noutro dia de nevoeiro. Isto tudo para dizer que ao ver este filme esforcei-me por tentar ver o europeu intelectualóide por detrás das explosões.

Existem vários momentos em que Herzog cai nas suas marcas de autor (isto no sentido positivo da coisa) – lembro-me de dois: quando Dieter está a ser levado para o campo de prisioneiros de Laos e ouvimos a voice over: Os vivos têm os seus sonâmbulos e os mortos também (ou qualquer coisa do género), e depois, no fim, quando Dieter chega são e salvo ao seu barco, diz as palavras místicas: Esvaziem o que está cheio, encham o que está vazio… cocem onde tiverem comichão. Uma auto-ironia ao estilo Confucius says tão presente na obra de Herzog (pelo menos dizem que sim, que ele gosta de grandes frases aparentemente desprovidas de sentido)? É possível.

Um grande hip, hip, hurra para a banda sonora, a cargo do compositor Klaus Badelt e para o grande Actor Christian Bale, o Klaus Kinski de serviço, magríssimo, de um entusiasmo exasperante nos momentos mais improváveis, um plane freak com gostos culinários bastante peculiares. Não sei é o que a Sociedade Protectora dos Animais pode dizer sobre esses mesmos gostos…

A vegetação luxuriante da selva, a humidade que se sente mesmo quando a época das monções ainda não começou, o desempenho de Steve Zahn seguem de perto Bale e a Música. No fundo, no fundo, as únicas coisas que não me deixam sentir arrebatada pelo filme (se calhar o problema é meu, arrebato-me com as coisas erradas, tipo donuts com chocolate e relâmpagos) foram as concessões que Herzog fez ao american way of making movies – o ritmo da imagem (isso para mim até é positivo, já que pode servir de isco a gerações mais reticentes ao cinema de autor). Depois… hum, sei lá, a história tem um arzinho americano, mas não me posso esquecer que é baseada em factos reais, e se na realidade acabou bem, não iam deixar morrer o Dingler no fim só para me fazer a vontade.

Venham mais (deve ser dos poucos realizadores-velhos-mestres vivos que eu não tenho pena do facto). Com galinhas, que falharam a chamada para este.
(Pronto, Nando, acho que já corrigi tudo. Os pontos de interrogação estavam lá para alguma coisa...)